O clube-empresa é o futuro do futebol brasileiro?

O futebol brasileiro, de maneira geral, vem sofrendo, nas últimas décadas, as consequências de más administrações. Os clubes estão assolados pela irresponsabilidade fiscal, dívidas periclitantes e falta de governança. Além disso, todo esse quadro foi agravado pela pandemia, tornando a situação de alguns deles quase que irreversível.

Assim, falou-se em falência, insolvência ou até refundação de clubes como Cruzeiro e Vasco. Em 2021, o CEO do Botafogo, Jorge Braga, chegou inclusive a dizer que, fosse uma empresa, já teriam falido, tamanha a balbúrdia das suas contas.

Hoje, os clubes são associações desportivas: personalidade jurídica do direito privado em que um grupo de pessoas, sob um estatuto social, reúnem-se com um fim social, cultural ou esportivo.

Mas, como possível saída, muitos especialistas indicaram o modelo de clube-empresa, que tornou-se uma possibilidade após a aprovação da  Lei nº 14.193/2021. Nele, o clube torna-se uma sociedade anônima do futebol ou SAF. 

As sociedades são outro tipo de personalidade jurídica do direito privado em que os sócios contribuem como investimento e recebem os dividendos. Ou seja, elas realizam atividade econômica e visam o lucro. Por isso, suas vantagens incluem maior facilidade para captação de investimento e a implementação de modelos de governança consolidados pelo mercado.

Além disso, a apelidada Lei da SAF institui um regime tributário específico para essas empresas, parcelamento de débitos com redução de multa e juros e possibilidade de recuperação judicial. Sendo assim, os clubes ficam sujeitos à legislação referente a governança corporativa, transparência e responsabilidade fiscal.

O modelo de clube-empresa certamente não é uma bala de prata, mas chega ao mercado da bola com promessas de maiores investimentos, salvando times afogados em dívidas, e de gestão sustentável, gastando apenas o que arrecada e nutrindo as categorias de base. Por isso, é preciso discernir o que dessas promessas faz sentido e o que pode ser realizado no modelo associativo tradicional. 

A profunda crise do futebol brasileiro

O gráfico abaixo ilustra um levantamento de 2020 da Sports Value, que mostra como muitos dos principais times do país funcionam em déficit. Muitos deles, inclusive, arrastam esse rombo por anos a fio. Essa situação insustentável parece só servir de motivação para arrumar a casa apenas quando alguma tragédia acontece e não há mais tapete para onde varrer a sujeira.

Mesmo assim, os números mais assombrosos são aqueles referentes às dívidas desses clubes. Elas dizem respeito a empréstimos com instituições financeiras (R$2,24 bi em 2020), débitos fiscais (R$2,94 bi) e trabalhistas (R$3,42 bi) e obrigações para com fornecedores, intermediários e outros clubes (R$2,23 bi).

Segundo uma pesquisa da Ernst & Young, o clube mais endividado do Brasil é o Atlético-MG, devendo R$ 1,2 bilhões, seguido por Cruzeiro, Corinthians e Botafogo, com dívidas na casa dos 950 milhões. Soma-se a eles o Vasco (R$ 831 milhões), e esses cinco clubes representam metade do endividamento total.

Vale lembrar, entretanto, que as dívidas são parte de qualquer negócio. O que devemos nos atentar é à qualidade da dívida, seus prazos e a capacidade de pagamento. Mas, na maioria dos casos, elas são não-sadias e de curto prazo, o que pode por em risco a própria operação do dia-a-dia do clube.

Como exemplo, o Cruzeiro possuía, em 2020, R$ 312 milhões de passivo circulante (aqueles compromissos urgentes), em comparação à receita bruta de R$ 123 milhões. E não havia boas perspectivas de reversão de quadro, o que se refletiu também dentro de campo.

A receita dos clubes, por sua vez, advém de uma série de fontes, como ilustra o gráfico abaixo. Muitas delas, como bilheteria e programas de sócio-torcedor (matchday), foram severamente afetadas pelos dois anos de pandemia.

Além disso, os clubes rebaixados à segunda divisão, como Cruzeiro e Vasco, sofreram um baque ainda maior, com a queda do valor dos direitos de transmissão dos jogos (até 2019, os clubes rebaixados à Série B continuavam a receber o mesmo valor pelos direitos de transmissão que times de Série A).

Não obstante, ainda podemos extrair bons exemplos de todo o caos. Dentre os principais clubes do país, apenas Red Bull Bragantino, América-MG, Coritiba e Atlético-GO tiveram, em 2020, receitas recorrentes maiores que as de 2019. Além disso, outros clubes, como Athletico-PR e Fortaleza, também destacaram-se nos últimos anos como exemplos de gestão.

Mesmo o Atlético-MG, de longe a maior dívida do país, recebe elogios pela sua reestruturação administrativa. Isso porque, à beira da bancarrota, o clube foi socorrido por um grupo de empresários que cedeu empréstimos sem juros e sem prazo de devolução. Eles exigem o cumprimento de metas de profissionalização da gestão, participando ativamente dessa reestruturação, em um projeto de longo prazo.

A experiência do modelo de clube-empresa mundo afora

A aproximação do capital privado do futebol é parte central no desenvolvimento desse esporte. Inicialmente agremiações de operários, comunidades religiosas, estudantes de colégios, moradores de bairros, os clubes só puderam atingir a magnitude de hoje graças a parcerias com empresas e emissoras de televisão.

Na Inglaterra, o futebol historicamente adotou o modelo de sociedade empresária. Inclusive, a partir da década de 1980, clubes, a começar pelo Tottenham Hotspur, passaram a figurar em Bolsas de Valores, o que possibilitou que torcedores e pequenos investidores investissem nas ações emitidas pelo clube. Desde a criação da Premier League, em 1992, deu-se grande ênfase ao potencial comercial da liga, o que tornou o futebol inglês o mais rentável do mundo. 

Observe o gráfico abaixo, levantado pela Deloitte, que mostra a lucratividade das cinco principais ligas europeias. Nele, a liga inglesa destaca-se frente às demais, apresentando, na temporada 2018/2019, lucratividade mais de duas vezes maior que a segunda colocada, a espanhola.

Em outros países, o modelo do clube-empresa nem sempre foi adotado por livre e espontânea vontade dos clubes. Países como Itália (em 1981), França (1984), Espanha (1990) e Portugal (1996) estabeleceram, por legislação, que deveriam trocar as associações por sociedades empresárias.

Já na Alemanha, onde os clubes eram proibidos de serem propriedades de um dono e administrados almejando o lucro, foi instaurado o modelo “50 + 1” em 1998. Nele, permite-se a possibilidade da conversão a um clube-empresa, contando que a associação original mantenha 50% + 1 ações da sociedade.

Dessa forma, a Bundesliga é considerada como o segundo grande exemplo europeu de rentabilidade. Entretanto, segundo Stefan Szymanski, especialista na economia do futebol, a regra alemã é por demais conservadora e impede o crescimento da liga, o que pode levá-la a ser reformulada para permitir o último passo rumo à adoção completa do modelo de propriedade privada.

O futuro do futebol brasileiro: um case de estudos interessante

Engana-se, entretanto, quem pensa que o modelo das SAF é garantia de boa administração. Afinal de contas, ela funciona como uma empresa comum, que, mal administrada e deficitária, pode e deve falir.

O Figueirense, por exemplo, tornou-se uma sociedade limitada tão cedo quanto 2017, ou seja, ainda fora dos moldes da Lei nº 14193/2021. Tendo seu futebol administrado pela Elephant, o tradicional clube catarinense sofreu uma derrocada nas suas contas, atrasando salários e mergulhando de vez em uma crise. Hoje, ele disputará a Série C do Campeonato Brasileiro de 2022 pela segunda vez consecutiva.

Além disso, o Athletico-PR mostrou que, buscando gerir uma associação “como uma empresa”, é possível alcançar resultados expressivos, mesmo que seu presidente, Mario Celso Petraglia, tenha ainda defendido a conversão a uma SAF. O Fortaleza, por sua vez, apostou em jovens jogadores com potencial e atuou criativamente no mercado, exemplificado pela contratação do técnico Juan Pablo Vojvoda. Isso contribuiu para uma folha salarial enxuta e contas equilibradas, gargalo constante dos brasileiros em geral.

Em suma, esses dois clubes, para deixarmos muitos outros de fora, provam que os princípios da boa gestão podem também ser aplicados às associações desportivas. Entretanto, como os gestores estão de passagem pelo clube, é fácil entender porque tantos contribuem para a gastança: ao fim do seu mandato, isso não será mais seu problema, problema de incentivos similar aos do Estado.

Em contrapartida, o dono do deve ter skin in the game (ou seja, arriscar a sua própria pele, já que investirá na empresa que ele próprio administra), já que ele é quem mais ganhará com o sucesso futebolístico do seu time. A administração passa da lógica de um zelador temporário, a uma de proprietário de fato.

Nesse sentido, como a mudança às SAFs é opcional, tornaremos o país em um grande laboratório de gestão do futebol. Servirá para entendermos melhor, considerando as particularidades, cada modelo, suas vantagens e desvantagens.

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Estuda e trabalha com Engenharia Eletrônica e de Telecomunicações em Belo Horizonte.

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