A história da bandeira de Gadsden

Com seu fundo amarelo e tendo como foco uma cascavel pronta para ‘’dar o bote’’, a Bandeira de Gadsden faz parte da cultura e da história norte-americana há séculos simbolizando ideais libertários.

Em seus dizeres, a frase ‘’Don’t Tread On Me’’ indica resistência a ameaças e coerções externas que ‘’pisem” nas liberdades do indivíduo. Ela busca afirmar, também, que uma reação por parte da ‘’serpente’’, sempre vigilante e de aparência muitas vezes inofensiva, pode ocorrer caso haja motivos para tanto.

No entanto, sua compreensão nos dias atuais é muitas vezes atrapalhada por conceitos deturpados e interpretações equivocadas, tornando necessária a análise e a divulgação de seus significados e sua contextualização histórica de forma correta ao redor da sociedade.

Quando surgiu a bandeira de Gadsden?

O contexto no qual pode ser registrado o início da história da Bandeira de Gadsden data do século XVII, em anos conturbados nas colônias do Império Britânico, marcado por diversos conflitos.

Nessa época, o império inglês já estava no caminho de se consolidar como um dos maiores do mundo. Juntamente com Portugal, Espanha e outros países, os britânicos investiam — desde a Era dos Descobrimentos do século XV — na corrida marítima de exploração rumo a novas terras e mercados para se inserir.

Com a Europa amplamente dominada pelos países ibéricos, os ingleses encarregaram-se de estabelecer posse sobre terras da América do Norte e da Índia.

Entretanto, as Treze Colônias norte-americanas, sob domínio do Império Britânico, foram o epicentro dos acontecimentos que consagraram a Bandeira de Gadsden.

A projeção da cascavel por Benjamin Franklin: ​‘’Join or Die’’

Em meados dos anos 1700, as colônias inglesas entravam em uma das diversas crises determinantes para seu destino.

O território da América do Norte era alvo de interesses de diversas potências, envolvendo franceses, espanhóis, ingleses e outros.

Lutando pela hegemonia econômica e militar no mundo, países entraram em conflitos maiores em uma guerra de grandes proporções a qual duraria sete anos. Houve muito protagonismo dos agentes envolvidos em torno das terras do norte da América, onde hoje são localizados os Estados Unidos.

Nesse período, Benjamin Franklin, à época um líder já influente, introduziu o uso de uma cascavel em suas publicações no Pennsylvania Gazette, jornal local.

Como um desenho político, mostrou uma serpente cortada em partes que representavam a desunião das colônias ou regiões americanas, incorporando a representação ao lema que visava passar aos conterrâneos: “Join or Die” (“juntem-se ou morra), em referência a necessidade de colaboração e união dos colonizados e gestão das relações dos nativos contra a França durante a Guerra Franco-Indígena.

Com o aumento da união entre as comunidades, a cobra começou a entrar no processo que a tornaria um dos ícones dos ideais americanos de liberdade.

Benjamin Franklin, um dos líderes da Revolução Americana.

A Lei do Açúcar e a reação ao aumento de impostos

Com o fim da guerra, conhecida por Guerra Franco-Indígena, em 1763, a Coroa Britânica encontrou-se com as finanças em apuros: os muitos conflitos deixaram o Império em situação complicada.

A partir destas condições, o parlamento britânico passou a empenhar-se em tentativas de aumentar a arrecadação de receitas, e isso passava pelo aumento de tributação dos colonos. Primeiramente, o projeto resumiu-se no “Sugar Act”, a ‘’Lei do Açúcar’’.

Assim, em 1764, o parlamento aprovou pela primeira vez a lei sobre o açúcar, visando, entre outros fatores, arrecadar mais dinheiro para a Coroa por meio de uma regulamentação mais rigorosa do comércio colonial. A medida influenciava em diversos setores de engrenagem da região, afetando, inclusive, no processo de compra de escravos.

Os atos instantaneamente provocaram protestos das legislaturas coloniais. Apesar da Coroa ter tentado contornar a ideia de tributação direta, estruturando suas receitas como ‘’impostos especiais’’ de consumo relacionados ao comércio, a população não foi convencida.

A Lei do Selo e o acirramento das revoltas

Além dos gastos com a guerra, a coroa britânica também havia de arcar com muitas despesas relacionadas aos seus exércitos e suas outras organizações espalhadas pelo mundo. Nessa situação fiscal, a Coroa Britânica introduziu o ‘’Stamp Act’’, medida chamada de ‘’Lei do Selo’’.

A Lei do Selo, de 1765, introduziu o primeiro imposto interno cobrado diretamente dos colonos americanos pelo parlamento britânico. O novo imposto exigia que todos os documentos legais, incluindo contratos comerciais, jornais, testamentos, licenças de casamento, diplomas, panfletos e cartas de baralho nas colônias americanas levassem um carimbo de tributação.

Desse modo, estava consolidado mais um dos estopins para conflitos na região, impulsionando ainda mais os colonos para direções revolucionárias.

A avalanche de protestos foi inesperada: neles, os colonos conseguiram anular a Lei do Selo em função de sua recusa total em usar os carimbos, bem como por motins, queima de selos e intimidação dos distribuidores de selos coloniais.

Percebendo que os custos do cumprimento da Lei do Selo (como na contenção de revoltas) excediam os ganhos nas colônias, o governo de Londres decidiu pela revogação no ano que se sucedeu. Apesar disso, a lei acabou reforçando movimentos contra o governo britânico e a favor da independência.

Formação dos “Filhos da Liberdade”

Nesse processo de conflitos do século XVII ao redor das colônias e suas metrópoles, notou-se o surgimento de grupos de confronto não oficiais, chamados de ‘’Filhos da Liberdade’’. Ele foi formado no verão de 1765 com o objetivo de se opor às medidas do Império e promover a liberdade do povo nativo.

Unidos, os colonos defenderam seus direitos como ‘’ingleses’’ de serem tributados apenas por seu próprio consentimento. Surgiu o lema No Taxation Without Representation (nenhuma tributação sem representação), um princípio até os dias atuais consagrado pelo direito tributário. Basicamente, a ideia é que o Executivo não pode criar impostos.

Os ‘’filhos da liberdade’’ começaram a espalhar seus emblemas e ideais para mostrar os efeitos daquela imposição da coroa britânica ao restante da população.

De forma geral, eles entraram para a história como patriotas americanos que, juntos, formaram um importante grupo do processo de pré-independência dos estados americanos.

Entre seus feitos, ficaram conhecidos pela realização da Festa do Chá de Boston em 1773. Esse evento desencadeou uma série de atos de repressão por parte do governo britânico, ocasionando uma reação contrária pelos Patriotas que levou diretamente à Guerra Revolucionária Americana em 1775.

Com a intensificação dos protestos e conflitos sociais, as gravuras de Benjamin Franklin envolvendo a famosa cobra voltaram ao foco.

‘’Unite or Die’’: a união cada vez maior dos colonos

“Una-se ou morra”, jargão das Treze Colônias contra a Coroa Britânica.

Com o acirramento dos conflitos e protestos contra o domínio inglês, os povos nativos norte-americanos intensificaram seu processo de união.

Se o uso de ‘’Join or Die’’ por Benjamin Franklin nos jornais da época entre 1754 e 1765 foram projetados para unir as colônias contra a França em decorrência dos conflitos da Guerra Franco-Indígena, o objetivo em 1765 era outro: o de unir ainda mais colônias diretamente contra o Império Britânico, que empacava sua independência. O acordo, desta vez, incluiu até Nova York e Pensilvânia. Nesse processo, o lema passou a ser ‘’Unite or Die’’ (una-se ou morra).

Com suas mudanças, a imagem da serpente unida a um lema para guiar os ideais americanos popularizou-se ainda mais. O desenho passou a ser o símbolo da liberdade colonial durante a Guerra Revolucionária Americana.

A influência de Christopher Gadsden

Entre os entusiastas dos protestos, Christopher Gadsden destacou-se, sendo o principal líder do movimento Patriota da Carolina do Sul (South Carolina Patriots) durante a Revolução Americana e político do Estado. Gadsden também foi um dos delegados do Congresso Continental (o Congresso que representava as Colônias frente às investidas da Coroa Britânica).

Durante a Guerra Revolucionária, Christopher foi um importante general do exército continental.

Christopher Gadsden, que havia se tornado um dos fundadores dos Filhos da Liberdade de Charleston e subira a postos militares altos, foi ponto chave para a consolidação da bandeira da serpente que entraria para a história da cultura norte-americana: em conversa com Benjamin Franklin, Christopher sugeriu o uso da cascavel em uma bandeira, que viria a ser usada nos navios da força continental e simbolizaria a luta pela liberdade.

Christopher Gadsden

Por que a serpente?

Em dezembro de 1775, um americano escreveu para o jornal da Pensilvânia. De forma anônima, dizia que nada tinha a ver com assuntos públicos e que estava apenas matando uma hora ociosa, e por isso, decidiu escrever. O escritor defendeu em seu texto a razão pela qual a cascavel deveria ser o símbolo da América.

O autor desconhecido escreveu:

‘’Lembro-me que seus olhos se destacam em brilho e que ela não tem pálpebras, o que pode, portanto, ser considerada um emblema da vigilância. Ela nunca inicia um ataque, apenas quando provocada, e, quando provocada, nunca se rende.

É, portanto, um emblema da magnanimidade e verdadeira coragem. Como se quisesse impedir todas as pretensões de briga com ela, as armas com as quais a natureza forneceu-lhe escondem-se no céu da boca, de modo que, para aqueles que não a conhecem, ela parece ser o animal mais indefeso; e mesmo quando essas armas são mostradas e estendidas para sua defesa, elas parecem fracas e desprezíveis; mas suas feridas, por menores que sejam, são decisivas e fatais. Consciente disso, ela nunca fere, até que generosamente avise, mesmo a seu inimigo, contra o perigo de pisar nela’’.

O autor em anonimato revelou-se ser, posteriormente, Benjamin Franklin, precursor do uso da cobra na bandeira.

O fim dos conflitos

Depois dos diversos entraves, as guerras se intensificaram e a Independência das Colônias era questão de tempo. Os colonos proclamaram o lema de ‘’No taxation without representation’’ (‘’sem representação, sem tributação), que visava comunicar que a falta de representatividade dos cobradores de impostos no Parlamento legitimado pelos americanos impedia-os de taxar a população. Com investidas como essa, a revolução estava em seu auge.

A serpente e sua bandeira já tinham entrado para o imaginário popular, inspirando a luta pela liberdade nas colônias e, depois, no país independente.

O First Navy Jack, a primeira bandeira da Marinha, é outra semelhante a bandeira de Gadsden. Há treze listras vermelhas e brancas, que representam as treze colônias, e a cascavel com o mesmo lema: ‘’Don’t Tread On Me’’ (‘’Não Pise Em Mim’’), também usada até hoje.

A conexão da Marinha com a Bandeira de Gadsgen decorre do episódio em que, em 1775, antes de navios americanos saírem em busca da interceptação de navios britânicos, Christopher Gadsden ofereceu a bandeira para o Capitão Esek Hopkins. Por sua vez, ele mandou hasteá-la em seu mastro principal, e mais tarde ela se tornaria o símbolo dos fuzileiros navais.

A bandeira, desse modo, consolidava-se como a representação da defesa pela liberdade e contra a tirania dos ingleses.

A Declaração de Independência dos Estados Unidos

Com o fim dos conflitos, foi elaborada a Declaração de Independência dos Estados Unidos da América, documento no qual as chamadas Treze Colônias, localizadas na América do Norte, foram declaradas independentes da Grã-Bretanha.

O conteúdo histórico foi oficializado pelo Segundo Congresso Continental em 4 de julho de 1776, na Pennsylvania State House (hoje, Independence Hall), na cidade de Filadélfia.

Em um comitê de cinco pessoas nomeadas para redigir o documento, estavam Thomas Jefferson, o responsável pela primeira versão do texto, e John Adams, Benjamin Franklin, Roger Sherman e Robert R. Livingston, que sugeriram modificações na Declaração posteriormente.

Nessa direção, estabeleceu-se na cultura norte-americana três princípios e direitos inalienáveis: a vida, a liberdade e a propriedade.

Considerações finais

Mesmo com grupos políticos ou ideológicos tentando ‘’sequestrar’’ alguns desses símbolos ao longo da história e parte da mídia e dos meios de influência digital tentando manchar a imagem e a história da Bandeira de Gadsden, sua natureza central está — e sempre estará — enraizada na defesa da vida, da autonomia e da lealdade a princípios que protegem a liberdade dos indivíduos.

A preservação do significado da bandeira e dos princípios da liberdade deve perdurar.

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É graduando em Direito e em Administração Empresarial, além de coordenador do Students For Liberty em Santa Catarina.

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