Por que o colapso da União Soviética era previsível

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Por que o colapso da União Soviética era previsível

O colapso econômico e político da União Soviética foi uma surpresa apenas para a CIA, os soviéticos e seus companheiros de comunismo no ocidente. Para pessoas como o Dr. Vladimir Mau, que seguiu a direção do desenvolvimento econômico e político na URSS de dentro do Leviatã socialista, era óbvio que o desastre estava chegando, e rápido.

Em A História Política da Reforma Econômica na Rússia, Mau expõe a história de um insider, o relato de uma importante testemunha. Ele fazia parte da equipe de economistas soviéticos que trabalhavam nas reformas econômicas do presidente Gorbachev no Instituto de Economia da Academia de Ciências da URSS.

Como qualquer história de quem fez parte do governo soviético, o livro do Dr. Mau é altamente tendencioso, pois ele toma partido e é um fervoroso defensor da liberdade econômica e política.

Neste, a análise começa com uma breve história de tentativas anteriores de reformar o socialismo soviético. Assim, ele mostra que as reformas seriam introduzidas apenas como último recurso para salvar o comunismo e não para abandoná-lo.

A tragédia social conhecida como Revolução Bolchevique de 1917 não foi um evento isolado na história da Rússia, afirma o Dr. Mau. “O estado tradicionalmente desempenhou um papel importante na economia russa…”.

Por fim, como regulador burocrático, o estado foi predecessor direto do socialismo. “Não sem razão”, escreve o Dr. Mau:

Foram as formas básicas de centralismo econômico, mais tarde elevadas ao absoluto pelos bolcheviques, determinadas e testadas na prática pelos governos pré-revolucionários russos, tanto czaristas quanto provisórios.

O início do fim

Avançando 60 anos, o primeiro sinal do iminente colapso econômico soviético no final da década de 1970 e no início da década de 1980 foi a urgência de aumentar os subsídios do estado para empresas não lucrativas.

Em meados da década de 1980, a deterioração da economia soviética atingiu um ponto crítico. Mais de metade das empresas estatais foram permanentemente não lucrativas e sobreviveram devido a enormes subsídios.

Enquanto isso, o setor agrícola exigiu uma infusão de mais de 100 bilhões de rublos nos anos de 1986-1988 para apoiar o sistema feudal de fazendas coletivas, baseado na propriedade estatal de terra e trabalho forçado. Logo, a produtividade diminuiu e a escassez, seguida pelo racionamento de bens de consumo, se espalhou.

A Perestroika foi a última e mais abrangente tentativa de reformar o socialismo de tipo soviético, preservando as características fundamentais dessa sociedade — ‘a escolha socialista do povo’, como Gorbachev em sua época gostava de dizer. Ao mesmo tempo, a perestroika levou ao avanço do socialismo e lançou as bases para o desenvolvimento pós-socialista (pós-comunista) do país.

Este “avanço do socialismo” nada teve a ver com as “reformas econômicas” mal planejadas e nunca implementadas dos confidentes de Gorbachev, que não podiam ir além da economia política marxista para mencionar questões de propriedade privada e mercados.

Toda a ideia da perestroika era “melhorar o socialismo” por meio de certas medidas organizacionais. A verdadeira razão para o fim do socialismo e do império soviético, como diz Mau, “foi o enfraquecimento do controle político”.

Com a perestroika, o regime em dificuldades perdeu sua base repressiva e o “mecanismo econômico socialista”, construído sobre a repressão, caiu como um castelo de cartas.

O colapso da União Soviética

O final de 1991 marcou o colapso de ambos — o sistema econômico soviético e a União Soviética como um estado unitário. Assim, ocorreram duas mudanças radicais que tiveram consequências econômicas e políticas abrangentes e de longo prazo.

Primeiro, a política do reformismo socialista tardio foi substituída por uma voltada para a solução dos problemas de transformação pós-comunista. Em segundo lugar, o centro de gravidade desse processo mudou para o nível das ex-repúblicas soviéticas, que acabaram se tornando estados independentes.

Revendo a transição econômica pós-comunista, o Dr. Mau aponta para a frustração generalizada com as reformas de “livre mercado” do governo de Yeltsin. Afinal, estas levaram à situação em que cada novo anúncio de reforma iminente causava respostas públicas perversas e uma nova legislação aprovada. A princípio, pareciam ter como objetivo aumentar a liberdade, mas as oportunidades de multas e subornos se expandiram.

Lições para hoje

A principal lição a ser aprendida com essa análise do socialismo é que ele falhou por causa de contradições internas, não por erro humano.

As gerações subsequentes, atraídas pelas ilusões do sistema de economia planificada — igualdade, direitos trabalhistas, crescimento administrado — podem concluir que o próprio sistema era sólido.

Nessa visão falha, mas popular, os gerentes soviéticos do final da década de 1920 até o início da década de 1990 simplesmente não conseguiam fazer isso direito devido a alguns fatores técnicos ou culturais.

Tal conclusão poderia levar a uma repetição do experimento mortal com resultados que talvez não fossem previstos pelas gerações futuras.

O fracasso do socialismo na Rússia e o enorme sofrimento e miséria do povo em todos os chamados países socialistas alertam fortemente contra o socialismo, o estatismo e o intervencionismo.

No entanto, um dos legados mais tristes do marxismo é a mentalidade de certas pessoas. Tanto no oriente como no ocidente, alguns começaram a acreditar que somente o “Grande Estado” pode curar males econômicos e alcançar a justiça social.

Por fim, Dr. Mau é mais uma testemunha de que esse caminho levará inevitavelmente o seguidor ao caminho da servidão.

Yuri Maltsev é economista austríaco e professor de economia no Carthage College.

Por | 2020-10-07T17:19:14-03:00 07/10/2020|Política|Comentários desativados em Por que o colapso da União Soviética era previsível