Não é a competição que define o capitalismo, é a livre escolha

O capitalismo tem sido frequentemente descrito como “um sistema de competição” por seus adversários, ou um sistema “baseado na competição”. Essa afirmação é geralmente associada a um discurso de como essa competição “com unhas e dentes” nos corrompe. Ou seja, que ela coloca os homens uns contra os outros em uma “corrida para o fundo do poço”.

Diante disso, muitos dos defensores mais vocais do capitalismo absorveram essa premissa de forma acrítica. Assim, eles saltam direto para uma defesa fervorosa da competição, exaltando suas virtudes — reais ou percebidas. Na minha opinião, isso é um erro.

Aceitar sem avaliação a pressuposição de que o capitalismo é um sistema de competição é enquadrar o próprio debate em premissas erradas e jogar o jogo em um tabuleiro injustamente inclinado.

Onde está a competição?

Isso não quer dizer que aqueles que defendem a competição não levantem alguns pontos dignos. Por exemplo: se não for competição, qual é a alternativa? Deve haver um provedor central de cada bem e serviço disponível, que decide em nosso nome a melhor forma de ser produzido e depois alocado?

Somando-se a isso, se a competição está errada no mercado, por que não na esfera política? Certamente, a democracia está fora de questão se a competição for um fator de corrupção. Afinal, o que os candidatos políticos fazem senão competir pelo cargo?

Pense na competição que isso gera entre os partidos políticos, sem falar na competição resultante entre empresas e indivíduos para conseguir um tratamento preferencial por parte dos legisladores e a competição entre lobistas, think-tanks e eleitores para receber benefícios do dinheiro público.

Se o setor livre e voluntário da sociedade é um sistema de competição, o que é o governo? Certamente, a democracia é um “sistema de competição”.

Os políticos estão competindo pelas próprias maquinações de controle em nossa sociedade. Pelo direito de aprovar e fazer cumprir as leis que se aplicam a todos e de forçá-los a pagar por sua aplicação. Eles não estão simplesmente competindo por participação de mercado, onde o vencedor da competição é aquele que satisfaz a maior demanda.

Podemos contornar os argumentos econômicos mais banais em favor da competição no momento em que ela aumenta a eficiência e barateia os produtos enquanto impulsiona a inovação, mas já estamos familiarizados com eles.

Capitalismo é sobre troca voluntária

Isso não quer dizer que a competição seja necessariamente um mal. O problema está em definir o capitalismo como “um sistema de competição” — em comparação com outros sistemas que são supostamente “cooperativos” — que é uma manobra retórica.

Aqueles que a professam podem honestamente acreditar que seja assim, mas não é verdade. O capitalismo não é “um sistema de competição” mais do que qualquer outro sistema.

O capitalismo (pelo menos em seu ideal de livre mercado, laissez-faire) é um sistema de troca voluntária de bens e serviços na ausência de coerção física, roubo, compulsão ou fraude.

Ou, para resumir: o capitalismo é um sistema de troca voluntária baseado no direito à propriedade.

Pode-se até arriscar, portanto, que o capitalismo é o sistema mais caracterizado pela cooperação.

É verdade que, ao ver essa definição, muitos ainda nos debateriam sobre a moralidade de acumular propriedade. Ou talvez se o direito “negativo” de propriedade quando se trata dos ricos deva ter precedência sobre o direito “positivo” à saúde ou educação às custas deles quando se trata dos pobres.

Também podemos até debater se a relação entre capitalistas e seus empregados é realmente livre de coerção, dada a disparidade de poder entre os dois grupos. Na verdade, esses são debates que adoro explorar mais. No entanto, nada disso é uma justificativa para definir o capitalismo como um sistema que é mais radicado na competição do que outros.

Como a escassez existe, a competição sempre existirá em qualquer sistema

Afinal, não é a presença da propriedade privada ou a livre troca de bens que cria a presença da competição em um sistema capitalista. A escassez causa isso. Em qualquer situação de escassez de recursos, é provável que exista alguma forma de competição por esses recursos (bem como pela forma como esses recursos são alocados).

Se tivermos um sistema que permite a troca voluntária, alguma competição provavelmente surgirá a partir disso, mas isso aconteceria em qualquer sistema. Mesmo se você tivesse uma sociedade comunista que fosse centralmente planejada e não envolvesse nenhuma troca de dinheiro, o tempo das pessoas ainda seria limitado.

Se você fosse um cineasta nesta sociedade, provavelmente gostaria que o maior número possível de pessoas vissem seus filmes, assim como qualquer outro profissional do ramo. Isso o colocaria, pelo menos um pouco, em competição com eles. Então, nesse sentido, podemos questionar se o comunismo também é um sistema de competição.

Certamente, você estaria competindo pelo único cliente — o patrocínio do estado. Corrupção e clientelismo certamente seriam o resultado. Quem faz seu filme e quem não? Quem distribui o trabalho altamente desejável de cineasta em vez do indesejável trabalho de varredor de rua, e como seu favor pode ser cortejado?

A competição vai existir, mas, em vez de ser decidida pela livre iniciativa de investidores e cineastas, será decidida por outras pessoas, provavelmente, de uma forma mais autoritária.

Em suma, a competição é apenas uma característica de viver em um mundo de escassez e ela existiria em qualquer sistema. Portanto, o socialismo não pode eliminar a competição.

Custo de oportunidade: a concorrência está em todo lugar

As implicações desses fatos atingem quaisquer circunstâncias de escassez além da economia. Por exemplo, suponha que dois amigos diferentes me convidem para jantar na mesma noite. Terei de escolher entre os convites, e um deles perderá minha companhia. Isso significa que a amizade é um sistema de competição?

Não podemos ver todos os nossos amigos o tempo todo. Além disso, só podemos manter algumas amizades íntimas de uma vez e, definitivamente, não podemos ser amigos de todos. Tudo isso significa que, inevitavelmente, temos que fazer escolhas. Isso também define o que é custo de oportunidade

Pessoas que acham que vão se beneficiar com nossa companhia, por qualquer motivo, farão tentativas para passar um tempo conosco. Da mesma forma, nós escolhemos com quem passamos o tempo com base em nossos valores, tempo e outras coisas. Esses são fatos básicos da vida, mas dificilmente fazem da amizade um sistema de competição.

Da mesma forma, no mercado, tempo e recursos são escassos. Fazemos julgamentos baseados no valor sobre as escolhas de produtos e serviços a serem consumidos com base na utilidade que pensamos que eles trarão para nós, sacrificando algumas opções por outras.

Talvez, possamos escolher uma cafeteria com base em qual tem o melhor café ou o ambiente mais agradável, melhor atendimento, se é a mais próxima, mais barata, etc. O fato é que decidimos.

Cada prestador de serviço que acredita que irá se beneficiar com a nossa clientela tentará nos atrair. Isso coloca uma pressão positiva na qualidade dos serviços e uma pressão negativa no preço, o que é uma forma de concorrência.

Como os seres humanos não são infalíveis, às vezes, alguém pode comprar um café de que não gosta. Contudo, a longo prazo, a competição provavelmente será vencida pela satisfação dos clientes.

Os benefícios da livre escolha

A maravilha milagrosa que perdemos quando focamos nossa atenção na competição, que deriva da livre escolha, é a própria capacidade de escolher. Por exemplo, suponha que dois eventos comerciais estejam ocorrendo na mesma noite. Cada cliente em potencial desejará escolher o evento que mais os atrai.

Agora, simplesmente mencionar que esses eventos estão “em competição” seria perder completamente o ponto crucial. Isto é, que os participantes têm à escolha dois eventos, ao invés de um só.

Na verdade, há muito mais cooperação envolvida no fornecimento de bens e serviços às pessoas do que competição. Para realizar qualquer coisa no mercado, é necessário cooperar com compradores, vendedores, gerentes, funcionários, fornecedores, clientes, anunciantes, promotores, comerciantes, compradores coletivos e assim por diante.

Leonard E. Read, fundador da Foundation for Economic Education, ilustrou isso em seu ensaio mais famoso: I, Pencil, publicado pela primeira vez em 1958.

Nele, Read observa que nem uma única pessoa na face da Terra sabe como fazer um lápis. Ele explica que a madeira de cedro vem do Oregon e as toras moídas da Califórnia. A grafite é extraída no Sri Lanka, misturada com argila do Mississippi e tratada com uma mistura de cera de candelila proveniente do México, para aumentar sua resistência e suavidade.

Por fim, as seis camadas de laca vêm separadamente dos produtores de mamona e dos refinadores de óleo desta mesma espécie.

Na verdade, incluindo os que fabricam e transportam os equipamentos envolvidos nesses processos, não dá para não se maravilhar com o fato de que milhões de pessoas participam de sua criação. Eles estão trabalhando em conjunto, em cooperação e, como resultado, você pode conseguir um lápis, por um preço acessível.

A competição de mercado traz opções à escassez

Como as pessoas fazem escolhas com recursos escassos e tempo limitado, a competição será uma parte inerente de qualquer sistema econômico, enquanto houver escassez.

Portanto, a principal característica do capitalismo de livre mercado não é a competição, mas a livre escolha. Podemos contrastar isso com outros sistemas em que a competição ocorre sobre quem pode ganhar o favoritismo dos que controlam o governo.

É aí que começa a competição “com unhas e dentes”.

Antony Sammeroff é co-apresentador do Scottish Liberty Podcast.

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Por:

Head de Conteúdo do Ideias Radicais.

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