A China é a maior ameaça à liberdade de expressão

Esqueça, não há liberdade de expressão na China – e, se depender dela, não haverá no mundo, também. No país, há a maior censura virtual do mundo. Twitter, Facebook, Instagram e YouTube são algumas das plataformas às quais os chineses não têm acesso. Surpreso? Pois é, parece que o Partido Comunista Chines (PCC) está conseguindo abafar suas atrocidades. Segundo renomadas instituições de imprensa, contudo, o cerceamento está transcendendo as fronteiras orientais. Sim, salve-se quem puder! 

As autoridades do país já bloquearam cerca de dez mil domínios estrangeiros. Com isso, os cidadãos chineses recebem opções de origem chinesa como substitutos. Porém, estes sites são permeados por altos níveis de censura. Grandes grupos de direitos humanos, também, estão entre as entidades banidas do universo digital na nação. Dessa forma, protestos contra as autoridades têm se tornado cada vez mais difíceis de acontecer. 

A censura não se restringe ao campo da informação. Consideradas vulgares pelas autoridades, cantoras como Lady Gaga, Katy Perry, Beyoncé e Britney Spears, que são famosas em todo o mundo, foram banidas pelo governo. O cantor Justin Bieber também já foi proibido de fazer shows no país pelo Escritório Municipal de Cultura de Pequim. E o gênero hip-hop também é alvo de censura, considerado uma “subcultura” e “imoral”.  

Apesar de tudo isso, você provavelmente já leu em algum jornal opiniões favoráveis ao regime chinês, e até pessoas defendendo abertamente que o sistema chinês “funciona”. Talvez nada disso seja coincidência, pois há um sistema ativo de manipulação da imprensa de dezenas de países movido pelo governo chinês, e é só o começo. 

China: ditadura global

Foto: International Federation of Journalists (IFJ)

Em maio de 2021, a Federação Internacional de Jornalistas (IFJ), maior organização de jornalistas do planeta, publicou um relatório acusando a China de construir uma rede de jornalistas em veículos espalhados pelo mundo para elogiar Pequim.

O levantamento afirma que a China está construindo uma série de acordos com veículos e jornalistas ao redor do mundo — de tradução à publicidade. Com essa estrutura, o país, de acordo com o documento, influenciou a cobertura sobre a Covid-19.  

“Pequim usou sua infraestrutura de mídia global para semear narrativas positivas sobre si durante a pandemia, além de mobilizar desinformação. A China está tomando uma abordagem mais intervencionista, com países relatando que a embaixada ou embaixador chinês em seu país frequentemente comenta sobre a cobertura da mídia local da China”, afirma o estudo. 

Graças à pressão chinesa, num ano em que a pandemia do novo coronavírus prejudicou a imagem do país ao redor do globo (afinal, Pequim teve responsabilidade no aumento do contágio do vírus), a cobertura sobre o país na imprensa internacional foi mais positiva em 2020.

Cobertura internacional em relação à China foi mais positiva do que negativa ao longo de 2020.
Cobertura internacional em relação à China foi mais positiva do que negativa ao longo de 2020.

É possível atribuir essa “conquista” do partido ao fechamento da nação para a cobertura internacional: dificultando a entrada de jornalistas estrangeiros no país e aumentando a dependência da imprensa internacional do “noticiário” estatal. 

“Em 2020, Pequim expulsou pelo menos 18 jornalistas estrangeiros. A redução do corpo de correspondentes estrangeiros dentro do país gerou um vácuo na cobertura da China, já que alguns países ficam sem jornalistas residentes no local. Em alguns casos, eles então recorreram a fontes estatais chinesas para cobrir notícias da China, levando a uma cobertura mais positiva em geral”, relata o documento. 

Vacinas chinesas e… suborno? 

O documento, além de todas as graves revelações mencionadas, revela que países que recebem, ou receberam, vacinas chinesas para a covid-19 têm uma tendência de cobertura mais favorável a Pequim do que aqueles que não recebem – estes, segundo o relatório, tendem a focar em reportagens sobre o encobrimento da origem da pandemia em Wuhan. 

Fonte: IFJ RESEARCH REPORT ON CHINA AND ITS IMPACT ON MEDIA 2021

A ameaça chinesa está crescendo. Como conta o New York Times, centenas de milhões de dólares estão sendo investidos pelos chineses para espalhar suas mensagens para audiências em todo o mundo. A estratégia, ainda, segue uma linha de coerção. 

Um jornalista filipino, segundo apontou o jornal, estimou que mais da metade das matérias em um noticiário de seu país vieram da agência estatal chinesa Xinhua. Também de acordo com a reportagem, um grupo de mídia sul-africano, após levantar investimentos de investidores chineses, demitiu um colunista que escreveu sobre a repressão chinesa à minoria uigur.  

As pressões, no entanto, não se restringem a esses países. No Peru, profissionais da imprensa enfrentaram críticas intensas nas redes sociais de funcionários combativos do governo chinês. Já na Itália, jornalistas disseram que foram pressionados a publicar o discurso de Natal do presidente Xi Jinping e receberam uma versão traduzida para o italiano.

Jornalistas da Austrália, Reino Unido, Dinamarca e Suécia também já alegaram ter sofrido essa forma de cerceamento. 

Denúncias antigas 

Ditadura chinesa
Foto: Partido Comunista Chinês (China)

A acusação a Pequim não é novidade. Em 2020, a mesma Federação Internacional de Jornalistas, cujo relatório comentamos há pouco, já havia publicado um documento denunciando o aumento da influência chinesa na cobertura da imprensa internacional. “Remodelando a mídia mundial, a China atua para o aumento de sua presença em outros países. Esses esforços também revelam uma estratégia sofisticada e sistemática para contar bem a história do território”, afirmou o levantamento do ano. 

Um ano antes, em 2019, outra importante organização da categoria, a francesa Repórteres Sem Fronteiras (RSF), em seu ranking de liberdade de expressão. A nação de Xi Jinping, sem surpresas, ficou entre as últimas posições, na 177º posição entre 180 países.

“O país está expandindo seu domínio além de suas fronteiras para impor seu vocabulário “ideologicamente correto”. É uma estratégia para deter qualquer crítica a si mesmo e para encobrir os capítulos mais sombrios de sua história; por consequência, o projeto representa uma ameaça à liberdade de imprensa em todo o mundo”, afirmou o RSF. 

Acerca do tema, o jornal britânico The Guardian afirmou que “esta não é apenas uma batalha por cliques. É acima de tudo uma luta ideológica e política, com a China determinada a aumentar seu “poder de discurso”.

Desconfie de tudo

Se você reparou, até aqui, nada do que eu disse relata o meu ponto de vista, mas o trabalho das maiores organizações e veículos de jornalismo do mundo, com as devidas fontes. Não são opiniões, mas fatos. Todavia, neste momento, saltando para o lado opinativo, penso o seguinte: devemos desconfiar de tudo! 

Nenhum partido político no mundo tem tamanha influência na imprensa internacional como o que controla o estado chinês, o PCC. A influência chinesa no jornalismo mundial é uma ameaça à profissão. 

Essa influência dificilmente não está presente no Brasil. Desconfie de todo jornalista brasileiro flagrantemente pró-Pequim — ou que milita por ditadura, ou é bem pago para isso. Tal comportamento duvidoso, entretanto, não apaga o fato de que há bons profissionais da imprensa no Brasil.

Jornalistas também erram e não devem ser poupados de críticas. Há bons e maus profissionais em qualquer área. Contudo, não existe país livre sem imprensa livre. E a única forma de enfrentar a ameaça ao jornalismo profissional é com a defesa do jornalismo profissional.

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