A profecia de Ayn Rand em Cântico

O livro “Cântico” é considerado por muitos a melhor introdução ao pensamento da filósofa Ayn Rand. Além de ser uma novela curta, ele precede os calhamaços considerados obras-primas da autora: “A Nascente” e “A Revolta de Atlas”. Nele, já é possível ver elementos essenciais da sua filosofia, o Objetivismo, como a defesa do egoísmo racional, do pensamento individual, do trabalho humano e a crítica ao coletivismo.

Essa novela foi publicada em 1938, em uma conjuntura política que valorizava tudo aquilo que Rand condenava, isto é, o coletivismo nas suas várias instâncias: o nacional socialismo de Adolf Hitler, o marxismo-leninismo de Josef Stalin e o forte intervencionismo de Franklin Roosevelt. Mesmo nesse cenário, o livro não alcançou a mesma projeção que outras distopias, como “Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley, publicado seis anos antes, ou até mesmo que seus próximos livros, como o mencionado A Nascente, best-seller publicado onze anos depois.

Mesmo assim, Cântico merece destaque sobretudo pela sua função de veicular a filosofia objetivista, que cumpre bem. Além disso, como será visto, a autora russo-americana introduz recursos incomuns — ou até mesmo inovadores — tanto na estória que criou, quanto na linguagem usada pelo seu narrador.

Vale lembrar que este artigo revela desdobramentos da narrativa, mas nada que comprometa a experiência de leitura, já que o enredo é sobremaneira simples e não apresenta nenhuma reviravolta extraordinária ou inesperada.

O enredo narrado em Cântico

Ayn Rand reproduz no livro o diário escrito pelo personagem principal, Igualdade 7–2521, que vive em uma sociedade futura, na qual qualquer aspecto de individualismo foi apagado e proibido. Tudo é decidido coletivamente e pelo “bem de todos”, ou seja, pelo Conselho Mundial e suas subsidiárias, desde profissões e lugares de moradia até a rotina dos cidadãos.

É curioso que até o nome dos personagens é definido programaticamente: uma palavra que remete aos supostos ideais da Cidade, como “Igualdade”, “Coletivo”, “Fraternidade”, “Democracia” ou “Solidariedade”, acrescida de um número identificador. 

Além disso, nessa sociedade nenhuma tecnologia pode ser utilizada se não for simples o suficiente para que todos entendam. A complexidade do eletromagnetismo, por exemplo, impede que todos compreendam suas aplicações. Por isso, não há lâmpadas, nem eletricidade, e as casas são iluminadas por velas. Aliás, toda inovação deve passar pelo crivo dos Eruditos, os líderes da Cidade.

Não é de se espantar, então, que essa sociedade viva em uma era de vertigem tecnológica, um claro declínio em relação a épocas passadas, referidas no livro como os Tempos Não-Mencionáveis.

O narrador, por sua vez, considerava-se desde novo como mais inteligente que seus colegas. Justamente por isso, teve suas asas cortadas, sendo enviado para o Lar dos Varredores de Rua. Mesmo assim, sua curiosidade não o impediu de redescobrir por si só os mistérios do mundo, como a eletricidade. É justamente essa jornada de esclarecimento que Igualdade 7–2521 narra em seu diário, e eventualmente como rompeu com essa sociedade coletivista.

O Cântico como distopia

O fato do universo narrado ser tecnologicamente atrasado está em consonância não apenas com a filosofia objetivista, mas também com a lógica de mercado: sem livre iniciativa, qualquer inovação ou melhora na qualidade de vida fica comprometida. Essa percepção destoa da maioria das distopias, em que a tecnologia tem papel central na opressão.

Em 1984, de George Orwell, por exemplo, as teletelas são ubíquas e vigiam a população por todo lado. Da mesma forma, em Admirável Mundo Novo, os cidadãos são concebidos artificialmente em processos de engenharia biológica aplicados a uma linha de produção. Nesse sentido, Rand mostra o que realmente aconteceria em uma sociedade coletivista, dando um toque de realismo a sua obra.

A despeito disso, a criação de uma atmosfera sombria que represente a opressão na Cidade fica aquém, mesmo nas cenas de tortura narradas. Isso contribui para que o mundo criado não seja tão crível aos olhos do leitor, ao contrário de livros como os de Orwell e Huxley, além de “O Conto de Aia” de Margaret Atwood e “Fahrenheit 451” de Ray Bradbury. Isso seria importante, já que outros elementos da novela, como a proibição da palavra “eu”, discutida adiante, soam tão absurdos que precisam de um ambiente de fundo mais sólido para sustentá-los.

Também falta o peso característico de passagens filosóficas nas seções dedicadas ao pensamento da filósofa, como os discursos finais de Igualdade 7–2521 exaltando suas vontades, aspirações e aprendizados individuais. Isso é algo que não carece, por exemplo, nas críticas ao utilitarismo do narrador de “Diário do Subsolo” de Fiódor Dostoiévski, ou nas exposições do absurdismo de Albert Camus, em “O Estrangeiro”.

Mas vale dizer que, se considerado como uma introdução ao pensamento randiano, ao invés de uma grande obra da literatura mundial, o Cântico tem grande valor e não deve ser subestimado.

A redescoberta do “eu” e do individualismo

Um recurso linguístico bastante interessante utilizado pela autora é que, como mencionado, a palavra “eu” é desconhecida da população, tendo sido proibida e alcunhada de “Palavra Inexprimível”. Por conta disso, na maior parte da novela o narrador utiliza a primeira pessoa do plural para se referir a si mesmo. Observe, por exemplo, a passagem em que ele, sozinho, descobre e liga uma lâmpada incandescente pela primeira vez:

Permanecemos ali, e seguramos nossa cabeça com as mãos. Não podíamos conceber bem o que criamos. Não tocamos nenhum fósforo, não acendemos nenhum fogo. Ainda assim havia luz, luz que veio de lugar nenhum, luz do coração do metal. Apagamos a vela. A escuridão nos engoliu. Não havia mais nada ao nosso redor, nada exceto a noite e um fino fio em chamas

Cântico, p. 84

Por conta disso, em vários momentos o leitor pode se pegar interpretando uma cena erroneamente e só perceber ao final, quando mais contexto é fornecido. Nesse sentido, Rand foi cirúrgica ao demonstrar como o coletivismo, levado a consequências tão extremas como o banimento do “eu”, causa confusão em aspectos mais básicos da comunicação humana, quem dirá, então, no sistema político.

Não à toa que os vários relatos de Igualdade 7–2521 utilizando o “nós” passam a ser angustiantes, sufocantes, por utilizarem uma linguagem desconexa com as categorias de “indivíduo”. Quando, enfim, ele descobre a palavra “eu” em livros dos Tempos Não-Mencionáveis e passa a usá-la, o leitor é finalmente aliviado dessa angústia. Agora, conhecendo as palavras certas, o herói da história pode finalmente pôr no papel tudo aquilo que nunca teve repertório para escrever ou mesmo pensar, uma declaração de objetivismo puro:

O que é minha alegria se todas as mãos, até mesmo as sujas, podem alcançá-la? O que é minha sabedoria se até mesmo os tolos ditam sobre ela? O que é minha liberdade se todas as criaturas, mesmo as impotentes e rotas, são meus mestres? O que é a minha vida se sou feito para me curvar, concordar e obedecer?

Estou farto desse culto à corrupção.

Estou farto do monstro do “nós”, a palavra da servidão, da pilhagem, da miséria, da falsidade e da vergonha.

Cântico p. 120

Boa leitura!

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Estuda e trabalha com Engenharia Eletrônica e de Telecomunicações em Belo Horizonte.

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