O caminho para a liberdade

//O caminho para a liberdade

O caminho para a liberdade

A alegria de ter novos problemas

[por Raphaël Lima]

 

    Antes de abordar o assunto, tomemos um momento para refletir e perceber que estamos num assunto diferente do que estávamos há alguns anos no movimento libertário. Dúvidas sempre existirão, problemas sempre existirão, isso é válido para qualquer pessoa, empresa, movimento ou time de futebol. Devemos nos preocupar com responder essas dúvidas e resolver esses problemas, porém devemos nos preocupar ainda mais caso estejamos sempre resolvendo as mesmas coisas. E igualmente, devemos festejar quando estamos diante de problemas novos, pois é um indicativo de que estamos avançando.
    Por muito tempo o trabalho feito pelas inúmeras pessoas e organizações que defendem a liberdade no Brasil foi o de explicar o que raios é esse tal de Libertarianismo. Explicar que imposto é roubo, que o estado é uma gangue, que a iniciação de coerção é antiética e não pode ser defendida sem contradições, que tudo deveria ser privatizado, desregulado e desburocratizado, foi e ainda é uma enorme batalha.
    Mas agora estamos diante de uma enorme e crescente onda de pessoas que já estão na próxima dúvida: ok, e como chegamos nessa sociedade? Como é bom reconhecer que estamos já com, no mínimo, um pé firmemente plantado nesse campo. Avançamos, e isso merece um momento de celebração.

Não existe apenas uma forma
    Isso posto, precisamos reconhecer que o caminho da liberdade não é previsível. Não podemos prever a ação humana. É impossível prever, a priori, qual será a estratégia perfeita para convencer a todos de que devemos viver numa sociedade sem agressão.
    Podemos conjecturar, podemos cobrir várias opções, podemos empreender em várias frentes diferentes, todavia, qualquer um que diga que a liberdade deve ser perseguida por meio de uma única iniciativa, de um único discurso e argumento, por apenas uma rota de conversa, e que ordene a exclusão de todos os outros meios, está se iludindo (para dizer o mínimo).
    No fim das contas, temos tantas formas diferentes de convencer as pessoas a viver de uma maneira não-agressiva quanto temos pessoas nesse mundo. O objetivo desse artigo é dar ideias, estimular rotas de pensamento, iluminar certos caminhos, para que vocês leitores os trilhem, desenhem mapas e descubram ainda mais novas rotas.

Começando em casa
    Um excelente lugar para começar é com você mesmo, e isso é mais do que ler 50 livros sobre libertarianismo em 2 meses e decorar todos os argumentos. Não que isso faça mal, claro.
    Viver numa sociedade sem agressão começa por você viver não agredindo ou ameaçando agressões contra outras pessoas, respeitando a propriedade privada delas. Como possivelmente pedir aos outros que façam o que não fazemos?
    Uma camada mais profunda disso é remover instituições agressivas da sua vida.
    O problema dessa remoção é que ela é muito difícil, não só por motivos financeiros, mas muitas vezes familiares, seus planos futuros, e até uma ansiedade em relação ao futuro e a incerteza da mudança. Isso é compreensível, não se sinta mal. Obviamente seria preferível que todas as pessoas fizessem isso imediatamente, mas é absurdo demonizar qualquer pessoa que não reorganize toda a sua vida de uma vez só, não importando o prejuízo no curto prazo.
    O que peço que você faça é: tenha um plano, e movimente-se constantemente na direção de maior liberdade pessoal. Tente montar uma escala de maiores e menores prioridades, do que é viável para você agora e o que você precisa fazer para que seja viável no futuro.
    Note que isso é válido universalmente, seja você um funcionário público ou alguém que já pratica uma educação sem estado, possui Bitcoin, três residências em países com baixíssima carga tributária e viaja o mundo todo trabalhando em iniciativas libertárias.
    Enxergue a liberdade não só como um objetivo, mas como um caminho. Se você trabalhar todos os dias com o objetivo exclusivo de se tornar um bilionário, praticamente todos os dias serão derrotas, já que você não terá atingido sua meta. Contudo, se você trabalhar com a meta de nesse mês ser melhor, mais produtivo e mais realizado do que era no mês passado, boa parte dos dias se tornam vitoriosos. Construa seu caminho em cima dessas pequenas vitórias do dia-a-dia.
    O mesmo vale para a liberdade. A cada dia, mês, ano, busque conquistar maior liberdade para você. Fique nesse caminho por um tempo e muita coisa será alcançada.

    Outra parte é importante, mas não obrigatória. Vem do fato de que, gostemos ou não, pessoas olham para nós, libertários, como exemplos do que defendemos. Segue que a forma como agimos, encaramos e resolvemos problemas, operamos com outras pessoas e basicamente como tratamos qualquer coisa será julgada como “o que os libertários pensam/acham”.
    Sua postura ajudará a sedimentar a percepção que outros terão sobre os libertários. Colocando de outra forma: não seja um babaca. Se o for, muita gente pensará que todos os libertários são babacas, devem acreditar em coisas babacas, e querem uma sociedade cheia de babacas. Faça uma reflexão simples: quantas pessoas já lhe convenceram a mudar sua vida via agirem de uma forma que você acha idiota e reprovável?
    Novamente: você não é obrigado. Você é perfeitamente feliz para brigar com todo mundo, ser completamente deseducado em todas as interações possíveis, defender apenas os pontos mais polêmicos com argumentos preguiçosos e andar por aí vestido de amarelo berrante carregando uma palmeira na cabeça reclamando de quem faz qualquer coisa diferente de você. Só vamos concordar que não é razoável esperar que isso tenha um efeito muito grande, ou que o resultado seja positivo.
    Colocando ainda de outra forma: o que o libertarianismo prega é que não devemos ter um estado e que não precisamos dele para resolver nossos conflitos. É muito positivo que você se porte como um indivíduo que, de fato, consegue resolver conflitos, admitir que está errado e conviver não-agressivamente com outras pessoas. Do outro lado, uma das piores coisas que você pode fazer é fazer é agir de uma forma que leve outras pessoas a pensarem “Ok, o estado é ruim, mas eu preciso dele para me proteger contra você, porque pelo jeito eu muito provavelmente precisarei”.
    Outro motivo importante de viver a liberdade é muito mais simples: muita gente não tem uma imaginação muito boa. Culpo as escolas por isso, mas isso é outra discussão. Ao não só defender, mas viver a liberdade de uma maneira cada vez mais intensa, damos para quem nos observa uma espécie de vitrine, uma apresentação tácita do que defendemos.
    Um exemplo ótimo disso é o recente debate sobre a legalização da educação domiciliar. Muita gente tem na cabeça aquela caricatura bizarra de uma colônia extremamente religiosa, doutrinando seus filhos a nunca pensar de qualquer outra forma, ter medo de qualquer ideia e se isolar do mundo eternamente. Essa imagem mental aborta o debate. Ao poder apresentar imagens, vídeos e relatos de famílias que praticam homeschooling, podemos quebrar essa caricatura. E mais: podemos convencer indivíduos antes críticos, céticos e receosos a desejarem ser praticantes de educação domiciliar, talvez até sem a necessidade de argumentos maiores.
    É construindo aquilo que desejamos e mostrando ao mundo o que é possível que tiramos as pessoas sem imaginação e sem motivação da sua inércia. E, nesse processo, nos transformamos em faróis de liberdade: em pessoas de sucesso, felizes e realizadas por intermédio da liberdade que demonstram para os outros que nossas ideias funcionam.

Expandindo horizontes
    A segunda fase desse processo é convencer outras pessoas. Notem que só porque estou chamando isso de “segunda fase”, não significa que a “primeira fase” deve estar concluída. Todas as ideias deste texto podem ser postas em prática ao mesmo tempo. O que me move a classificá-las numericamente é um pensamento simples: caso eu tenha energia para fazer apenas uma delas, qual deveria fazer? Ora, focar em você mesmo. Colunas fracas não seguram prédios. Além disso, não há sentido algum, para você ou para as outras pessoas que lhe observam, em defender aquilo que você não faz. Em suma: a primeira fase pode ajudar muito na segunda, mesmo que não esteja concluída.
    Mas como convencê-las? Antes de tudo, entendendo-as. É extremamente difícil e altamente improvável resolver um problema que você não compreende, especialmente caso se queira resolvê-lo várias vezes seguidas, ou com várias pessoas diferentes.
    E além de entender o porquê de as pessoas defenderem o estado — defenderem agressão como uma forma de solucionar problemas — é necessário entender que elas fazem isso por motivos diferentes. Podemos até agrupar os argumentos delas em certas classes gerais, mas é preciso ser taxativo: se há alguma forma de se começar uma corrida com a marcha ré engatada, ela seria tentar convencer os outros de que o libertarianismo é bom afirmando coisas como “todo mundo que defende o estado só quer mandar nos outros” ou “todos que votam por mais estado são burros”.
    Antes de tudo, perceba que uma enorme parte das pessoas que acabam fortalecendo o estado nem sequer sabem o que estão defendendo. Muitos indivíduos não percebem que “o estado” é, na verdade “os políticos”. Não compreendem que leis são defendidas por uma massiva agressão estatal, não percebem que não existe o tal do almoço grátis. Milhões de pessoas estão presas no hábito do dia-a-dia, apenas seguindo a onda que todo mundo segue.
    Isso sem falar que a enorme maior parte das pessoas não faz ideia de que o estado é, por definição, incapaz de alocar recursos racionalmente. Elas imaginam, muitas vezes, que a educação não funciona e que a saúde é ruim porque temos “muita corrupção”, porque políticos não tem “vontade política” ou porque não são as pessoas corretas e inteligentes o suficiente para isso.
    O que me leva a outro ponto: só porque um indivíduo defende uma ou outra coisa do estado, não significa que ele defenda tudo que o estado faz. Quem quer que o estado acabe com a pobreza não necessariamente apoia bancos centrais, guerras infinitas, a estatização da infraestrutura ou o comunismo. Na maior parte dos casos, essas pessoas apenas querem que a pobreza acabe, e acham que o estado pode e deve fazer isso.
    Então quando alguém disser que quer que o estado taxe os ricos para dar para os pobres, talvez não seja uma boa ideia sair num enorme discurso sobre os problemas do Banco Central, sobre o padrão ouro nos EUA do século 18, ou qual a diferença entre Monero e Bitcoin e como elas são a solução para o ciclo econômico. Talvez seja muito melhor explicar para ela como o livre-mercado acaba com a pobreza, como o estado cria pobreza, como taxar os mais ricos não funciona, e por aí vamos.
    Isso não é comprometer princípios, diluir a mensagem ou qualquer outro deslize. É apenas buscar uma maneira efetiva de se comunicar com as outras pessoas.
    Note que isso tudo são aplicações diferentes do mesmo princípio: ouça antes de responder. Muitos libertários saem por aí armados com dois ou três argumentos que eles adoram, e tentam enfiar isso em qualquer discussão. Ok, e o que você faz se a outra pessoa simplesmente não se importa com os assuntos que você quer discutir?
    O estatismo não é um credo definido, unificado e claramente descrito. Ele é uma junção de milhões de pessoas com ideias diferentes, tentando usar o estado para alguma coisa. O estatismo não é uma posição demarcada no mapa, é um amplo oceano de desejos, emoções, preconceitos e costumes. E, em quase todos os casos, esse oceano nem sequer faz sentido interno. Pessoas acreditam em coisas extremamente contraditórias e incoerentes, e defendem ideias sem conseguir demonstrar o porquê as defendem.
    Resulta que antes de qualquer tentativa de mover um indivíduo, precisamos entender onde raios ele está nesse enorme oceano. Precisamos escutá-lo antes de querer influenciá-lo. Precisamos entender qual é o assunto com o qual aquela pessoa em específico se importa, entender quais são as preconcepções que ela possui sobre o livre-mercado, e que provavelmente estarão equivocadas.
    Isso exige um ouvido atento, exige empatia, exige a capacidade de se colocar no lugar da outra pessoa, entender em que língua ela fala, que tipo de argumentos funcionam ou não com ela, e só então tentar nos aproximar por essa rota definida.
    Pode parecer estranho ouvir logo alguém que publica vídeos no YouTube, uma forma notoriamente unidirecional de comunicação, defender essa rota, mas é exatamente o método que uso ao fazer vídeos.
    A maior parte dos temas que seleciono são dúvidas que vejo as pessoas expressando, um argumento que vi alguém fazendo a favor do estado e que muita gente copiou ou achou um bom. O que tento fazer é entender a cabeça de quem criou ou gostou daquele argumento, e gravo tentando conversar com ela, como se estivesse atrás da câmera. Em muitos casos, consigo ter na minha cabeça uma pessoa que conheço que defende ou defenderia aquele argumento, então faço o vídeo inteiro pensando que estou falando com o meu amigo X ou conhecido Y. Essa técnica pode ser usada para qualquer tipo de comunicação que não envolve alguém de carne e osso na sua frente.
    Precisamos dessas vias de comunicação, de todas elas. Precisamos conversar com todo mundo, e isso exige que tentemos todas as vias possíveis. Isso não quer dizer que você tem que usar todos os canais. Use o que você quiser. O que isso quer dizer é que não devemos empinar o nariz para essa ou aquela plataforma e tentar afastar outros libertários dela. Pessoalmente tenho minhas grandes resistências ao jornalismo tradicional e a grandes mídias, mas se alguém quiser falar com eles, oras, que vá.
    Sobre que assuntos devemos falar? Essa é fácil: todos. Se algo é um assunto é porque alguém se importa com isso, e temos que falar com essa pessoa, mesmo que seja apenas uma. Novamente, isso não significa que você deve cobrir tudo. Significa que não podemos dizer que esse ou aquele assunto são proibidos, ou que quem aborda isso ou aquilo está traindo o movimento. Precisamos cobrir todas as mídias, e todos os assuntos, porque somos libertários. Queremos consentimento das pessoas. E, para isso, pode ser preciso um pouco de paciência. Você não precisa convencer todo mundo sobre tudo imediatamente. Converse. Dialogue. Esteja presente. Essa pessoa lhe terá como referência e poderá lhe procurar para conversar sobre coisas que eventualmente tenha dúvida.
    E veja só, é muito fácil ser um comunista, um fascista, um nazista. Você só precisa convencer quem tem as armas a apontá-las para quem discorda de você. Aí é muito fácil, razão, argumentos, compreensão não são necessários, pois a força bruta resolve.
    Democracia é outra forma de “convencimento” extremamente preguiçosa. Você só precisa convencer uma minoria — porque raramente quem vence a eleição realmente é votado pela maioria — a votar para você e pronto, pelos próximos anos você pode usar o poder do estado para mandar neles. Praticamente ninguém precisa saber o que você realmente pensa, nenhum argumento filosófico é necessário. Combine uma boa dose de medo e demonização do oponente, afinal é muito mais fácil atacar o outro do que explicar as suas ideias: tenha um orçamento de publicidade e pronto, você tem o que quer.
    Libertarianismo é trabalho duro. É consentimento de todos, e um sistema que não pode ser mantido por iniciação de coerção. Não podemos nos dar ao luxo de não falar com esse ou aquele grupo, ou de abordar esse ou aquele assunto. Se nós, libertários, não o fizermos, quem o fará?

Construindo o movimento
    O terceiro passo é construir estruturas onde libertários possam interagir em sociedade. Veja só, o caminho para uma sociedade libertária é simples: primeiro seja um libertário, depois atraia mais libertários e finalmente crie uma sociedade libertária. Com essa estrutura de interação, seja mais libertário ainda, atraia mais libertários e repita até onde quiser.
    É aqui que muitas pessoas que não entendem o que é libertarianismo se confundem. Muitos acham que é impossível que existam instituições fora do estado, ou que a necessidade de instituições automaticamente significa que elas podem ser agressivas, um salto de lógica injustificável. Outras ainda acham que o libertarianismo rejeita qualquer tipo de instituição, embora não faça a menor ideia de onde elas tiraram essa ideia.
    Talvez os mais ambiciosos estejam pensando em tribunais privados, agências de segurança e cidades autônomas, e é verdade que vamos precisar disso. Porém, um mero grupo de pessoas que se reúne todo domingo para ir tomar uma cerveja e falar de liberdade já conta.
    Qualquer estrutura, por menor que seja, desde que sirva para divulgar, aprofundar, estudar ou desenvolver ideias de liberdade, é válida. Exemplos: grupos de estudo, canais de discussão pela internet, uma loja ou repositório físico ou digital de livros e artigos libertários, ou mesmo memes.

    Além disso, precisamos de estruturas que nos permitam fazer as coisas que desejamos sem a participação de uma organização agressora como o estado. E precisamos começar a fazer isso o quanto antes.
    O motivo mais óbvio dessa demanda é porque precisamos de escolas livres de intervenção estatal, meios de resolução de disputas, um sistema financeiro melhor, etc, e tantas outras coisas para que possamos interagir. E apenas indivíduos que entendem o valor e importância da liberdade podem construir essas instituições sem permitir que agressores de vários tipos, estatais ou não, as infectem. São os empreendedores da liberdade.
    Um motivo um pouco menos óbvio para o público geral, mas mais fácil de compreender para libertários, é que precisamos dessas estruturas para nos libertar do estado. Elas não apenas são usadas para controlar nossas vidas, nossa educação, nossas finanças e nossa privacidade, mas também para explorar a preguiça das pessoas.
    A maior parte dos indivíduos nunca refletiu sobre a natureza parasítica do estado, apenas seguem sua vida tentando fazer o possível com o espaço que possuem. Ao oferecer serviços, disfarçando bem o fato de que são pagos com o dinheiro dos outros ou inventando alguma desculpa para justificar pilhar os outros, o estado prospera ao implicitamente propor: olha, você pode até não gostar de mim, dos políticos e tudo mais, mas eu forneço sua saúde, educação e segurança, então é mais fácil não pensar muito sobre isso e seguir seu dia, aceitar o que te dou, pagar seus impostos e obedecer minhas ordens, já que tentar mudar isso tudo vai ser muito difícil e você não quer se incomodar muito não é mesmo? Com um agravante: boa parcela da população desconhece que paga impostos. Para elas, esses serviços são, literalmente, vindos do céu.
    Ao criar estruturas paralelas ao estado, fornecemos uma rota de fuga para as pessoas que estão dentro do estado pela inércia da vida, pela dificuldade de enfrentamento ou pela conveniência momentânea.
Além disso, fornecemos uma régua, uma comparação pela qual as pessoas podem medir a incompetência do estado. Uma coisa é tentarmos explicar teoricamente por que o estado jamais conseguirá alocar recursos racionalmente, pois alguém sempre pode dispensar argumentos bem construídos com uma resposta brilhante ao estilo de “olha, mas eu acho que não”. Outra coisa é escancarar de maneira indiscutível que a iniciativa privada é mais competente que o estado em qualquer coisa, e depois explicar que isso se deve ao caráter voluntário das interações nela.

    Mas um terceiro e final motivo existe. Pergunto: se você fosse criar toda a estrutura industrial para a produção, venda e distribuição de algo complexo, digamos, navios de carga, como você faria isso? Meu chute é: você não faz a menor ideia. Pior, muitas pessoas que estão nessa indústria também não fazem ideia de como ela funciona inteira, e se tivessem que a começar do zero, penariam por décadas para chegar num nível que, comparado ao atual, seria considerado rudimentar e tosco.
    Isso porque as estruturas de produção hoje estabelecidas contêm uma quantidade absolutamente inimaginável de informação dentro delas. Pense numa simples barra de chocolate com amendoim, vendida em algum mercado qualquer. Quantas empresas passaram pela cadeia de produção dela? E quantas mais não estão envolvidas no produto em si, mas para produzir as máquinas que produzem as máquinas que produzem essa barra de chocolate, no processo educacional de todas as pessoas envolvidas nesse trabalho, no fornecimento de alimento, roupas e abrigo para essas pessoas? Simplesmente descrever toda essa cadeia de produção adequadamente levaria anos, e ao fim do trabalho de descreve-la, boa parte dela já teria mudado.
    Nenhuma mente conseguiria criar toda essa complexidade, no nível produtivo atual, do zero. A cadeia de produção de um simples chocolate com amendoim é o resultado do trabalho de milhões de mentes, de milhões de interações, de tentativas e erros. Em outras palavras, é um enorme acúmulo de informação, a maior parte dela tácita, sobre como fazer isso ou aquilo. Essa informação está contida no posicionamento das fábricas, nas propagandas, na organização dos trabalhadores, na forma como vendedores contatam seus clientes, e muitas coisas mais.
    E quando o estado nacionaliza um setor, quando ele impede que o mercado opere na produção de algum bem ou serviço, toda essa informação é destruída ou distorcida. Enormes bibliotecas de conhecimento não escrito evaporam, numa tragédia silenciosa, raramente notada.
    Agora pense na educação como é hoje. Este é um setor pesadamente regulado pelo estado, e embora algum nível de educação seja produzido, estamos numa distância assustadoramente inconcebível de o que seria produzido como serviços educativos num livre mercado. Tentar produzir educação hoje buscando atender apenas as demandas dos seus clientes e em total negligência aos mandos estatais é quase como olhar para uma jazida de ferro recém descoberta e tentar descobrir como produzir um navio petroleiro a partir dela.
    É verdade que já há empresas inovando em educação, mas a maior parte está na educação superior ou profissional. Em termos da educação de crianças e adolescentes, temos muitíssimo pouco estabelecido, uma pequena rede de produção que ainda precisa passar por muito para atingir a mesma eficiência, complexidade e capacidade de atender o consumidor como a indústria de jogos, móveis ou a produção de aço.
    Precisamos que libertários criem estruturas, que as criem logo, e que criem muitas delas, porque precisamos recuperar um atraso gigantesco em termos de descobertas empreendedoras nos setores que o estado destruiu informação.

    É importante ressaltar que criar essas estruturas não significa que todos vocês leitores precisam tentar revolucionar o mercado e descobrir todas as respostas. Ninguém está pedindo que você resolva todos os problemas. Se conseguir, ótimo e obrigado, mas não é esse o ponto.
    O ponto é, como abordamos anteriormente, se colocar num caminho. Começar um pequeno grupo de educação domiciliar é superior a fazer nada. Começar um grupo na sua rua ou bairro para resolver problemas locais sem o estado é melhor que fazer nada. E até fazer nada é melhor do que ativamente desestimular e desencorajar quem esteja fazendo alguma coisa.
    E claro, não existe nenhum motivo para imaginar que isso deveria ser feito de graça. Quem quiser fazê-lo sem cobrança está livre, mas não existe nada repreensível em resolver problemas da sociedade e ganhar dinheiro com isso. De fato, esse é o caminho do enriquecimento da humanidade como um todo.
    Uma espécie de vício mental foi injetado nas nossas cabeças por estatistas de variados tipos: “ou você faz algo de bom para as pessoas, ou você ganha dinheiro, mas não há como fazer ambos”. O absurdo dessa proposição é aterrador. Se você quer criar alguma estrutura que resolva problemas das pessoas, busque transformar isso em uma empresa, em um produto; assim você terá os meios financeiros para sustentar essa estrutura no longo prazo, além de estar exposto aos incentivos de mercado e não as suas opiniões de como as coisas deveriam ser, opiniões que embora muito belas, muitas vezes podem estar erradas.

Mãos à obra.

Por | 2019-04-03T19:26:12-03:00 20/03/2019|Libertarianismo|Comentários desativados em O caminho para a liberdade