Chuang Tzu e o conceito de ordem espontânea

//Chuang Tzu e o conceito de ordem espontânea

Chuang Tzu e o conceito de ordem espontânea

Em uma cena famosa de Matrix, Neo visita o Oráculo, uma figura sábia, misteriosa e poderosa que pode ver o futuro. Enquanto estava lá, ele encontra uma criança talentosa que entorta uma colher com a própria mente. Depois de fazer o impossível, a criança careca entrega a colher a Neo e lhe conta algo.

Criança: Não tente entortar a colher. Isso é impossível. Em vez disso, tente apenas compreender a verdade.

Neo: Que verdade?

Criança: Não há colher.

Neo: Não há colher?

Criança: Só então você verá que não é a colher que dobra, mas você.

Quando assisti à essa cena pela primeira vez, há 20 anos, não fazia ideia do que a criança estava falando.

Mas em algum momento eu aprendi. A cena é uma referência a uma anedota escrita por um filósofo chinês que viveu durante o século IV a.C. Seu nome era Chuang Tzu e o nome da anedota é “O Sonho da Borboleta”.

De acordo com esta, Chuang Tzu uma vez teria sonhado que era uma borboleta, feliz e sem saber que era sí mesmo. Mas, em algum momento, ele acorda do sonho, e não sabe dizer se ele é um homem que sonhou que era uma borboleta, ou uma borboleta sonhando que é um homem.

O tema da realidade versus sonho está presente em Matrix, e o poema de Chuang Tzu aborda uma questão semelhante, uma questão que os filósofos têm lutado para responder há milênios: como podemos saber o que é verdadeiramente real quando nossos sentidos nos enganam?

A criança de Matrix estava expressando uma versão dessa ideia: a única coisa que certamente é real para nós é a experiência mental.

Quem foi Chuang Tzu

Mais de dois milênios depois, Chuang Tzu já foi quase esquecido fora dos filósofos e fãs de história, mas suas ideias vivem e vão muito além de referências obscuras em filmes de ação.

Na verdade, Chuang Tzu é creditado por desenvolver um dos conceitos econômicos mais importantes do mundo: a ordem espontânea.

Uma autoridade não menos do que Murray Rothbard credita Chuang Tzu como o primeiro a decifrar a ideia, e ele fez isso quase 2.500 anos antes da Escola Austríaca de Economia torná-la um ponto focal de sua teoria.

Primeiro, é importante entender o que é ordem espontânea. O Liberty Fund descreve a ordem espontânea como a ideia de que a ordem “surge como resultado das atividades voluntárias de indivíduos e não daquelas criadas por um governo”.

Essencialmente, diz que as pessoas não precisam ser coagidas a criar uma sociedade próspera e harmoniosa. Isso acontecerá naturalmente sob as condições adequadas, o que significa principalmente condições que permitem às pessoas :a liberdade de fazer o que quiserem, desde que não estejam prejudicando ou roubando dos outros.

Esta descrição pode soar familiar aos leitores desta publicação, cujo lema é “qualquer coisa pacífica”. Mas o que isso tem a ver com a China Antiga?

Bem, acredite ou não, havia uma tradição intelectual libertária robusta por lá.

Tradição Taoista

Contudo, Chuang Tzu (ou Zhuangzi) não foi o fundador do movimento. A tradição, escreve Rotbhard, começou com Lao-Tzu (500 a.C.), um filósofo considerado o pai do taoísmo que rejeitou o suposto autoritarismo de Confúcio em favor dos direitos individuais.

Lao-Tzu desenvolveu o que Rothbard descreve como “um credo libertário radical”. Segundo Rothbard, nesse credo, os direitos individuais e a felicidade deveriam ser os objetivos primários de uma sociedade.

Lao-Tzu via os corpos governantes, com suas “leis e regulamentos mais numerosos que os pelos de um boi”, seriam como uma força naturalmente opressora para os indivíduos; uma força “mais temível do que tigres ferozes”.

Chuang Tzu seguiu os passos de Lao-Tzu e, em sua obra mais famosa, The Zhuangzi, ele compartilha o que Rothbard diz serem os primeiros traços históricos da ideia de ordem espontânea.

Chuang-tzu reiterou e embelezou a devoção de Lao-tzu ao laissez faire e oposição ao governo do estado: “Tem havido algo como deixar a humanidade em paz; nunca houve algo como governar a humanidade [com sucesso].” Na verdade, o mundo simplesmente “não precisa ser governado; na verdade, não deve ser governado”.

Chuang-tzu também foi o primeiro a desenvolver a ideia de “ordem espontânea”, desenvolvida particularmente por Proudhon no século XIX e por F. A. Hayek no século XX.

Uma leitura atenta de Chuang Tzu mostra que a sua concepção de ordem espontânea não poderia ser mais clara: “A boa ordem resulta espontaneamente quando as coisas são deixadas sozinhas.”

Um capítulo inteiro do livro de Chuang Tzu é dedicado a “deixar em paz”. No capítulo, ele escreve que as condições naturais da existência humana requerem “ajudas não artificiais”. O filósofo aborda os males do governo, traça os fracassos da coerção na província e descreve como a ação surge da inação (do governo).

Definição contemporânea

Muitos tendem a pensar em conceitos como governo limitado e ordem espontânea como ideias “ocidentais”, mas esse dificilmente é o caso.

As reflexões de Chuang Tzu mostram que eles são universais. Dois mil anos após sua morte, Adam Smith, em sua obra A Teoria dos Sentimentos Morais, se referia a uma “mão invisível” em ação nos mercados livres que trabalha para o benefício de todos. Nesse trabalho, Smith explicou como a afinidade da humanidade por sistemas e coerção interfere na harmonia dos mercados.

Os ricos só selecionam da pilha o que é mais precioso e agradável. Eles consomem pouco mais do que os pobres, e apesar de seu egoísmo e ganância naturais; embora eles signifiquem apenas sua própria conveniência; embora o único fim que eles propõem do trabalho de todos os milhares que eles empregam seja a gratificação de seus próprios desejos vãos e insaciáveis, eles dividem com os pobres o produto de todos os seus bens.

Eles são conduzidos por uma mão invisível para fazer quase a mesma distribuição das necessidades vitais que teriam sido feitas se a terra tivesse sido dividida em porções iguais entre todos os seus habitantes.

E, portanto, sem a intenção, sem saber, avançam o interesse da sociedade, e proporcionam meios para a multiplicação das espécies.

Não há evidências de que Adam Smith tenha lido Chuang Tzu. No entanto, ambos observaram a força da “ordem espontânea”, um termo que acabaria por ser cunhado pelo estudioso Michael Polanyi no ensaio “The Growth of Thought in Society”.

Quando permitido para funcionar, a ordem espontânea é uma das forças mais poderosas do mundo. É a fonte da prosperidade humana, o motor do florescimento humano sem precedentes.

Jon Miltimore é editor na Foundation for Economic Education.

Por | 2020-10-05T06:24:21-03:00 05/10/2020|Sem categoria|Comentários desativados em Chuang Tzu e o conceito de ordem espontânea