O estado de bem-estar social e a tensão entre grupos sociais

Esse fenômeno era impensável. No país considerado o modelo do estado de bem-estar social, com seu ethos igualitário, a direita nacionalista e populista obteve grandes vitórias políticas em apenas alguns anos. Isso apesar dos duros ataques da mídia tradicional aos “Democratas Suecos”. Muitos eleitores discordaram com o que eles “deviam fazer” e, em vez disso, abraçaram uma forma política nunca vista antes na história do país.

A Suécia agora junta-se a muitos outros países europeus — Itália, Hungria, Polônia, França, Alemanha e o Reino Unido — que passam por reviravoltas políticas causadas pela crise de refugiados. Mais pessoas entraram no país do que em qualquer outro.

Agora, seus resultados políticos são encarados como uma resposta anti-imigração. E a análise para por aí, com a retórica previsível dos embates sobre raça, nacionalidade, religião e a política do ódio.

Se isso soa familiar, é porque o mesmo acontece nos Estados Unidos hoje. É o colapso do consenso político do pós-guerra e o estabelecimento de algo novo. O que é e o que isso significa — e se vai significar mais ou menos liberdade nas nossas vidas — está aberto para debate.

A dinâmica política fundamental que está em jogo diz respeito à economia e sua interseção com a cultura. Para entender isso, podemos nos debruçar sobre a literatura acadêmica e descobrir aquela grande parte que não é divulgada.

Além disso, podemos também depender da intuição que temos sobre o estado assistencialista e suas presunções demográficas e culturais. De qualquer forma, há um caminho seguro para entendermos o que realmente está acontecendo na Suécia, na Europa e nos Estados Unidos.

O que a literatura científica diz sobre o fracasso da socialdemocracia

Tomemos como exemplo um grande estudo publicado recentemente por Klaus Gründler e Sebastian Köllner, do departamento de Economia da Universidade de Würzburg; e publicado pela Munich Society for the Promotion of Economic Research.

É um trabalho de 50 páginas que usa todo tipo de dados internacionais disponíveis e de técnicas estatísticas para discernir causa e efeito. Ele trata da relação entre a heterogeneidade da população e a estabilidade do estado de assistência social. Ou seja, o estado de altos impostos criado nos países europeus após a Segunda Guerra Mundial.

Os resultados são surpreendentes, embora pouco conhecidos:

Em países caracterizados por um baixo nível de diversidade, um aumento na variedade religiosa, cultural e étnica resulta em uma tendência menor a apoiar políticas redistributivas.

Nesse caso, as minorias étnicas podem ser encaradas como uma ameaça política ou econômica à cultura majoritária no país. […] Um aumento na diversidade produz um resultado significativamente negativo na generosidade do estado de bem-estar social, que é visível em relação ao fracionamento cultural e étnico.

Em outras palavras, a população tolera os estados inchados, invasivos e redistributivos na medida em que pensar que os beneficiados são seus similares. Isso, desde que o setor público seja percebido como uma grande família.

O estado de bem-estar social é incompatível com a diversidade

Entretanto, quando as condições mudam e a população perde suas características demográficas, passa-se a desgostar o fato de que seu dinheiro tomado em impostos é enviado para pessoas de outros grupos sociais. Há duas formas de combater este problema sendo elaboradas. Uma quer desmantelar o estado de bem-estar social. A outra pretende expulsar aqueles entendidos como intrusos.

Em suma, os dados mostram que a mistura dos dois — alta diversidade e muito assistencialismo — não é politicamente sustentável. Novamente, essa não é minha opinião, muito menos meu desejo. É o que a literatura disponível indica. Esse é um grande problema, mas não mencionado, para a ideologia social-democrática, talvez sua maior falha.

Esse fato explica muita coisa sobre a política europeia atual. E a expressão política dessa tendência é geralmente tóxica porque ela só pode realizar-se jogando um grupo, baseado em política identitária, contra outro, considerado o inimigo. É isso que introduz um novo tipo de consciência coletiva, mais nacionalista que os igualitaristas, mas menos liberal que ambos.

Em suma, os autores do estudo introduzem uma situação que detectaram nos dados que eles chamam de “ponto de inflexão”. Nele, a diversidade torna-se tão alta e enraizada que os novos imigrantes tem poder de voto o suficiente para impor mais redistribuição à força.

Dentre as suas descobertas preocupantes, os autores tratam esse ponto como algo positivo. Eu tenho dificuldades em concordar com essa opinião. Afinal, é justamente esse medo apocalíptico que pauta o debate sobre imigração nos Estados Unidos.

O apoio pelo estado de bem-estar social cai com o aumento da diversidade

Continuando a revisão da literatura, em 2007, Steffen Mau da Universidade de Bremen queria descobrir se populações heterogêneas minam a legitimidade do estado de bem-estar social. O resultado foi um levantamento bibliográfico e um estudo de 16 países chamado “Bem-estar sustentável e crescimento sustentável”.

Favorável ao assistencialismo estatal, ele escreveu que:

O estado-nação tornou-se uma das entidades organizacionais mais importantes para a solidariedade social, porque forneceu os fundamentos de uma identidade política e moral social, que garantiu o estabelecimento de sistemas de segurança e transferência legitimamente.

Sob esse ponto de vista, o objetivo do estado-nação é construir um enorme sistema de redistribuição, sem o qual uma nação não prosperará. Tal sistema pressupõe um nível de homogeneidade na população. Em outras palavras, o ethos é construído para excluir estranhos.

A preocupação, diz Mau, é que “é possível que os conflitos entre nativos e imigrantes possam aumentar, influenciando o apoio geral ao estado de bem-estar”.

Ele se intriga ao  descobrir que quanto mais misturada a população, menos encontra-se a tão procurada solidariedade assistencialista. Isso é verdade, particularmente, no que diz respeito à imigração: “os gastos com bem-estar social em países com mais imigração crescem significativamente menos do que em países que limitam a imigração.”

De forma geral, ele descobre que quanto mais heterogênea a população, mais o estado assistencialista é posto sob questionamento. A partir daí, sua legitimidade é amplamente questionada. Essencialmente, se as pessoas não se sentem solidárias para com seus concidadãos, não vão querer que seu dinheiro financie grupos que não compartilham coisas em comum.

Portanto, quanto menos a nação parecer e se sentir como uma “família”, em outras palavras, menos as pessoas estarão dispostas a que ela funcione como uma casa, com o estado como pai e mãe.

Diversidade ou assistencialismo: escolha um

As implicações vão além do estado de bem-estar social, atingindo todos os gastos do governo. Dan Hopkins, da Georgetown University, por exemplo, observa que, entre 1970 e 2000, cidades com demografias cada vez mais diversificadas “tiveram quedas significativas nos seus gastos em vários bens públicos, incluindo estradas, saúde e saneamento”.

Sob essa perspectiva, a diversidade ameaça até as funções essenciais do estado, fazendo com que as pessoas busquem soluções por si. Assim, o estado-família gerará famílias de verdade e outras redes de apoio diversas, voluntárias e locais.

No seu estudo, Keith G. Banting, da Queen’s University, afirma que o coletivismo pode vencer a pressão da heterogeneidade com suficiente propaganda pública. Ainda assim, ele observa que:

A durabilidade de um modelo social comum continua problemática em vários países multinacionais. Cansados da luta entre nacionalismos internos conflitantes, esses países podem renunciar a uma definição comum de direitos sociais, e devolver a relação de cidadão-estado às unidades constituintes, sem a estrutura integradora e as relações intercomunais que são essenciais para preservar benefícios iguais para todos os cidadãos.

Mas foi Robert Putnam, da Universidade de Harvard, que tornou esta tese famosa e apresentou as previsões mais terríveis. Ele chamou atenção há uma década — enquanto temia liberar sua pesquisa — por argumentar que:

O efeito da diversidade é pior do que se imaginava. E não é apenas porque não confiamos em pessoas que não são como nós. Em diversas comunidades, não confiamos em pessoas que se parecem conosco.

A revista The Economist resume sua pesquisa na seguinte frase: “diversidade ou o estado de bem-estar: escolha um”.

O estado de bem-estar é incompatível com a diversidade: o que isso significa?

Quanto menos a “solidariedade comunitária” for óbvia para a demografia, menos as pessoas estarão dispostas a apoiar instituições políticas que tiram de uns e dão para outros. 

As implicações dessas pesquisas são desconfortáveis para todos os lados. Significam que aqueles estados que criam grandes esquemas intervencionistas e, ao mesmo tempo, se recusam a controlar suas demografias para sustentar sentimentos nacionais são como vulcões prestes a explodir.

Logo, a explosão pode se tornar perigosa. Isso porque é profundamente pessoal e não resiste quando recorre-se à política identitária de religião, raça, genealogia e linguagem.

Você pode encarar essas implicações como quiser. A maioria dos comentadores desse fenômeno culpam o racismo pela desestabilização política que vem com a imigração em massa. Na verdade, a literatura nega isso: a falta de vontade política de celebrar estados assistencialistas pertence a todos os grupos.

Tentar misturar duas prioridades públicas — diversidade demográfica e ampla provisão de bem-estar e controle regulatório — criará pressões políticas para jogar fora uma ou outra.

A alternativa liberal ao estado de bem-estar social

É exatamente isso que está levando à agitação política na Suécia hoje e em tantos outros países. Entretanto, há um perigo na transição independente de onde ela for.

Pela esquerda, pode dar luz a tendência que vimos na política americana para apoiar restrições migratórias para limitar a entrada de pessoas que apoiarão o estado de bem-estar social. Ou então, mais perversamente, limitar essas pessoas que empurrarão a política nacional para além daquele “ponto de inflexão”.

Pela direita, essa dinâmica pode resultar em uma mentalidade nacionalista sepultada em intolerância, nativismo, protecionismo, controles de fronteiras, táticas de estados-policiais e o crescimento do populismo.

O tão proclamado “consenso do pós-guerra” criou esse problema a partir do sonho de um estado babá que cuida da vida de todos. Esse sonho é grande demais, caro demais e usa os meios errados — força, ao invés de escolha. Em algum momento isso quebraria — e isso explica muito da política ocidental, que existe não apenas no Ocidente. A China lida com o mesmo problema.

Além disso, estamos apenas descobrindo a tragédia (ou a malevolência) do estado de bem-estar social. Contrário ao seu intuito, ele prepara uma sociedade para adotar uma política cultural nativista, excludente e até racista.

Considerações finais

Independente para que lado você vira nessa matrix complexa, você encontrará perigos para a liberdade de ir e vir, de comércio, de associação e de manter o que é seu.

A verdadeira lição a ser tirada de todos os estudos e experiências e das manchetes de revoltas políticas pelo Ocidente é ilustrar a sabedoria e a beleza da visão liberal. Isto é, a proposta de estados não-invasivos, não-redistributivos, junto com livre comércio, livre migração e tolerância cultural.

O liberalismo clássico fornece uma mistura saudável. Ele funciona. Hoje, nem a esquerda, nem a direita estão dispostas a considerá-lo. Porém, no longo prazo, este é a única maneira de sair dessa bagunça que criamos para nós mesmos.

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Jeffrey A. Tucker

Por:

Jeffrey A. Tucker é o Diretor Editorial do American Institute for Economic Research.

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