Afinal, como podemos vender a Liberdade para as pessoas?

Nos últimos anos muito tem se falado sobre Liberdade no Brasil. A falência de um estado perdulário deixou como legado a recessão, a inflação e o desemprego. Desesperados, muitos brasileiros foram pesquisar as causas para compreender os erros, e esse fenômeno impulsionou uma espécie de renascimento da liberdade em nosso país. Foi nesse contexto que se criaram centenas de grupos de estudos, publicaram-se livros de ciência política que se tornaram best-sellers, diversas organizações foram fundadas inspiradas no bem sucedido Instituto de Estudos Empresariais. Tudo com o propósito de formar e capacitar jovens estudantes, empreendedores e lideranças.

Esse movimento foi possibilitado pela internet e, em alguns momentos, ganhou as ruas — contribuindo até para impeachment de presidente. O impacto disso foi verificado, até mesmo, em algumas universidades, a ponto de grupos liberais vencerem eleições para DCEs. A esquerda perdeu o monopólio que deteve por décadas em alguns espaços, inclusive nas ruas.

A Janela de Overton, que mede as possibilidades políticas, está mudando e se tornando mais amigável à liberdade. Contudo, muitos liberais se perguntam como vender essas ideias para pessoas de ideologias, classes sociais e nível de instrução diferentes — algo essencial para acelerar este processo.

Não é tarefa fácil, já que os defensores da liberdade costumam ser atacados tanto pela Esquerda Estatizante quanto pela Direita Autoritária aqui no Brasil. Compreender como vender melhor essa ideia é fundamental para dar efetividade em nossa busca por um país mais livre e próspero. Espero transmitir nos próximos parágrafos algumas contribuições para isso.

A ideologia como um produto: afinal, o que é a Liberdade?

Antes de tudo, é preciso enxergar a Liberdade como um produto cujos clientes ainda não o conhecem. Da mesma forma que em sua vida profissional, você precisa entender da sua área de negócio para vendê-lo a outras pessoas, é preciso compreender o que é a Liberdade para divulgar e transmitir essas ideias a fim de fazer outros indivíduos a abraçarem.

Isso, porém, não é fácil. Em 1864 o ex-presidente norte-americano Abraham Lincoln discursou na cidade de Baltimore sobre as dificuldades de se definir o que é a “Liberdade” para então poder defendê-la com vigor.

Já o historiador inglês Lord Acton deixou como lição que a Liberdade se refere à segurança de que todo homem terá proteção para fazer o que acredita ser sua obrigação, contra a influência da autoridade e das maiorias, costumes e opiniões.

Por fim, o professor Italiano Bruno Leoni evidenciou esse obstáculo ao mostrar que não se pode apontar um objeto material e dizer: “isto é a Liberdade”. Não podemos defini-la da mesma maneira como fazemos com um objeto material para o qual todos podem indicar. A definição de liberdade é o que as pessoas em geral dão a essa palavra no uso comum. E, na linguagem cotidiana, ela significa tipos especiais de experiências psicológicas. Essas experiências são diferentes em momentos e lugares distintos e também estão ligadas a conceitos abstratos e palavras técnicas, mas não podem simplesmente ser identificadas com conceitos abstratos.

Liberdade transmite positividade, mas o que é liberdade?

Fato inegável é que Liberdade é uma palavra com conotações positivas. Ninguém usa a expressão “estou livre” com o sentido de que estão sem algo que consideram positivo.

Ninguém diria algo como “estou livre de dinheiro” ou “livre de saúde”, como se fosse algo favorável. Em outras palavras, estar “livre” de algo significa “estar sem alguma coisa negativa”, enquanto, em contrapartida, estar com falta de alguma coisa é estar sem algo positivo. Não à toa que há partidos que dizem defender a liberdade, mesmo quando o resultado da aplicabilidade de suas ideias são o exato oposto delas — como bem demonstrou a história.

Liberdade é uma palavra que, tanto na Europa como na América Latina, designa uma atitude negativa em relação à repressão e coerção. Vale dizer que nós, que gozamos de um pouco de Liberdade, muitas vezes não paramos para pensar sobre como ela é importante. Liberdade nada mais é que a possibilidade de você poder ser quem você é e fazer o que quiser sem coerção.

Pode parecer bobo pensar assim, mas há muitos lugares do mundo em que as pessoas são impedidas de serem elas mesmas ou de perseguirem seus sonhos como bem quiserem.

Liberdades básicas ainda são negligenciadas em todo o mundo, inclusive no Brasil

Há países em que amar uma pessoa pode significar levar chicotadas, ser exilado ou mesmo ser condenado à morte. O século XXI chegou, mas ainda há 4 países do mundo cujas legislações permitem que gays sejam condenados por apedrejamento até a morte pelo simples fato de serem as pessoas que são e quererem viver como tal.

Há regiões do globo em que os indivíduos são proibidos de comercializar uns com os outros. Já em outros há tantos impostos em cima de produtos que vêm de fora que o consumo desses bens e serviços é, na prática, proibitivo. O próprio Brasil é exemplo disso ao possuir a maior barreira fiscal do mundo.

Na Coreia do Norte, as aulas lecionadas são gravadas para controlar o que é transmitido aos alunos. Por lá é proibido falar de coisas como a internet, assistir a filmes de Hollywood e contar histórias.

Há lugares do globo em que é ilegal cantar, vestir-se ou mesmo pensar como quiser.

A China possui tamanho autoritarismo que a liberdade individual se tornou controlada a ponto de o governo decidir quantos filhos você pode ter. Naquele mesmo país, quem decide onde você deve viver e perseguir os seus sonhos é o governo, pois há passaportes internos que impedem a população chinesa de mudar de uma cidade para outra.

E o que seria da arte, não fosse a liberdade para criar? Uma das regras mais vivas de regimes autoritários é a utilização de censura quando uma produção artística contrasta com os interesses de propaganda do governo.

Há lugares em que não se pode manifestar sua própria crença religiosa, ao passo que em outros não há liberdade de empreender e a geração de riqueza é bastante hostil.

Portanto, podemos vender Liberdade com base no oposto, pois a ausência de Liberdade significa o totalitarismo.

Método de venda

Como se pode ver, a Liberdade é o melhor produto que poderia existir, mas, como ensinava meu avô desde criança, de nada adianta uma boa ideia. Também não adianta um bom produto se não souber vendê-lo

Como relatei em meu livro Nada Easy, baseei minha carreira em 3 pilares — e a aplicabilidade de todos eles se encaixa tanto para ser um empreendedor de sucesso quanto para Vender Liberdade.

O primeiro deles é a Curiosidade. Se atualize e estude. Parafraseando o escritor George Orwell, há toda uma aldeia global à sua disposição para você utilizar na sua formação. Todos precisam de formação, mas ela não precisa — necessariamente — ser clássica e formal. Se quer entender um pouco de economia, não precisa ingressar em uma graduação, por exemplo.

Sou inconformado com o fato de que a média de leitura no Brasil é de menos de 2 livros e meio por ano. Isso significa que demoramos quase uma década para absorver o conteúdo que um francês ou inglês consome ao longo de um único ano. 

Não precisa ler 10 horas ao dia. O segredo é a regularidade: todos os dias estudar um pouco. Com a internet só não aprende, sob qualquer assunto, quem não quer ou quem é preguiçoso. Quanto mais ler, mais argumentos terá para vender Liberdade.

Outra premissa importante é a Resiliência. Em um país em que terceirizamos nossas responsabilidades ao estado, com um ensino muitas vezes enviesado, pode ser bastante difícil mudar de ideia. Mas você não precisa vender Liberdade para todo mundo, a todo momento e de imediato. Um dos maiores libertários  norte-americanos, Jeff Tucker, conviveu por três anos com Murray Rothbard até deixar as ideias intervencionistas de lado.

Por fim, é preciso ter Poder de Execução. É fazer acontecer, ter sangue no olho: se planejar e executar. 

A importância do timming na Venda

Para vender Liberdade é preciso acertar o timming. Provavelmente seus amigos não vão querer falar de política quando estiverem comentando sobre a final da Liga dos Campeões. E saber com quem você dialoga para transmitir conhecimento é importante. Não será falando de spread bancário no Brasil que você convencerá alguém a admirar a Liberdade. 

Muitas vezes ficamos presos às ideias, mas é preciso saber ouvir as pessoas. O que o indivíduo acha, o que ele quer, do que discorda, o que odeia. Pergunte. Se as pessoas pensam de determinado jeito, há uma razão de ser, isso está de acordo com as experiências de vida que as levaram a acreditar naquilo e a ter esta visão de mundo. Pressuponha sempre a boa-fé de seu interlocutor. Ouça primeiro, aproxime as pessoas de si, responda depois.

Não é sendo intolerante ou sectário que você convencerá seu interlocutor. Provavelmente não foi assim que você conseguiu ascender profissionalmente, não foi assim que conquistou seu primeiro emprego ou firmou sociedade com alguém. Você nunca deve ter conseguido vender algo a um cliente agindo desta forma, não será assim que conseguirá convencer alguém de que a Liberdade é o que falta para o Brasil decolar. 

A Vitória da Liberdade depende de você também — é nossa responsabilidade individual a eterna vigilância. Por mais que você não consiga convencer imediatamente o seu interlocutor a seguir os caminhos da Liberdade, a tentativa já será uma grande contribuição para a causa. E lembre-se sempre: “Feito é melhor que Perfeito”.

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Tallis Gomes

Por:

Fundador do Easy Taxi e da Singu. Em 2017, foi considerado pela Revista MIT Technology Review como um dos jovens mais inovadores do mundo.

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