Banco Central Europeu e o recorrente erro dos economistas

É surpreendente ouvir alguns economistas sérios do Banco Central Europeu dizerem que não entendem como a ideia de que o dinheiro pode ser impresso eternamente sem risco se espalha por todo o debate político. Afinal, são os próprios bancos centrais que fornecem esta falsa sensação de segurança. No entanto, as instituições financeiras podem disfarçar o risco apenas por um tempo, mas jamais o eliminará completamente.

Um dos grandes erros entre os economistas é receber as medidas dos bancos centrais como se fossem a verdade revelada. Inclusive, é surpreendente e preocupante que se considere obrigatório defender cada uma destas ações em público.

Principalmente, quando, em particular, muitos colegas balançam a cabeça sem acreditar no acúmulo de bolhas e desequilíbrios. E, como em tantas ocasiões, a falta de críticas construtivas leva à complacência das instituições e a uma cadeia de erros que, posteriormente, todos os cidadãos lamentam.

Banco Central Europeu sustenta o Status Quo

A política monetária da Europa deixou de ser uma ferramenta para ajudar os estados a fazer reformas estruturais e passou a ser uma desculpa para não realizá-las.

Isso porque o financiamento constante dos déficits de países que perpetuam desequilíbrios estruturais não ajudou a fortalecer o crescimento.

Antes da crise de 2019, a zona do euro já tinha presenciado constantes cortes nas estimativas de seu PIB. Contudo, este fato foi encoberto por populistas de extrema esquerda que defendem a impressão maciça de dinheiro e a “Teoria da Modernização Monetária” (MMT).

Este comportamento está ameaçando o progresso e o crescimento da zona do euro. O populismo não é combatido sendo escondido do debate público, e o impacto de médio e longo prazo dessa política equivocada na área do euro é inquestionavelmente negativo.

Hoje, numerosos políticos europeus de extrema esquerda dizem aos cidadãos que as reformas estruturais e a prudência orçamentária são coisas que foram implementadas por políticos maléficos e com más intenções. E, via de regra, a mensagem de que há dinheiro ilimitado para qualquer coisa, quando e como for, é alvejada pelas ações do Banco Central.

O problema com taxas negativas

Grécia, Chipre, Lituânia, Eslováquia, Espanha, Portugal e Eslovênia já estão tomando empréstimos a taxas reais negativas. No entanto, taxas negativas não são um sinal de confiança nas políticas do governo, mas uma aberração da política monetária que esconde o risco real. E, mais cedo ou mais tarde, tal risco explode.

Quando os políticos dizem que rendimentos negativos refletem a confiança dos mercados do país, eles estão simplesmente mentindo. O BCE (Banco Central Europeu) está a caminho de possuir 70% da dívida soberana em circulação na zona do euro e compra todas as emissões líquidas após os resgates, de acordo com o Pictet e o Financial Times. Não há mercado.

Esta confiança temporária na capacidade do BCE de alterar o risco só é sustentada se a área do euro aumentar o seu excedente comercial e a sua produção econômica, mas principalmente se a Alemanha continuar a financiá-la. Não é eterno; não é ilimitado e, definitivamente, não é isento de riscos.

Uma década de dinheiro fácil

Muitos leitores dirão que esta é uma política excepcional devido à crise da Covid-19, que requer medidas excepcionais. Só há um problema com esse argumento: ele é falso.

A política do BCE tem sido ultra expansiva por mais de dez anos, seja em períodos de crise, recuperação, crescimento ou estabilização. As taxas de juros foram reduzidas para negativas e as compras de ativos aumentaram em períodos de crescimento e estabilidade em que não havia riscos de liquidez na economia.

De fato, o Banco Central Europeu tornou-se refém de estados que não querem reduzir os seus desequilíbrios estruturais, mas que pretendem perpetuá-los porque o custo da dívida é baixo e o BCE os “apoia”.

Porém, o BCE deveria se preocupar com o fato de que os partidos mais radicais, muitos alinhados às políticas econômicas da Argentina e da Venezuela, como o Podemos ou o Syriza que aplaudem essa insanidade monetária feito uma validação de suas teorias.

Não é por acaso que o ímpeto reformista na zona do euro parou abruptamente desde 2014. Isso coincide exatamente com as maciças injeções de liquidez. As reformas estruturais e a prudência orçamentária são vistas como políticas malignas. Taxas baixas e alta liquidez nunca foram um incentivo para reduzir os desequilíbrios, mas sim um incentivo claro para aumentar a dívida.

O grande problema é evidente. Uma vez implementada, a chamada política monetária expansionista não pode ser interrompida. Alguém no BCE acredita que os estados com um déficit estrutural superior a 4% do PIB ao ano vão eliminá-lo quando emitirem dívida a taxas negativas? Alguém no BCE acredita honestamente que, após a crise da Covid-19, os governos vão cortar orçamentos inchados?

Na prática, dezenas de desculpas serão inventadas para perpetuar uma política fiscal e monetária cujos resultados são, no mínimo, decepcionantes, considerando o enorme volume de recursos utilizados.

A pior desculpa de todas é a de que “não há inflação”. É como dirigir um carro a 480 km/h em uma rodovia, olhando pelo espelho retrovisor e dizendo: “ainda não nos matamos, acelere”.

Inflação de preços de ativos

Não é surpresa que a zona do euro tenha testemunhado um número crescente de protestos contra o aumento do custo de vida enquanto o banco central nos diz que “não há inflação”. Mas também é imprudente dizer que isso seja verdade sem considerar os ativos financeiros que dispararam devido a essa política.

Países insolventes com títulos soberanos de dez anos de rendimento negativo são uma inflação enorme. O aumento dos preços de bens e serviços não replicáveis, que em muitos casos triplicam a taxa oficial de inflação, é uma inflação enorme.

Além disso, grandes aumentos no aluguel e na habitação não se refletem adequadamente na inflação oficial. E é especialmente preocupante quando a política monetária encoraja gastos improdutivos e perpetua o excesso de capacidade. Isso significa menor crescimento da produtividade, o que acarreta menores salários reais no futuro.

Um estudo recente de Alberto Cavallo, da Harvard Business School, alerta para o diferencial entre a inflação real sofrida pelos consumidores, especialmente os mais pobres, e o IPC oficial (índice de preços ao consumidor).

Veja, por exemplo, o IPC da zona do euro para novembro: o valor é –0,3%. Não há inflação, certo?

Todavia, nos mesmos dados, os alimentos frescos aumentaram 4,3%, os serviços 0,6% e o componente de energia caiu 8,3%, embora nenhum cidadão europeu tenha visto uma queda de 8,3% em sua conta de energia, porque nem gasolina, nem gás natural ou eletricidade (incluindo impostos) caíram muito.

Na verdade, se analisarmos o custo de vida usando os bens e serviços que realmente usamos com frequência, percebemos que em uma crise sem precedentes como a de 2020, os preços para a classe média e as camadas mais pobres sobem muito mais rápido do que o ICP mostra.

O Banco Central Europeu está ignorando o risco

O fato de que, por enquanto, riscos enormes não têm sido percebidos não significa que eles existam e que não estejam aumentando. A dívida de rendimento negativo, que atingiu o recorde de US$ 18 trilhões em todo o mundo, liderada pela zona do euro e pelo Japão, não é um sinal de confiança, mas sim um enorme risco de estagnação secular.

Quando os líderes do Banco Central Europeu argumentam que oferecem apenas uma ferramenta, mas ao mesmo tempo dão recomendações de política fiscal e orçamentária encorajando “não temer dívidas” e gastando muito mais, ele perde independência no médio prazo.

E, além disso, a instituição também torna-se um garçom que não para de servir bebidas, incentiva você à farra e depois fica indignado por estar bêbado.

A introdução desses enormes desequilíbrios apresenta riscos significativos, e eles não são minha especulação do futuro. Eles já são realidades hoje.

Por exemplo, a enorme desconexão entre os ativos financeiros e a economia real; os estados insolventes se financiando a taxas negativas; as bolhas em ativos de habitação e infraestrutura; as dívidas de empresas zumbis ou a dívida podre com rendimentos historicamente baixos; o aumento agressivo em investimentos alavancados em setores de alto risco; a perpetuação do excesso de capacidade, etc.

Ignorar todos estes fatores em uma instituição monetária é mais do que perigoso, é irresponsável.

Não é hora de fazer tudo “custe o que custar”, “aconteça o que acontecer”. É hora de defender o dinheiro sólido. Caso contrário, a credibilidade das instituições afundará ainda mais à medida que o coro consensual da corrente principal cante “aleluia” enquanto o prédio desaba.

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Raphaël Lima

Por:

Fundador e CEO do Ideias Radicais.

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