Quem foi Ayn Rand: a criadora do objetivismo

Ayn Rand, romancista e polêmica filósofa, nasceu na Rússia, mas emigrou para os Estados Unidos aos 21 anos. Certa vez, ela declarou em seu periódico mensal, O Objetivista, a seguinte ideia:

Para constar, eu desaprovo, discordo e não tenho conexão com a mais recente aberração de alguns conservadores, os chamados ‘hippies da direita’.

“Esses libertários”, ela enfatizou em Philosophy: Who Needs It, “subordinam a razão a caprichos e substituem o anarquismo pelo capitalismo. Eles prejudicam os direitos individuais, atacando o monopólio legítimo do governo sobre o uso retaliatório da força e não reconhecendo a dependência da política em fundamentos filosóficos mais amplos.”

Apesar de sua antipatia pelo tipo anárquico de libertarianismo, Rand inspirou profundamente uma geração de indivíduos a perseguir o objetivo de uma sociedade livre.

Alguns de seus seguidores mais próximos ocuparam cargos no governo. Entre eles está Martin Anderson, que serviu no governo Reagan, e Alan Greenspan, que atuou como presidente do Federal Reserve Board. Outros desafiaram a política contemporânea de fora, formando organizações como o Cato Institute, a Reason Foundation e o Partido Libertário.

Vários aspectos da posição que ela propôs encontraram seu caminho nos trabalhos de filósofos acadêmicos de mente libertária, entre eles: Douglas Den Uyl, John Hospers, Tibor Machan, Eric Mack, Douglas Rasmussen, David Kelley e Tara Smith. Ela também desempenhou um papel crucial na formação dos pontos de vista do psicólogo Nathaniel Branden.

Vida de Ayn Rand

Nascida em 1905, como Alissa Zinovievna Rosenbaum, na cidade de São Petersburgo, Rand foi inspirada pelos ideais heróicos incorporados na filosofia de Friedrich Nietzsche. Bem como, pela ficção e pelo drama romântico de escritores como Victor Hugo, Edmond Rostand e Friedrich Schiller.

Educada sob os soviéticos, ela abraçou a tendência dialética russa de transcender os dualismos de mente e corpo, teoria e prática, moralidade e prudência. No entanto, rejeitou veementemente as tradições religiosas e morais altruístas da cultura e da política estatista.

Ateia declarada, ela sustentava que os comunistas haviam simplesmente substituído a subordinação do indivíduo ao coletivo e ao estado pela subordinação do indivíduo a Deus.

Sua experiência pessoal com o comunismo teve efeitos a longo prazo. Ayn imigrou para a América em 1926, determinada a informar o mundo sobre a barbárie da ditadura totalitária.

Seu primeiro romance, We the Living, publicado em 1936, focou no conflito entre o indivíduo e o estado, e tentou mostrar como o totalitarismo criou um ambiente “hermético”, que destruiu os melhores homens e mulheres da sociedade.

Amizades no meio político

Nessa época, Rand começou a se corresponder com vários dos principais defensores americanos do individualismo. No início dos anos 30, ela escreveu a H. L. Mencken, a quem considerava “a principal defensora do individualismo” nos Estados Unidos.

Rand esperava traduzir o notável sucesso de seu próximo romance, The Fountainhead, em um amplo movimento político anti-estatista dos principais conservadores e libertários da época. Rand era familiarizada com Rose Wilder Lane, Albert Jay Nock e Isabel Paterson, por exemplo.

No entanto, a coalizão nunca se materializou, devido à disparidade ideológica de seus possíveis membros. Muitos dos quais, Rand considerava tradicionalistas e religiosos.

Seu relacionamento com Paterson — cuja obra God of the Machine foi publicada em 1943, no mesmo ano em que The Fountainhead e Discovery of Freedom, de Rose Lane — provavelmente, teve o impacto mais profundo na crescente sensibilidade individualista de Rand.

Isabel Paterson havia apresentado Rand a muitos trabalhos libertários importantes em economia, história, filosofia e política. Ela também publicou os escritos de Rand em sua coluna do New York Herald Tribune.

Ambas eram obstinadas, no entanto, suas diferenças — principalmente religiosas — acabaram por minar sua amizade. Todavia, Rand caracterizou God of the Machine como um antídoto para O Capital, de Marx. Ela descreveu a obra como a maior defesa do capitalismo que ela já lera.

Rand também teve relações com outros escritores libertários, como Leonard Read e Henry Hazlitt, que apresentou-a a Ludwig von Mises. Na época, ele já era o principal economista da Escola Austríaca.

Embora Rand tenha se oposto a certos aspectos da abordagem “praxeológica” de Mises às ciências humanas e às suas visões de moralidade, ela respeitava sua defesa econômica do livre mercado.

Nos anos seguintes, defendeu seus escritos em várias publicações. Diz-se que Mises respeitou muito a coragem ideológica de Rand.

A Revolta de Atlas

Quando A Revolta de Atlas foi publicado em 1957, Ayn Rand alcançara fama mundial por oferecer uma defesa controversa, integrada e secular do capitalismo. No livro, ela apresentou as bases de uma filosofia sistemática que, mais tarde, chamou de objetivismo.

Assim, sua filosofia repousava na premissa de que a realidade é o que é, independente do que os seres humanos pensam ou sentem, e essa razão é o único meio de conhecê-la. Rand defendia valores objetivos, vendo a vida humana como o padrão pelo qual se julgava o bem e o mal.

Inclusive, foi essencial para o seu egoísmo ético a doutrina de que os seres humanos podem e devem existir como iguais independentes, sem sacrificar os outros para si.

Para Rand, o “princípio do comerciante” é a única máxima social apropriada. Como os seres humanos devem ser livres para buscar os valores que sustentam suas próprias vidas, a doutrina dos direitos individuais é indispensável para garantir a liberdade dentro de um contexto social.

Rand compartilhou com muitos liberais clássicos e libertários modernos esse compromisso com os direitos individuais e o estado de direito objetivo. Ela argumentou que, para proteger os direitos naturais do indivíduo, era necessário um monopólio do governo sobre o uso coercitivo da força. Por meio do estabelecimento de tribunais, da polícia e das forças armadas.

Afinal, como o capitalismo, na sua opinião, se baseava no “princípio do comerciante” e no princípio da não-agressão. Ou seja, que nenhum ser humano deveria atingir valores iniciando o uso da força contra os outros. Ayn Rand sustentava que este era o único sistema social consoante com uma existência genuinamente humana.

Legado de Ayn Rand

Nos anos seguintes à Atlas Shrugged, Rand trabalhou com seu sócio mais próximo, Nathaniel Branden. Ele organizou o Instituto Nathaniel Branden para disseminar os princípios do Objetivismo.

Em seu auge, o Instituto de Branden influenciou um grande número de estudantes, oferecendo cursos que tratavam de todos os aspectos do pensamento de Rand — da epistemologia à estética.

Muitos desses estudantes eram libertários em potencial, que estavam descontentes com o “liberalismo” moderno. Visto que este defendia a regulamentação do governo sobre a vida econômica e o “conservadorismo” moderno, que defendia a regulamentação do governo sobre os costumes das pessoas.

Nesse sentido, o objetivismo ofereceu uma política que contrasta fortemente com a mentalidade de “guerra de bem estar”, promulgada em ambas as extremidades do espectro político.

A oposição veemente de Rand à New Frontier “fascista” de John F. Kennedy e à Great Society de Lyndon B. Johnson correspondeu ao seu intenso desdém pelo recrutamento militar e pela Guerra do Vietnã.

No geral, sua rejeição às decisões da Suprema Corte sobre obscenidade e pornografia e seu repúdio à direita religiosa inspiraram muitos ativistas e escritores libertários, que aplaudiram seu apelo por “mentes livres e mercados livres”. Um slogan que a Reason, uma revista libertária, adotou posteriormente como seu credo.

Embora Rand tenha morrido em 1982, seu legado vive em muitos segmentos do movimento intelectual libertário. Por fim, o fato de que suas ideias despertaram o interesse de estudiosos em todo o mundo é prova de sua qualidade duradoura.

Chris Matthew Sciabarra é autor de “Ayn Rand: the Russian Radical”

Disclaimer: Os termos “libertário” e “liberal” devem ser entendidos no contexto dos Estados Unidos.

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