A trajetória de Roberto Campos, um ícone do liberalismo brasileiro

Roberto de Oliveira Campos é considerado um dos maiores ícones do século XX do liberalismo brasileiro. Nascido em abril de 1917, em Cuiabá, no Mato Grosso, em sua carreira foi economista, professor, escritor, diplomata e político. A trajetória foi marcada por diversos momentos-chave que não apenas foram decisivos em sua vida, mas nos rumos do próprio país em virtude de sua influência.

Aos olhos de hoje, muitas de suas ações podem soar como controversas, mas trazem lições importantes aos defensores da liberdade contemporâneos sobre quão desafiador pode ser a defesa da liberdade.

A esperança liberal de Roberto Campos - Instituto Liberal

O socialismo na juventude de Roberto Campos

A despeito de ter abraçado o liberalismo, Campos iniciou sua trajetória política do outro lado do quadrante político: o socialismo. Em suas próprias palavras:

“Em minha juventude também fui socialista. Acreditava no poder do estado para reformar o mundo, se não criá-lo de novo. Cheguei mesmo, em vista de meu ímpeto nas Nações Unidas, ímpeto crítico contra as nações lideres, a ser chamado de comunista pelo ilustre ministro Oswaldo Aranha”.

Roberto Campos abraça o capitalismo

A formação acadêmica original de Campos foi na teologia e na filosofia. A transição do socialismo ao capitalismo liberal aconteceu quando ele trabalhou no Itamaraty e atuou nos Estados Unidos. Lá, teve a oportunidade de fazer uma pós-graduação em Economia pela George Washington University. Após seu tempo nos EUA, passou a ser um ativista pela economia de mercado, que, em suas palavras, “é uma democracia permanente em que cada cidadão vota diariamente, enquanto na vida politica ele vota raramente”.

Após sua atuação nas Nações Unidas, voltou ao Brasil, onde trabalhou por diversas vezes como assessor e membro de equipes econômicas de diversos governos, sempre buscando atacar o famigerado capitalismo de estado brasileiro e iluminar o caminho para o capitalismo liberal.

Posteriormente, se tornou grande admirador do trabalho do economista austríaco Friedrich Hayek.

Atuação de Roberto Campos como embaixador

Roberto Campos atuou por duas vezes como embaixador do Brasil. Primeiramente no governo João Goulart em Washington, e posteriormente como embaixador em Londres no governo de Ernesto Geisel. Em Washington, foi muito atuante ao tentar uma aproximação do Brasil com o governo de John Kennedy, o que facilitou em primeiro momento o acesso do Brasil à créditos de origem internacional.

Com o propósito de acalmar os ânimos nas relações internacionais e acabar com as especulações ideológicas a respeito de João Goulart que circulavam por Washington, foi o responsável por organizar um jantar entre John Kennedy e o então presidente da República.

Durante sua estadia em Londres, enraizou ainda mais suas crenças quanto ao liberalismo econômico ao observar os resultados do gigantismo estatal brasileiro e compará-los aos programas de governo de Margaret Thatcher no Reino Unido.

Roberto Campos: uma especial atenção – Crônicas Cariocas

Ainda em Londres, participou da banca de doutoramento em Economia na Universidade de York, do ex-presidente de Portugal Dr. Aníbal Cavaco Silva.

Influência em governos diferentes no século XX

Roberto Campos assessorou Getúlio Vargas na elaboração do projeto de lei que criou a Petrobras. Entretanto, no projeto original o propósito era o de criar uma empresa de exploração de petróleo com participação estrangeira, sem, portanto, haver um monopólio de caráter estatal. A possibilidade de investimento estrangeiro, contudo, foi retirada no projeto aprovado pelo Congresso Nacional. Anos mais tarde, começoua chamar a empresa de Petrossauro, afirmando que se a Petrobras fosse eficiente, “não precisaria de monopólio. E que se precisasse, não o mereceria”.

O liberal planejador | Eu & | Valor Econômico

Por ser favorável ao capital estrangeiro em um período em que essa defesa era considerada palavrão, Campos era chamado pejorativamente de “entreguista”, recebendo o apelido de “Bobby Fields” (Bob, abreviação de Roberto, e Fields significa Campos, em inglês), em alusão à ideia de que ele queria beneficiar empresas estrangeiras.

Também no governo Vargas, foi um dos criadores do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE), atual BNDES (posteriormente, foi incluído o Social ao final). A instituição buscava suprir a falta de crédito observada no país à época, considerada uma grande barreira para o crescimento e para o desenvolvimento.

Ambas as iniciativas são exemplos de abertura de “portas do inferno de Dante”, em que após a criação bem intencionada”, são criadas oportunidades para malefícios.

O intelectual atuou também como coordenador de trabalho no plano de metas de Juscelino Kubitschek, em que buscou influenciá-lo a combater o déficit público e equilibrar as contas externas a partir de uma reforma cambial, mas ambas as propostas foram renegadas pelo então presidente.

Foi o Ministro do Planejamento do governo Castelo Branco, em que, junto a Octavio Gouveia de Bulhões, foi responsável pela modernização do estado brasileiro, a instituição do Programa de Ação Econômica do Governo (PAEG), pelo controle da inflação, a liberalização da lei de remessas de lucros e a criação do Banco Central do Brasil, instituição que foi o primeiro presidente, desenhada originalmente com autonomia.

Posteriormente, auxiliaria o presidente Jânio Quadros nas tratativas com credores internacionais, com foco nos credores europeus.

Atuação como parlamentar

Congresso relembra 105 anos de nascimento de Roberto Campos em sessão  solene — Senado Notícias

Campos foi parlamentar entre 1983 e 1999, inicialmente como Senador por Mato Grosso (até 1990) e posteriormente por dois mandatos de deputado federal pelo Rio de Janeiro. No auge do plano Cruzado, durante o governo Sarney, foi uma das poucas vozes críticas ao controle de preços imposto no governo.

Durante a Assembleia Nacional Constituinte de 1988, sentia como se fosse o único parlamentar a defender a economia de mercado e as ideias do liberalismo econômico.

Não teve nenhuma de suas ideias aprovadas quando deputado e senador. Apresentou quinze projetos de leis no Senado, todos rejeitados, entre os quais estão projetos propondo:

  • Livre negociação salarial no setor privado e estabelecimento de medidas de flexibilização do mercado de trabalho para evitar o desemprego;
  • Privatização ou extinção de empresas estatais deficitárias;
  • Criação de contratos de trabalho simplificados para facilitar novos empregos.

Terminou seu mandato reclamando da solidão liberal em Brasília, e dizendo que o discurso era um retrospecto melancólico ao seu tempo como parlamentar:

“Minha melancolia não vem de saudades antecipadas de Brasília, cidade que considero um Bazar de Ilusões e uma usina de déficits, e sim do reconhecimento do fracasso de toda uma geração – a minha geração – em lançar o Brasil em uma trajetória de desenvolvimento sustentado. Continuamos longe demais da riqueza atingível e perto demais da pobreza corrigível. A melancolia vem também da constatação de nossa insuportável ‘mesmice’. Quando cheguei ao congresso em 1983, eleito senador por Mato Grosso, os temas cadentes do momento eram moratória e recessão. Dezesseis anos depois, me despeço de dois mandatos como deputado federal pelo Rio de Janeiro e os temas voltam a ser recessão e crise cambial. Isso mostra que o Brasil, conquanto capaz de saltos de desenvolvimento, não aprendeu a tecnologia do desenvolvimento sustentado. É um saltador de saltos curtos, e não um corredor de resistência.”

Roberto Campos na Academia Brasileira de Letras

Roberto Campos ainda se tornaria membro da Academia Brasileira de Letras em 1999 após uma conturbada eleição. Sua candidatura sofreu pesada oposição de membros como o economista Celso Furtado e dramaturgo Ariano Suassuna, mas foi eleito por 20 votos a 16. Em 28 de outubro, realizou um discurso que destacou o contraste ideológico entre os membros da cadeira a que ele foi eleito, suas perspectivas para o futuro do Brasil e do mundo, e criticou o que ele considerou uma “batalha ideológica”.

Considerações finais

No início do século XXI, Roberto Campos ainda era muito atuante e verbal contra as violações à liberdade e diversas intervenções econômicas do estado brasileiro sobre a economia de mercado mercado. Faleceu em 2001, na cidade do Rio de Janeiro, aos 84 anos, vítima de ataque cardíaco.

Apesar de não estar mais entre nós, sua aura de defesa do liberalismo e combate ao intervencionismo econômico continua a pairar sobre o Brasil, esperando que mais indivíduos como ele assumam seu lugar e tomem para si as dores desse debate que há tanto tempo impede o crescimento do Brasil e nos limita a migalhas e voos de galinha.

Seu legado continua a inspirar o movimento liberal que o sucedeu, sempre relembrando a alcunha que lhe foi dada no passado, e que deu nome à sua autobiografia: “A lanterna na popa“. Ele continua iluminando o caminho para os liberais de hoje e inspirando aqueles que virão amanhã. Fica o desejo de que a lanterna na popa continue a guiar os defensores da liberdade, sendo sempre uma lembrança de que esta batalha não é de nenhuma maneira fácil, mas é uma batalha pela qual devemos nos impor.

Este artigo foi editado de uma publicação originária no Instituto Liberal, e é de autoria do Liberalismo Brazuca.

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