Carnaval é a celebração da liberdade

O carnaval é um grito de liberdade, e você precisa entender melhor essa história.

Nunca fomos catequizados. Fizemos foi o Carnaval. O índio vestido de senador do Império. Fingindo de Pitt. Ou figurando nas óperas de Alencar cheio de bons sentimentos portugueses

Oswald de Andrade

O carnaval sempre foi algo que rondou o imaginário brasileiro. Afinal, “nossa carne é de carnaval, o nosso coração é igual”. Mas de onde vem esse fetiche? Não é a única grande festa popular do mundo ou do Brasil. Durante todo o ano, também se toca samba, frevo e axé. Como evento em si, o carnaval não tem nada de mais. O que tem de tão magnético no carnaval é a sua capacidade de ser um fenômeno de liberdade.

Mas é Carnaval!

Não me diga mais quem é você!

Amanhã tudo volta ao normal.

Deixa a festa acabar,

Deixa o barco correr.

Deixa o dia raiar, que hoje eu sou

Da maneira que você me quer.

O que você pedir eu lhe dou,

Seja você quem for,

Seja o que Deus quiser!

O carnaval permite a todos nós brasileiros cantar a jardineira até a quarta-feira de cinza, e muito mais. Nos deixa ser o que quisermos e não sermos (completamente) julgados por isso. Isso é importante em uma sociedade cujas relações sociais não são baseadas na impessoalidade e que o fenômeno do “sabe com quem você está falando?” é ainda algo corrente. O carnaval, entre uma marchinha e outra, joga uma cortina de fumaça nessa sociedade hierárquica e permite que o rico e o pobre dancem na mesma avenida, o carnaval “é o acontecimento religioso da raça”.

A origem do Carnaval: da Roma Antiga à fama internacional do Brasil como o  maior do mundo - WebArCondicionado

A construção coletivista da sociedade brasileira

Essa interpretação, é claro, não é minha. Ele já existe no pensamento social brasileiro a algum tempo, e há alguns anos, foi motivo de um intenso debate a partir de questionamentos feitos por Jessé de Souza, então presidente do IPEA, e com réplicas de Marcus Melo e Bolívar Lamounier. Como estes apresentam, Jessé ignora diversos elementos de como o estado brasileiro foi, na prática, construído sempre tendo o estado um papel central no objetivo do desenvolvimento nacional e uma reticência aos agentes privados. Um exemplo claro disso é como entrou no senso comum a nomenclatura de “república velha” e “estado novo” que surgiu, na verdade, da crítica fascista a suposta fraqueza da ‘democracia liberal’ como algo velho e decante em oposição ao novo, forte e igualmente fascista estado varguista.

Me permito, humildemente, apresentar mais um argumento para contrapor a visão de Jessé. O anti-liberalismo na sociedade brasileira vai muito além da formação do estado, mas é algo impregnado na nossa sociedade. Como destaca Marilena Chauí, o Brasil sempre foi um povo em busca de um messias. Na época do Brasil colonial, de formação nacional o imperador absolutista português é uma figura distante que “reforça a imagem de um poder percebido como transcendente, mas que, distante, também aparece como um lugar vicário e, como tal, preenchido pelas múltiplas redes de mando e privilégio locais”.

A importância do carnaval para a liberdade

Esse contexto cria um vazio de heróis nacionais políticos ou militares, e paradoxalmente uma visão messiânica da política, como o que levará o país a redenção (diferentemente da visão anglo-saxã de que a redenção se dá por meio do trabalho, ou seja, por vias econômicas e não políticas). Além disso, essas múltiplas redes de poder levaram a uma sociedade muito consciente das distintas relações de micro poder, da prática de carteiradas, de sobrenomes, de coronéis.

Essa visão de mundo é antagônica com uma sociedade calcada em valores liberais e favorável ao livre-mercado e a livre iniciativa. Primeiro, uma sociedade em que o ‘você sabe com quem você está falando?’ é a regra e não a exceção rejeita a base da igualdade formal perante a lei, uma das bases do liberalismo. Segundo, um país em que os meios para o sucesso são ter o sobrenome certo e não o quanto de valor você retorna para a sociedade.

Em suma, uma sociedade não inclusiva e coletivista que vai de encontro a uma manifestação da plena individualidade com um mosaico de identidades e valores. E é isso que no carnaval, cantando a vassourinha, conseguimos em um passo de frevo mostrar toda a exuberância de cada individualidade. O carnaval nos faz ser heróis e malandros, nem que seja só por três dias. Por isso, menina vamo nessa que esse frevo é bom demais!

Por Radua Meira é estudante de Ciência Política pela Universidade de Washington

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Desde 2015 o Ideias Radicais busca difundir o libertarianismo e ajudar a construir uma sociedade livre.

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