Como as ideias de Adam Smith se tornaram influentes

Rothbard e Adam Smith

N. do E.: O economista e historiador norte-americano Murray Rothbard é um crítico da ideias de Adam Smith, considerado o pai da economia moderna. A despeito das críticas, o fragmento abaixo, retirado do livro An Austrian Perspective on the History of Economic Thought, vol. 2, Classical Economics, conta como as ideias do economista escocês se tornaram mais influentes na Europa, sendo uma boa fonte para compreender como as ideias eram transmitidas há dois séculos e meio.

Como o pensamento de Adam Smith ganhou influência

Um dos grandes enigmas na história do pensamento econômico é por que Adam Smith foi capaz de “zerar” a disciplina e desfrutar a reputação de “fundador da ciência econômica” mesmo com Cantillon e Turgot sendo superiores, tanto na análise econômica técnica como na defesa do laissez-faire.

O mistério é maior para a França, já que na Grã-Bretanha as únicas escolas concorrentes com os smithianos eram a mercantilista e a tecnocrata (baseada na estatística e aritmética).

O mistério aprofunda-se quando percebemos que o grande líder dos economistas franceses depois de Smith, Jean-Baptiste Say (1767–1832), era um verdadeiro seguidor da tradição Cantillon-Turgot ao invés da smithiana, embora ele tenha negligenciado os primeiros e proclamado que a economia havia começado com Adam Smith.

Say estava supostamente e tão somente sistematizando as maravilhosas, porém, rudimentares verdades encontradas no livro A Riqueza das Nações. Veremos abaixo a natureza precisa do pensamento de Say e suas contribuições, assim como sua lógica decididamente “francesa” não-smithiana, sua clareza lógica “pré-austríaca” e a ênfase no método praxeológico axiomático-dedutivo sobre a utilidade como a única fonte de valor econômico, sobre o empreendedor, sobre a produtividade dos fatores de produção e sobre o individualismo.

Especificamente, em seus breves comentários sobre a história do pensamento no seu livro Tratado de Economia Política, Say não faz qualquer menção a Cantillon. Apesar da influência considerável de Turgot em sua doutrina, ele totalmente descarta Turgot, considerando-o sólido em política, mas de nenhuma relevância em economia, e afirma que a economia política na verdade começa com o livro de Adam Smith A Riqueza das Nações.

A curiosa rejeição intencional de seus próprios antepassados torna-se obscura pelo fato vergonhoso de não haver uma única biografia de Say na língua inglesa, e pouco mesmo em francês.

A França fisiocrata do século XVIII

Talvez possamos entender essa postura tendo em conta o seguinte: na França, a economia esteve por muito tempo associada aos fisiocratas, les économistes. A demissão de Turgot do seu cargo de ministro geral das finanças em 1776 e o consequente fim de suas reformas liberais serviu para desacreditar todo o movimento fisiocrata. Turgot foi, infelizmente, considerado pela opinião pública como um mero coadjuvante no movimento fisiocrata e seu membro mais influente no governo.

Após essa perda de influência política, os filósofos franceses e os líderes da intelligentsia se sentiram livres para zombar e ridicularizar os fisiocratas. Alguns aspectos de fanatismo da fisiocracia deixaram-na vulnerável ao desprezo, e os encyclopédistes, embora em geral pró-laissez-faire, lideraram o ataque.

A chegada da Revolução Francesa acelerou o fim da fisiocracia. Em primeiro lugar, a própria Revolução foi tão focada no aspecto político que não permitiu a manutenção do interesse na teoria econômica. Em segundo lugar, a devoção estratégica dos fisiocratas à monarquia absolutista tendeu a desacreditá-los em uma era em que as monarquias estavam sendo derrubadas e destruídas.

Além disso, os fisiocratas, com sua ênfase na produtividade exclusiva da terra, estavam associados com devoção ao interesse aristocrático pela terra. A Revolução Francesa contra o regime aristocrático e a posse de terra feudal não tinha paciência com a fisiocracia. A impaciência foi agravada pelo surgimento do industrialismo e a Revolução Industrial, deixando cada vez mais absoleta a devoção fisiocrata à terra.

Como as ideias de Adam Smith dominaram a França

Todos esses fatores serviram para desacreditar totalmente os fisiocratas, e já que Turgot infelizmente era identificado como um fisiocrata, sua reputação foi reduzida ao mesmo tempo. Essa situação foi agravada pelo fato de que o antigo ajudante de Turgot e amigo próximo, editor e biógrafo foi o último dos fisiocratas, o estadista Pierre Samuel DuPont de Nemours (1739–1817), o qual piorou a situação ao distorcer deliberadamente o ponto de vista de Turgot para fazê-la parecer mais perto da fisiocracia quanto possível.

Originalmente, o livro A Riqueza das Nações foi mal recebido na França. Os fisiocratas então-dominantes desprezaram-no como uma imitação vaga e pobre de Turgot. Entretanto, o grande libertário Condorcet, que tinha sido um amigo próximo e biógrafo de Turgot, escreveu notas admiráveis anexadas a várias traduções francesas de A Riqueza das Nações. E a viúva de Condorcet, Madame de Grouchy, continuou o interesse da família nos estudos smithianos ao preparar uma tradução francesa do livro A Teoria dos Sentimentos Morais.

Mais tarde, nos anos 1790, os fisiocratas remanescentesseguiram agradavelmente os passos dos smithianos. Smith, apesar de tudo, favorecia o laissez-faire, e era quase por completo pró-agricultura, afirmando que o trabalho agrícola era a fonte principal de riqueza.

Como resultado, a maioria dos fisiocratas tornou-se pré-smithiana na França, liderados pelo Marquis Germain Garnier (1754–1821), o primeiro tradutor francês do livro A Riqueza das Nações, que apresentou a doutrina smithiana à França em seu livro Abrégé élémentaire des principes de l’économie politique (1796).

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