Como a Bolsa de Valores afeta a sua vida

Uma bolsa de valores. Não é possível haver uma genuína propriedade do capital sem um mercado de ações e não há como haver um socialismo verdadeiro se tal mercado puder existir.

Essa foi a resposta de Mises quando, certa vez, Rothbard o perguntou se havia alguma linha nítida que separava um estado fortemente intervencionista de um estado abertamente socialista.

O mercado de ações é um componente essencial do capitalismo, havendo um elo indissolúvel entre ambos.

Porém, a despeito de sua evidente importância, o mercado de capitais segue sendo algo estranho para muitos, inclusive, para defensores convictos do livre mercado.

Indivíduos que defendem até a moralidade da agiotagem encontram problemas em legitimar as atividades de especuladores. Afinal, especular na Bolsa de valores é belo e moral?

Em suma, boa parte de quem possui ações não se enquadra no perfil de especuladores. Além disso, embora muitas vezes sejam vistos como vilões, os especuladores desempenham uma função importante na economia.

O que é o mercado de ações?

No nível mais básico, o mercado de ações refere-se simplesmente ao ambiente em que são negociadas frações da propriedade de empresas, que são as ações. 

Há também os lugares físicos, chamados bolsas de valores, onde compradores e vendedores se encontram.

Porém, o mercado de ações é um ponto de encontro intangível para todos esses agentes. Isto é, há desde engravatados operando in loco na bolsa até corretores que executam suas transações a partir de um notebook, seja em casa ou em praias do Taiti.

De modo geral, as pessoas comercializam ações de empresas de capital aberto no mercado de capitais.

Se uma Empresa X, por exemplo, é composta por 10 mil ações e João compra mil ações, pode-se dizer que ele se tornou dono de 10% dos ativos e passivos do balancete da Empresa X —, ou seja: um sócio.

Além disso, as empresas não vivem sob uma espécie de piloto automático: nada mais distante da realidade. Alguém ou um grupo sempre tem que decidir como uma empresa será conduzida.

No senso comum, toda a responsabilidade está nas mãos do presidente ou CEO. Mas, essa é uma análise superficial, pois esses profissionais são também empregados, que podem, portanto, serem demitidos. 

Na prática, é a direção executiva que tipicamente toma a maioria das decisões. Em última instância, os donos da empresa são seus acionistas e (coletivamente) possuem a última palavra sobre suas operações.

Nesse contexto, pode-se dizer que o propósito da Bolsa de valores e do mercado de capitais é determinar quem são os acionistas das várias empresas.

A importância dos preços corretos das ações

O preço relativamente alto do ouro, por exemplo, garante que este metal seja direcionado à produção de jóias e tratamento de artrite. Já metais mais baratos, como o alumínio, são utilizados para embalar marmitas e, após um único uso, jogam-no fora.

Esse processo é válido não apenas para os preços de vários metais, mas também para ações na Bolsa de valores.

Uma ação de preço irrisório indica uma empresa particularmente não valorizada pelo mercado. Nessa situação, um cidadão de renda média pode despender seu salário comprando uma porção considerável das ações dessa empresa sem maiores problemas.

Em contrapartida, não importa o quão certo um homem esteja de que pode alterar os rumos da Microsoft em três meses. A menos que ele seja um bilionário, ele não será capaz de definir o destino da gigante por si só.

O preço da ação multiplicado pelo número de ações disponíveis no mercado representa, em última instância, o preço total de venda da empresa. 

O preço relativamente alto do ouro indica que ele é uma commodity escassa e que, portanto, deve ser tratado com o cuidado correspondente.

Da mesma forma, o valor de mercado da Microsoft de mais de US$ 1 trilhão indica que a valoração da empresa pelo mercado é muito favorável.

Consequentemente, as pessoas que controlam o destino de empresas como a Microsoft têm uma enorme quantia de riqueza dependente de suas decisões.

Isso não garante que elas tomarão as decisões corretas, mas torna muito mais provável que alguns dos mais capazes técnicos e especialistas da área estejam envolvidos nos processos de tomada de decisão.

O alto custo das ações representa um desincentivo para que outras pessoas menos experientes ocupem este espaço.

O que é a especulação?

Na última sequência do filme Wall Street, um Gordon Gekko mais velho diz a uma plateia jovem que “a mãe de todos os males” é a especulação. 

Outras cenas da produção reforçam a ideia comum de que os especuladores não produzem nada de fato. Apenas “movem o dinheiro de um lugar para outro”.

Esse desdém pela especulação é parte de um ódio mais profundo à figura do “atravessador”.

Por exemplo, alguém que compre laranjas em Curitiba por R$ 1 e as revenda no Rio de Janeiro por R$ 1,50 será condenado por estar simplesmente “movendo frutas de um lugar para outro”. 

Tal agente, porém, está prestando um grande serviço aos apreciadores de frutas cítricas do Rio de Janeiro: uma laranja suculenta a 800 km de distância não é exatamente útil.

A função social da especulação na Bolsa de valores

Da mesma forma, um especulador bem sucedido obtém lucros para si próprio ao mesmo tempo em que efetua serviços úteis para terceiros. O seu lema é: “compre na baixa, venda na alta”.

Caso obtenha êxito, ele tornou os preços das ações menos instáveis. Na realidade, os empurrou para seus valores futuros de forma mais rápida do que teria ocorrido normalmente — isto é, na ausência da especulação.

Um exemplo simples ilustra essa ideia.  Suponha que um especulador veja que as ações da empresa Acme Painéis Solares estão atualmente sendo vendidas a $10.

Entretanto, o especulador acredita que haverá uma guerra no Irã dentro de alguns meses, enquanto os outros agentes do mercado ainda não avaliaram completamente esse fato. 

O especulador prevê que, quando a guerra estourar, o preço do petróleo irá disparar para uns $200 o barril e que os preços das ações das empresas de energia alternativa irão igualmente subir.

Portanto, ele corre para comprar ações da Acme Painéis Solares, as quais acredita estarem tremendamente subavaliadas em $10. Assim, suas compras agressivas empurram os preços para, digamos, $13 por ação. 

Se e quando a guerra estourar, o preço das ações da Acme subirá para $20, valor pelo qual o especulador irá vender as que tem. Dessa forma, ele garantirá um lucro líquido por ação de até $10 e empurrará os preços para baixo com a suas vendas.

Um “jogo de soma zero”

O cidadão comum — ou seja, o próprio Gordon Gekko no primeiro filme Wall Street — acha que isso foi um jogo de soma zero e que o lucro do especulador gerou um prejuízo para alguma outra pessoa. 

Isso é verdade apenas no sentido mais estreito da análise, afinal, um indivíduo que vendeu suas ações para o especulador a $11, “deixou de ganhar” $9.

Porém, as medidas do especulador suavizaram os solavancos nos preços das ações da Acme, trazendo benefícios claros à sociedade.

O esperado seria que as ações da Acme pulassem de $10 para $20 quando a guerra estourou. No entanto, elas pularam apenas de $13 para $20, pois as agressivas compras feitas pelo especulador já haviam reduzido 30% da diferença.

Por meio da redução da volubilidade do preço das ações, os especuladores diminuem um pouco o risco de se manter ações nas carteiras. Por exemplo, a pessoa que vendeu prematuramente ao malicioso aproveitador, talvez, não tenha perdido $9.

Além disso, é possível que tal pessoa tenha precisado vender suas ações da Acme, porque perdeu o emprego ou simplesmente porque a mensalidade da escola do seu filho aumentou. 

Assim, o especulador fez com que essa pessoa — que já planejava vender suas ações mesmo a $10 — ficasse mais rica.

Ao antecipar mudanças futuras nos “fundamentos” e traduzi-las em valores atuais às ações, os especuladores recompensam mesmo os investidores de longo prazo.

O papel dos especuladores na Bolsa de valores

Quando uma empresa sólida é descoberta, são os especuladores que ajudam os preços diários de suas ações a não se desviarem para muito longe da realidade de longo prazo. 

Ou se ocorrer um pânico financeiro e os acionistas começarem a vender ações de todos os tipos, são os especuladores que irão interromper a sangria e adquirir “promoções” a preços de liquidação.

Esses agentes fornecem liquidez ao mercado de ações. Ao torná-lo mais lucrativo, pessoas com perfil de investimento de longo prazo, tendem a investir parte de sua poupança em empresas que acreditem ter um futuro sólido. 

Por um lado, existe a iliquidez como grande risco desse tipo de investimento. O investidor, talvez por estar com dificuldades, pode precisar vender a um preço muito menor do que seria possível obter, caso dispusesse de mais tempo. 

Porém, os especuladores abrandam esse risco. Caso o preço fique muito abaixo “do que a ação realmente vale”, então o especulador se sentirá motivado a entrar em cena e comprar.

Intervenções políticas e as”bolhas” da Bolsa de valores

Ao tentar salvar empresas “grandes demais para falir”, o governo apenas enfraquece o processo autocorretivo descrito acima. Na prática, resgates governamentais podem transformar a especulação em uma força efetivamente danosa.   

Não à toa, existe a possibilidade de uma “bolha”, em que os preços das ações vão subindo cada vez mais, por causa da própria especulação. 

No curto prazo, especuladores podem provocar uma profecia autorrealizável. Afinal, quanto mais esses preços subirem, mais pessoas serão atraídas à especulação, o que pode acelerar o processo.

Ainda que bolhas localizadas possam ocorrer em um livre mercado, à medida em que uma se intensifica, os especuladores têm cada vez mais a ganhar caso façam short-selling (venda a descoberto) com essa ação. 

Isso ajudará a derrubar seu preço, tornando a bolha menos extremada e trazendo o preço para mais perto do seu “correto” valor de longo prazo. 

É verdade que especuladores podem obter ganhos de curto prazo ao participar de um boom insustentável. No entanto, também é verdade que, se eles não saírem a tempo, o mercado irá puni-los com enormes prejuízos. 

E, vale ressaltar que suas perdas serão proporcionais ao quão “artificial” era o preço da ação durante a bolha.

Essa restrição vital ao crescimento de uma bolha é anulada por resgates ou por outras intervenções concebidas para reflacionar bolhas após elas terem sido estouradas. 

Em tal ambiente, a realidade fica distorcida. Ao impedir que as pessoas lidem com seus erros durante o declínio, o governo remove a única maneira que o mercado tem de disciplinar os especuladores.

O efeito das regulamentações estatais

Esta é outra implicação política na Bolsa de valores. As regulamentações concebidas para frustrar as atividades dos corporate raiders acabam, na realidade, prejudicando os acionistas e reduzindo a eficiência econômica.

Considere o supostamente pior cenário:

  • Um especulador utiliza dinheiro emprestado para comprar o núcleo de controle (quantidade de ações que torna alguém acionista majoritário) de uma empresa. Depois, ele demite todos os empregados e, em seguida, vende todos os ativos para quem fizer a melhor oferta. 

No entanto, uma empresa que esteja vulnerável a esse “agressor”, necessariamente, tem um preço de compra mais baixo do que o preço de seus ativos individuais menos seu passivo.

Em outras palavras, o corporate raider é um especulador que vai lucrar ao desintegrar uma empresa. Porém, ele só vai fazer isso se puder redirecionar os ativos dessa empresa para onde serão mais produtivos.

Ou seja, essa consequência é socialmente benéfica. Afinal, as fronteiras de cada empresa não são arbitrárias.

Há motivos econômicos por trás do fato de o Google possuir uma enorme capacidade de cálculo computacional, ao passo que a Bayer possui instalações adequadas para pesquisas com drogas. 

Em casos extremos, quando uma indústria muda rapidamente ou a administração é particularmente inepta, o caminho adequado é o de dissolução da própria empresa.

Esse processo é particularmente doloroso para os trabalhadores. Contudo, em uma sociedade livre, as demissões são a única maneira de sinalizar quando a mão-de-obra está sendo utilizada em empreendimentos improdutivos.

Essa é a função vital desempenhada pelo mercado de ações e pela (bem sucedida) especulação. A partir dessa análise, o argumento a favor da intervenção governamental na Bolsa de valores fica consideravelmente abalado.

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Robert P. Murphy

Por:

Ph.D em Economia pela New York University e autor do livro The Politically Incorrect Guide to Capitalism.

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