Tudo que você precisa saber sobre as tensões entre China e Taiwan

Taiwan é o centro de todas as tensões envolvendo os Estados Unidos (EUA) e a China.

Nos últimos anos, entre retaliações e pulsos firmes protagonizados pelas duas principais nações do mundo dos dias de hoje, todo centímetro de poder vem sendo considerado determinante para o sucesso; e é dessa forma que Taiwan está sendo vista. A pequena ilha asiática está no meio das disputas diplomáticas, comerciais e tecnológicas entre os norte americanos e chineses.

Visando aumentar sua influencia na Ásia, os Estados Unidos estreitaram seus contatos com os taiwaneses. As relações, no entanto, vão além de contados diplomáticos. Em 2017, por exemplo, os norte-americanos venderam mais de um bilhão de dólares em armamento para a ilha.

Já a China, com medo de perder as rédeas sobre Taiwan, que, oficialmente é território chinês, vem engrossando as relações sino-taiwanesas. Xi Jinping, presidente da China já afirmou estudar uma ofensiva violenta à ilha caso seja necessário.

Com isso, o triângulo entre as nações aumentou de temperatura geopolítica. Sentindo a pressão, Taiwan se prepara. Atualmente, com o comércio militar em geral, a ilha asiática gasta cerca de 3% de seu Produto Interno Bruto (PIB) com defesa; caças, mísseis e sistemas de radar são alguns dos itens frequentemente comercializados.

O conflito está desenhado.

Tabuleiro sino-taiwanês

Para que entendamos confrontos geopolíticos, a noção territorial é de suma importância.

Oficialmente chamada República Popular da China, é o país mais populoso do mundo e a segunda maior economia do planeta em absoluto. Entretanto, sua forma de poder é regida por princípios comunistas — e a liberdade não é bem vista pelo Partido Comunista Chines (PCC), grupo político que domina a nação. A China também participa da Organização Mundial do Comércio (OMC), do BRICS e é integrante permanente do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU).

Taiwan é uma ilha mais populosa do que a soma das populações de Uruguai, Dinamarca, Noruega e Irlanda, somando mais de 23 milhões de habitantes. Como a China, Taiwan tem o mandarim como língua principal e a Han como etnia dominante. Em 1949, ambos eram uma coisa só — a República da China. Foi quando acabou uma guerra civil entre nacionalistas (que governavam a China) e comunistas (que pleiteavam governar a China). 

Com a vitória dos comunistas, houve um impasse. O Partido Comunista estabeleceu a República Popular da China, com capital em Pequim, substituindo a República da China. No entanto, os totalitários não conquistaram Taiwan, que permaneceu República da China, sob governo nacionalista.

China e Taiwan: relações de poder 

Você já ouviu falar sobre o conflito entre China e Taiwan? Se sim, vem com a gente pois iremos te contar muito mais! Não? Pois saiba que esse é um assunto obrigatório e com potencial de explosão (literalmente) — pois as nações podem desencadear uma guerra, com potencial participação de grandes nações do mundo. Vamos nessa?
Foto: Braver

Até 1971, a Organização das Nações Unidas (ONU) não reconhecia o PCC no controle da China. Taiwan era quem sentava no assento do Conselho de Segurança. As coisas mudaram desde então, com uma grande participação dos Estados Unidos nessa história. 

Nos anos 1960, chineses e soviéticos romperam. Pequim se negava a ser tratada como um satélite de Moscou. Para enfraquecer o Partido Comunista da União Soviética (URSS), Washington promoveu seus laços com o Partido Comunista da China. A ideia era implodir a cortina de ferro — porção do mundo cuja influência era dos comunistas russos. 

Até certo ponto, o plano vingou. Em 1979, Pequim chegou a entrar em guerra com o Vietnã, aliado da URSS. Em 1989, o Bloco do Leste ruiu. Mas a estratégia americana foi além: fortaleceu o Partido Comunista Chinês, antes arruinado pela Grande Fome Chinesa e a Revolução Cultural (movimentos políticos internos dos chineses e liderados pelo ditador Mao Tsé-Tung). 

Nesse período, Taiwan era uma ditadura de partido único, governada pelos nacionalistas (o Kuomintang). Os laços com a China eram intensos. Todavia, na década de 1980, esse jogo mudou. A nação se abriu para a democracia. E, desde então, os taiwaneses fortaleceram os laços com… Taiwan (sim, é isso mesmo!). 

Taiwan de hoje 

Hoje, Taiwan possui uma democracia consolidada. Há eleições livres no país, com 13 partidos com representantes eleitos. O Legislativo e o Judiciário são independentes. Em 2021, esse país - que se autogoverna (por isso o trocadilho do último parágrafo) — é presidido por essa mulher da foto acima. Seu nome é Tsai Ing-wen.
Foto: Time Magazine

Hoje, Taiwan possui instituições mais consolidadas sob o aspecto democrático. Há eleições livres no país, com 13 partidos com representantes eleitos, com o Legislativo e o Judiciário sendo independentes. Em 2021, esse país — que se autogoverna (por isso o trocadilho do último parágrafo) — é presidido por Tsai Ing-wen, que foi capa da revista Time acima. 

Conforme o tempo passa, os cidadãos locais se identificam mais como taiwaneses e menos como chineses. Em 2018, apenas 3,7% da população se afirmava como chinesa. 54,5% do país se identifica apenas como taiwanês, em comparação aos 20,2% de 1994.

Foto: Los Angeles Times

Há duas grandes forças políticas em Taiwan: liberais e nacionalistas. Os nacionalistas ainda alimentam laços com a China — e, por esse motivo, atualmente ironicamente possuem boas relações com o Partido Comunista. Na foto abaixo está ao lado de o Xi o candidato nacionalista, Eric Chu, derrotado nas eleições taiwanêsas em 2016. 

Foto: Twitter – Rodrigo da Silva

Não surpreende a guinada, pois a nação vem se distanciando da China. Taiwan é hoje muito mais rica — o que mostra uma evolução independente dos chineses. O PIB per capita de Taiwan atualmente é maior do que o da Alemanha, Suécia e Finlândia. Já o da China, apesar da franca evolução das últimas décadas, ainda é menor que o da Costa Rica. 

Além disso, os taiwaneses têm acesso a algo extremamente valioso: direitos humanosTaiwan foi o primeiro país da Ásia a permitir o casamento LGBTA internet é livre, assim como a imprensa. E isso sem falar das eleições livres. Taiwan se tornou um país completamente diferente da China (maior inimiga das liberdades individuais). 

Qual a aspiração da China? 

Foto: Twitter – Rodrigo da Silva

O Partido Democrático Progressista, filiado à Internacional Liberal (rede de partidos políticos cujo pensamento é liberal) e, atualmente, líder de Taiwan, é liberal na economia e nos costumes. O partido venceu os nacionalistas em 2020 com uma margem ampla: 57% x 38%. Pequim reagiu com irritação com a vitória. 

Há uma janela de oportunidade se fechando. Se a China quer controlar Taiwan, como promete desde 1949, com as disputas, já mencionadas, entre comunistas e nacionalistas, precisa agir. A população taiwanesa não deseja ser governada. A força bruta, militar, é o único instrumento possível. E é isso que os chineses ameaçam.  

Pequim tem aumentado os exercícios aéreos e navais em torno de Taiwan. O G7, grupo das maiores potencias globais, por exemplo, advertiu a China para não “escalar tensões”.  Os chanceleres ainda disseram que o PCC é culpado de abusos aos direitos humanos e de usar “políticas econômicas coercitivas”.

A China não aceita a soberania da ilha. E ameaça todos que tratam Taiwan – um país – como um país. 

As relações entre os Estados Unidos e Taiwan 

Foto: Taiwan Presidential Office/Handout/Reuters

No início de dezembro de 2016, o então presidente dos Estados Unidos (EUA), Donald Trump, conversou por telefone com a presidente de Taiwan, Tsai Ing-wen, parabenizando-o pela sua eleição. A conversa de 10 minutos foi a primeira que se tem registro entre um presidente ou presidente-eleito americano e um chefe de Estado de Taiwan desde a década de 1970. 

Em agosto de 2020, o secretário de Saúde dos EUA, Alex Azar, fez uma visita oficial à ilha. De acordo com o Departamento de Saúde americano, foi fortalecer a cooperação entre os americanos e os taiwaneses na área sanitária, tendo em vista a pandemia da covid-19.

“A abordagem de Taiwan para combater o vírus por meio de abertura, transparência e cooperação contrasta fortemente com o país onde o vírus começou. “Se um novo vírus como este tivesse surgido na ilha ou em outra sociedade aberta… [ele] teria sido relatado de modo pontual e preciso”, disse Azar durante sua visita, alfinetando a China. 

No mesmo dia da visita de Azar, dois caças chineses cruzaram a metade do Estreito de Taiwan até serem expulsos pela defesa aérea taiwanesa, informou o Ministério da Defesa da ilha. 

“A China se opõe firmemente a encontros oficiais entre os Estados Unidos e Taiwan sob qualquer pretexto. Quem está brincando com fogo vai acabar se queimando muito”, disse o ministro das Relações Exteriores chinês, Zhao Lijian, dois dias da visita do secretário americano. 

As relações entre Estados Unidos e Taiwan, no entanto, vão além de contados diplomáticos. Em 2017, por exemplo, os norte-americanos venderam mais de um bilhão de dólares em armamento para os taiwaneses. Atualmente, com o comércio militar em geral, a ilha asiática gasta cerca de 3% de seu Produto Interno Bruto (PIB) com defesa; caças, mísseis e sistemas de radar são alguns dos itens frequentemente comercializados.

Guerra? As tensões entre China e Taiwan

“A China foi muito clara sobre a reunificação e esse é um objetivo antigo deles. As pessoas precisam ser realistas sobre a atividade. Há militarização de bases em toda a região. Obviamente, existe uma quantidade significativa de atividades e uma animosidade entre Taiwan e a China. Dessa forma, não acho que [o conflito] deva ser descartado”, afirmou, Dutton, ao The Guardian.
Foto: Deutsche Welle

Os taiwaneses já assumiram que a China “está se preparando para a guerra“. Em maio de 2021, por exemplo, em entrevista ao PBS NewsHour, canal de notícias norte-americano, o ministro das Relações Exteriores de Taiwan, Joseph Wu, afirmou que a China está pressionando cada vez mais a soberania taiwanêsa: “estamos tentando defender nossa liberdade, mas uma guerra pode acontecer. É uma possibilidade inegável”.  

A Austrália, nação geograficamente próxima das duas nações, também apoiou a tese. Em abril deste ano, o ministro da Defesa australiano, Peter Dutton, disse que um conflito entre Taiwan e China “não deve ser descartado”

“A China foi muito clara sobre a reunificação e esse é um objetivo antigo deles. As pessoas precisam ser realistas sobre a atividade. Obviamente, existe uma quantidade significativa de atividades e uma animosidade entre Taiwan e a China. Dessa forma, não acho que [o conflito] deva ser descartado”, afirmou, Dutton, ao The Guardian. 

Em janeiro de 2021, Pequim assumiu que, se Taiwan for em direção a uma completa independência da China, enfrentará uma guerra. Conforme noticiado pela BBC, o porta-voz do Ministério da Defesa chinês, Wu Qian, defendeu atividades militares perto de Taiwan, dizendo que são “ações necessárias para lidar com a atual situação de segurança no Estreito da ilha e para salvaguardar a soberania e segurança nacional chinesa”. 

“Advertimos os elementos da independência – aqueles que brincam com fogo vão se queimar, e a libertação de Taiwan significa guerra”, disse Qian. Antes, no ano de 2019, o presidente da China, Xi Jinping já havia dito que a China “não prometeria renunciar ao uso da força” caso os taiwaneses não abdicassem de sua soberania. 

“A reunificação é a tendência histórica e é o caminho certo. Todas os taiwanenses devem reconhecer claramente que uma eventual independência só trará um desastre profundo para Taiwan”, disse Jinping. 

Se uma guerra acontecerá, apenas o tempo poderá dizer. Mas Xi Jinping é indiscutivelmente mais agressivo que seus antecessores. Pequim não aceita um fato consumado: Taiwan é um país independente. E a única forma de alterar essa realidade é com violência, o oposto do que o mundo precisa. 

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