Conflito na Arábia Saudita reforça: precisamos privatizar a Petrobras

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Conflito na Arábia Saudita reforça: precisamos privatizar a Petrobras

Por João Flávio Figueiredo* 

Mercados globalizados são exemplos do Efeito Borboleta: a teoria de que o bater de asas de um inseto poderia influenciar em acontecimentos do outro lado do mundo. O conflito ocorrido nos últimos dias na Arábia Saudita resultou em consequências globais, algumas ainda incertas e imprevisíveis, mas reforça lições para os brasileiros em relação à maior empresa do país: a Petrobras.

O conflito na Arábia Saudita e como ele afetou o mundo

Os mercados financeiros registraram a maior alta diária dos preços do petróleo da história nesta segunda-feira (17). Os valores do barril da commodity dispararam até 20% após uma série de bombardeios a duas grandes refinarias na Arábia Saudita.

A empresa atingida foi a Saudi Aramco, a mais lucrativa do mundo em 2018, com US$ 111,1 bilhões: muito mais do que Apple e Exxon Mobil. Ela é responsável por 6% do suprimento mundial de óleo.

Esse ataque surpresa deixou a maior petroleira do mundo em uma situação delicada. Os executivos da empresa preparavam a maior Oferta Pública Inicial (IPO) da história, isto é, passariam a negociar na bolsa as ações da empresa. Com o conflito, porém, a companhia anunciou que pode ter de postergá-lo.

Os motivos desse ataque exigem uma análise minuciosa da complexa teia geopolítica do Oriente Médio.

Jornais árabes noticiaram que os disparos foram praticados pelo grupo Iemenita Houthi, que é ligado ao Irã. Atualmente, esse país está sofrendo com o retorno das sanções americanas devido ao fim do Acordo Nuclear.

Os Estados Unidos, por sua vez, tem como aliado estratégico no Oriente Médio a Arábia Saudita.

Isto é: o principal aliado dos Estados Unidos na região foi atacado por seu principal rival.

No momento, o governo norte-americano aguarda investigações sauditas que buscam averiguam se os ataques partiram dos grupos aliados ao Irã ou do próprio governo do Irã.

Como o conflito na Arábia Saudita afeta o Brasil?

Inicialmente, empresas negociadas na Bolsa de Valores de São Paulo, como a Petrobrás, tiveram fortes altas após o aumento do preço do petróleo.

A explicação é simples: uma valorização do óleo pode beneficiar os próximos balanços da empresa.

O problema é que por ser controlada pela União, a Petrobras é muito sensível a interferências governamentais.

E com a alta do preço dos combustíveis, outros setores da economia serão prejudicados, e a experiência mostra que irão pressionar o governo para interferir na política de preços dos combustíveis da Petrobras.

Nesse contexto, a estatal manterá a apregoada política de preços liberal ou lançará mão de medidas protecionistas e de controle de preços como no passado recente?

Em maio de 2018 o grupo dos caminhoneiros ganhou destaque ao organizarem uma revolta que durou 9 dias e prejudicar o abastecimento de diversos produtos no país. O movimento causou prejuízos bilionários a dezenas de setores, prejudicou milhões de brasileiros que ficaram sem acesso à produtos e serviços e há indícios de que as medidas demandadas pelos próprios caminhoneiros os prejudicaram, com a renda dos autônomos caindo.

Porém, como resultado da pressão eles conseguiram influenciar na política de preços da Petrobras e na queda de seu então presidente e responsável pela reestruturação da companhia Pedro Parente.

Nesse sentido, com o episódio no Oriente Médio, investidores temem os próximos passos da Petrobras. Com a expectativa de variação dos preços nos próximos dias, há o risco da empresa fazer o chamado hedge, uma proteção contra a variação de preços, deixando de repassar aos consumidores o aumento de valor registrado.

A depender do tamanho e duração deste movimento, a companhia pode ficar em situação delicada.

Controle de preços na Petrobrás foi pior que corrupção

O melhor exemplo para se entender quão demolidor pode ser interferir no sistema de preços em uma companhia como a Petrobras ocorreu sob o governo de Dilma Rousseff.

À época, a Petrobras foi utilizada para represamento de preços para maquiar a inflação e ajudar na vitoriosa reeleição da petista em 2014.

Chegou-se a situação absurda de que quanto mais a empresa vendia seus produtos, maior era seu prejuízo.

Conforme admitido pela própria corporação em seus balanços, o prejuízo causado pela corrupção desvendada pela Operação Lava Jato foi de R$ 6,4 bilhões. Alguns peritos calculam que os danos podem chegar a R$ 42 bilhões. Em paralelo, o rombo motivado pelo controle de valores dos combustíveis foi calculado em R$ 55 bilhões até 2014.

Em outras palavras, por pior que tenha sido a corrupção, o represamento de preços da estatal foi ainda mais destrutivo para a empresa de capital misto.

Apesar do discurso, há indícios de que o presidente Jair Bolsonaro já tenha interferido na política de preços da estatal no início de abril de 2019. À época, ordenou que o presidente da Petrobras Roberto Castello Branco revogasse o reajuste do diesel, horas após a medida ser anunciada.

Não à toa as ações da empresa caíram mais de 9%, uma perda de valor de mercado de R$ 32,4 bilhões. Após muita pressão, o combustível acabou por sofrer reajuste após o episódio, mas com valores menores do que os anunciados inicialmente, evidenciando a interferência da presidência da República.

Para evitar interferências políticas é preciso privatizar a Petrobrás

Mesmo com todo o uso político, interferências em negociatas e corrupção desvendadas na Petrobras dos últimos anos, segundo levantamento do Paraná Pesquisas de 2019, 61,5% dos brasileiros são contrários à privatização da estatal.

Um conflito armado em terras sauditas que prejudica a maior petroleira do mundo e o abastecimento da commodity em todo o globo não é um simples bater de asas de uma borboleta, mas serve de alerta: a depender dos incentivos presentes no jogo, como a proximidade de uma campanha eleitoral ou a pressão por parte de grupos de interesses, políticos podem praticar ingerências, abusos de poder e ilicitudes.

A forma efetiva de se blindar a Petrobras de tudo isso é afastando a gestão e controle da empresa da esfera política de interesses.

*João Flávio Figueiredo é fundador do Economia Sem Fronteiras. Siga-os no Instagram e acompanhe dicas de investimentos e análises econômicas

Por | 2019-09-17T08:43:49-03:00 17/09/2019|Economia|Comentários desativados em Conflito na Arábia Saudita reforça: precisamos privatizar a Petrobras