Como a internet ajuda a melhorar a vida dos refugiados

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Como a internet ajuda a melhorar a vida dos refugiados

Por Regan Ferrell*

Um indivíduo qualquer pode se tornar um refugiado como consequência de guerras, de fome ou em caso de perseguição baseado em identidades políticas, pessoais e religiosas.

Atualmente, 65 milhões de refugiados em todo o mundo enfrentam situações de vida terríveis.

A capacidade de celulares e da internet poderiam dar aos refugiados acesso a um maior grau de liberdade em suas decisões financeiras pessoais, o que melhoraria imensamente seu padrão de vida.

Isso é previsível, dada o fato de que a possibilidade de escolha é essencial para o progresso e a acumulação de riqueza.

Como a internet ajuda refugiados na Tanzânia

Um exemplo de como celulares contribuem para melhorar a vida desses indivíduos pode ser visto no campo de refugiados de Nyarugusu, na Tanzânia.

Nesse local, a demanda por telefones, em especial dispositivos com acesso à internet, é incrivelmente alta.

O bem-estar social e emocional é melhorado drasticamente apenas com com o acesso à serviços telefônicos básicos. As pessoas que possuem conexão à internet em seus telefones mostram melhorias ainda maiores. 

Ele facilita oportunidades educacionais e monetárias. Em campos como Nyarugus, eletricidade é escassa, e por isso é difícil e caro encontrar lugares para carregar os aparelhos. 

Alguns refugiados preferem sacrificar a sua segurança, comida e economias para se beneficiar das oportunidades oferecidas pelos telefones. 

Antes, refugiados precisavam esperar horas em longas filas para usar o telefone fixo para fazer uma ligação; as mídias sociais fornecem um mundo de conexão em segundos.

Elas atuam como uma rede de segurança em situações em que as famílias estão espalhadas pelo mundo: familiares distantes se veem em segundos por meio do FaceTime, e os pais podem ver crianças separadas no exterior crescerem. 

Refugiados no campo de Nyagurus

Os refugiados também relatam uma melhora na qualidade de vida por acesso a entretenimento e informações por essas tecnologias.

Música e filmes podem animar um dia e permitir pequenas satisfações em locais freqüentemente sombrios. As notícias fornecem atualizações de casa, lugares que eles talvez nunca mais vejam.

E os refugiados, como todo mundo, estão dispostos a pagar por esse conforto e proximidade.

Um dos impactos mais notáveis do uso da internet por refugiados é o uso de bancos on-line e o empréstimo de dinheiro. 

Às vezes, a ajuda distribuída nesses campos é insuficiente ou não corresponde as necessidades de fato dos refugiados. Na Tanzânia, os refugiados usam telefones celulares para pedir dinheiro aos parentes quando necessário, por exemplo.

Os pagamentos móveis por meio de recursos sem fio, como o Near Field Communication, popular na África, permitem que pequenas e médias empresas prosperem onde antes não existiam. 

Refugiados em outros campos usam aplicativos para pesquisar a previsão do tempo ou os preços de mercado de suas colheitas para garantir lucro.

A livre circulação de dinheiro tornou-se um pilar da vida em Nyarugusu. O acesso à internet e ao celular fornece a estrutura que torna isso possível. 

Os telefones permitem que assistência financeira seja diretamente depositada para os necessitados, em vez de serem trocados por vales-alimentação e bens materiais.

Transações on-line em vez de tijolos

Organizações como a International Rescue Committee estão trocando sua ajuda para pagamentos em dinheiro, dada a crescente demanda por possibilidade de depósito móvel.

Ao dar aos refugiados dinheiro em vez de mercadorias, nós os capacitamos a encontrar a melhor maneira de investir seus recursos sem interferência paternalista.

Claramente existem ineficiências no atual sistema de ajuda humanitária, cujas doações acabam por ser predominantemente itens como tijolos e cobertores.

Muitas vezes esses tipos de doações fazem pouco para aliviar os problemas que os refugiados enfrentam. 

Eles precisam de ajuda material, mas as ineficiências das organizações humanitárias fazem com que sejam enviados muito de um item e não o suficiente de outro.

Isso pode levar a impasses frustrantes; por exemplo, os refugiados podem receber a matéria-prima, mas não receber as ferramentas necessárias para construir a partir delas.

A ajuda humanitária na forma de expansão da rede móvel evita as limitações de uma abordagem de cima para baixo. Isso dá aos refugiados o poderes da ordem espontânea, da construção de negócios e liberdade de escolha em suas próprias vidas.

Os depósitos por aparelhos móveis também são mais rápidos e menos propensos à manipulação e fraude do que o dinheiro físico. 

Com eles, a assistência pode chegar em questão de segundos por meio de uma transferência de dinheiro, e os refugiados podem acompanhar esses pagamentos mantendo contato com seus assistentes sociais. 

Além de mais convenientes, eles também são mais seguros — os depósitos móveis são mais difíceis de roubar do que dinheiro.

Se realmente queremos melhorar as condições para os refugiados, devemos estender a cobertura de internet para eles.

Naturalmente, os refugiados rurais enfrentam uma barreira maior ao acesso à internet do que os urbanos, mas isso não significa que eles devam ser deixados na poeira do deserto.

Para operadoras de rede móvel, esse é um mercado amplamente intocado. Ainda que os refugiados anseiem pelo acesso a essas oportunidades e aceitem pagar pelos serviços necessários. 

A cobertura expandida conquistaria mais operadores e melhoraria o bem-estar dos refugiados. À medida que os refugiados obtêm acesso à internet, as operadoras de rede móvel são pressionadas a oferecer mais opções. 

A variedade de serviços prestados aos refugiados se expandiria para atender às necessidades desse mercado. O aumento da concorrência de vários operadores também reduziria o custo do acesso, que atualmente é a barreira mais substancial para muitos refugiados.

Considerando que bilhões de dólares em ajuda são dados anualmente pelo ACNUR — dos quais US$ 1 bilhão são provenientes dos Estados Unidos no ano passado — é essencial saber para onde esse dinheiro está indo.

Em vez de enviar materiais, deveríamos expandir os recursos de rede. A internet nos deu um incrível impulso de informações e oportunidades. Os refugiados podem ter essa mesma chance.

Pouquíssimos de nós conseguem imaginar nossas vidas sem a facilidade e o prazer advindos do acesso à internet. Por que então negar aos mais pobres entre nós os mesmos benefícios?

O acesso à internet oferece a refugiados a oportunidade de ter mais contato com seus familiares e amigos, além de oportunidades de emprego e de ascender socialmente. Liberdade para se comunicar é belo, moral e gera prosperidade: devemos ajudar refugiados para que tenham essas opções.

*Regan Ferrell estudou Relações internacional e Análise de Dados na Kent State University em Ohio.

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Por | 2020-02-06T09:59:57-03:00 06/02/2020|Tecnologia|Comentários desativados em Como a internet ajuda a melhorar a vida dos refugiados