O sistema de alocação de preços e a justiça distributiva

Uma das reclamações mais comuns contra os mercados é que a alocação de produtos por preço, ou seja, pela disposição de pagar, é de alguma forma injusta. Por que aqueles que estão dispostos ou são capazes de pagar qualquer preço por um determinado bem deveriam ser os únicos a obtê-lo?

Não existem outras maneiras mais justas ou morais de distribuir bens, especialmente coisas que as pessoas têm como “necessidades?” Uma área específica em que vemos esse argumento é com relação aos cuidados de saúde, onde o medo é de que apenas os ricos possam pagar certos tipos de procedimentos ou tratamentos.

A defesa de leis contra as chamadas “manipulação de preços” e “preços predatórios” joga com medos e noções semelhantes de justiça.

Se pensarmos de forma ainda mais ampla, podemos imaginar todos os tipos de maneiras, além do preço, pelas quais podemos alocar uma oferta de bens. Imagine uma pilha grande, mas limitada, de alguma mercadoria do lado de fora, esperando para ser distribuída entre um número ainda maior de compradores. Como podemos fazer isso além do preço?

Alternativas ao sistema de preços

Alguns candidatos óbvios vêm à mente. Poderíamos, por exemplo, usar um sistema de loteria e apenas aqueles cujos números são chamados recebem o prêmio. Ou poderíamos dizer que apenas aqueles com aniversários em dias pares (ou ímpares) receberão o bem.

Assim como, poderíamos, como muitas economias nominalmente socialistas fizeram durante décadas, usar um sistema de filas e apenas distribuir o produto até que o fornecimento se esgotasse. Dessa forma, aqueles que estivessem no início da fila ficariam bem.

Também podemos alocar por “necessidade”. Imagine as pessoas tendo que preencher algum tipo de formulário para obter o produto e um painel de especialistas decidindo de quem é a maior necessidade até que o estoque acabe.

Ou, finalmente, imagine algo como o “Clube da Luta”. Apenas deixe a multidão reunida lutar e aqueles que são os mais fortes, mais rápidos ou mais bem armados ficarão com os bons, enquanto os fracos vão para casa de mãos vazias.

Falhas destes modelos

É fácil apontar os problemas com essas ideias. Além dos danos causados ​​a pessoas e propriedades pelo “Clube de Luta”, isso fará com que as pessoas dediquem cada vez mais recursos para adquirir armas ou meios de se defender. Todo esse uso de recursos representa uma perda para a sociedade (o que os economistas chamariam de “peso-morto”) em comparação com um mundo em que tais gastos não eram necessários.

Portanto, embora possa realmente alocar bens, o “Clube da Luta” o faz a um custo social muito alto. É de se notar que existe um paralelo entre essa forma de alocação e o processo de busca de renda pelo qual os atores econômicos gastam e desperdiçam recursos para persuadir os atores políticos a conceder-lhes privilégios ou impor custos à sua competição.

A alocação por necessidade pode parecer boa no papel, porém, como exatamente alguém definiria “necessidade” e como tal painel de especialistas a avaliaria são problemas. Assim como, a oportunidade de favoritismo e nepotismo que tal arranjo criaria.

Já os sistemas de filas favorecem aqueles com tempo disponível. E vários outros esquemas de randomização ou loteria não garantem que aqueles que recebem o bem são aqueles que podem colocá-lo em uso mais valioso.

Então, será que existe algum padrão de necessidade razoavelmente objetivo em que possamos confiar?

Sistemas semelhantes

Este é um ponto frequentemente levantado sobre o controle de preços durante as emergências. Isso porque ao manter os preços artificialmente baixos, a oferta frequentemente acaba sendo utilizada para usos muito menos importantes do que se as pessoas tivessem que pagar o preço de equilíbrio do mercado.

Se você tiver a sorte de encontrar água engarrafada com preço controlado, pode muito bem comprar mais do que precisa e usá-la para regar suas plantas ou lavar seu cachorro. Por outro lado, com o preço de compensação de mercado mais alto, você compraria menos e conservaria para beber ou tomar banho, talvez, e deixaria mais para outros também fazerem isso.

Todos esses são problemas reais com processos de não alocação de preços. Mas, como observei no início, a alocação de preços também não é perfeita. Isso tende a significar que, a qualquer momento, o bem ou produto tem maior probabilidade de acabar nas mãos de quem tem mais capacidade de pagamento.

Alguns sempre verão isso como injusto. Então, o que fazemos? Como podemos escolher entre esses processos imperfeitos? E por que acreditar que a alocação de preços ainda é melhor?

A resposta é que a alocação de preços tem uma enorme vantagem que falta a todos os outros métodos. E essa vantagem é um tanto obscurecida pela maneira como configurei o problema. Ao imaginar uma pilha de mercadorias esperando para serem distribuídas, esquecemos a questão de o que faz com que essas mercadorias passem a existir.

Alta nos preços

A vantagem da alocação por preço é que as mudanças nos preços fornecem o sinal e o incentivo para que os produtores (potenciais) saibam que devem produzir o bem em questão. Todos os outros métodos consideram o lado da oferta do mercado como dado e se concentram em como racionar os bens entre os compradores.

Apenas a alocação por preço vincula o método de distribuição ao problema da produção. O preço, como todo aluno introdutório à economia aprende, vincula a demanda e a oferta.

Aumentos na demanda que aumentam o preço do bem sinalizam para os produtores que o bem está sendo mais bem valorizado e que eles deveriam produzir mais. Quedas na demanda que reduzem os preços sinalizam o contrário. Em ambos os casos, esse sinal também funciona como um incentivo para se engajar na resposta apropriada.

Dando um passo para trás, todo o motivo pelo qual as pessoas produzirão o bem em primeiro lugar é porque acham que podem obter um preço por ele que valerá a pena fazê-lo. Isto é, a pilha de mercadorias não aparece por mágica — exige que alguém em algum lugar saiba que o bem é desejado, que tenha um incentivo para produzi-lo e que possa descobrir a melhor forma de fazê-lo.

Esse conhecimento e os incentivos que o acompanham são fornecidos pelos preços. Nenhum dos outros processos de alocação garante que haverá um fornecimento de bens a serem alocados! Por exemplo, uma vez que distribuímos o bem por meio de uma loteria, por que devemos esperar que mais do bem virá no futuro?

O caso contra as leis que proíbem a “fraude” de preços torna este ponto claro em um contexto mais específico. Conforme observado anteriormente, uma vantagem de permitir que os preços aumentem durante uma emergência, como um furacão, é que isso força as pessoas a usar o fornecimento limitado do bem apenas para seus propósitos mais importantes.

Mas há uma segunda vantagem em deixar o preço subir. O preço mais alto fornece um sinal e incentivo para outros fornecedores moverem mais do bem para o local onde o furacão atingiu. Com o tempo, isso não apenas traz mais bens a serem comprados no curto prazo, como também faz o preço cair das alturas temporárias causadas pela emergência.

Nenhuma outra maneira de alocar a oferta limitada de bens após o furacão pode fazer isso. A lição que aprendemos com a alta dos preços em tempos de emergência é apenas uma aplicação de um ponto mais geral sobre a alocação por preço.

Muitas vezes é difícil responder quando os críticos dos mercados reclamam sobre o que consideram a injustiça da alocação por preço, especialmente com coisas como assistência médica. É verdade que torna mais fácil para os ricos obterem coisas, pelo menos a curto prazo.

Inovação

Mas essa imperfeição deve ser ponderada contra as vantagens substanciais associadas à alocação de preços. Em primeiro lugar, à maneira como os preços fornecem o sinal e o incentivo necessários para produzir bens e serviços. E ainda às inovações que caracterizam as economias de mercado.

Todo esse aumento na produção e todas essas inovações funcionam para o benefício de todos. Mas, especialmente dos menos abastados, que viram o custo de todos os tipos de “necessidades”, incluindo cuidados de saúde, cair nas últimas gerações. E essa queda nos preços tornou mais coisas acessíveis a mais pessoas de maneiras que os sistemas alternativos não fizeram.

Embora a disposição e a capacidade de pagar possam parecer injustas a qualquer momento, a alocação por preço é o único método disponível para garantir um fornecimento contínuo de bens e serviços melhores e mais baratos para mais pessoas ao longo do tempo. E isso torna os mercados e a alocação por preço mais justos e morais do que qualquer uma das alternativas.

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Steven Horwitz

Por:

Steven Horwitz é economista austríaco e Editor de Economia no Lib​er​tar​i​an​ism​.org

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