O Brasil é pobre porque a produtividade é baixa

Produtividade, produtividade, produtividade…Muitos falam, especialmente os “coachs” da vida, mas poucos a explicam. O que é? Do ponto de vista econômico, produtividade é um conceito que estabelece a relação entre o que é produzido com os meios utilizados para tal, como mão-de-obra, materiais, infraestrutura, dentre outros exemplos. Ou seja, a produtividade está relacionada com a ideia de eficiência, produzir mais com menos — sob o ponto de vista de um país, uma empresa ou até mesmo de um indivíduo. Em suma, produtividade é a capacidade de produzir muito em pouco tempo.  

A produtividade é crucial para o desenvolvimento de um país. Pense comigo: quando um país tem trabalhadores, empresas e governos mais eficientes, o resultado acaba sendo uma maior produção de riqueza através dos recursos disponíveis, e isso faz com que o Produto Interno Bruto (PIB) cresça. 

Um PIB maior significa que a produção está maior, ou seja, a população está enriquecendo. Um produtor de arroz, por exemplo, ao vender mais seu produto, emprega mais pessoas, compra mais maquinário e consome mais. Toda uma cadeia econômica é beneficiada. Por consequência, o PIB per capita, grau de riqueza da população, aumenta.  

É um ciclo: crescimento da produtividade – aumento do PIB e fortalecimento econômico dos cidadãos. Resultado: todos saem felizes! 

Entendeu? Ainda bem! O problema é que o Brasil ainda está patinando na produtividade, pois parece que não entendeu o quão importante ela é para o desenvolvimento dos brasileiros. Na última década (2011 a 2020), por exemplo, o PIB brasileiro cresceu a uma taxa média de 0,26% ao ano, o pior resultado dos últimos 120 anos.  

Alguma coisa precisa ser feita para que não percamos mais uma década. 

Urgente! 

Produtividade do brasileiro é a mesma há 30 anos 

Segundo estudo do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas publicado em 2020, de 1981 a 2018, a renda per capita do País cresceu 0,9%, enquanto a produtividade avançou apenas 0,4%. Sim, é exatamente isso que você leu. Em um período de quase trinta anos, a produtividade do brasileiro basicamente não cresceu.
Foto: produtividade – Printerest

Segundo estudo do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas publicado em 2020, de 1981 a 2018, a renda per capita do País cresceu 0,9%, enquanto a produtividade avançou apenas 0,4%. Sim, é exatamente isso que você leu. Em um período de quase trinta anos, a produtividade do brasileiro basicamente não cresceu. 

Para que tenhamos ideia do problema que é ter uma produtividade baixa, vejamos: o trabalhador do Brasil leva uma hora para fazer o mesmo produto ou serviço que um norte-americano consegue realizar em 15 minutos e um alemão ou coreano em 20 minutos.  

Em termos de riqueza, de acordo com os dados de 2019 do professor José Pastore, presidente do Conselho de Emprego e Relações do Trabalho da Fecomercio-SP, o brasileiro produz em uma hora o equivalente a US$ 16,75, valor que corresponde apenas a 25% do que é produzido nos EUA (US$ 67) no mesmo período de tempo. Comparado a outros países, como Noruega (US$ 75), Luxemburgo (US$ 73) e Suíça (US$ 70), o desempenho do país é ainda pior. 

Ao analisarmos os números, vemos que o problema da baixa produtividade do brasil é crônico. Há alguns anos, escrevi um artigo explicando o motivo da baixa produção pelo brasileiro. De lá para cá, infelizmente, quase nada mudou. 

Produtividade baixa no Brasil e melhoria a passos de tartaruga 

Em 2015, Mansueto Almeida, um grande economista brasileiro (e atualmente sócio do banco BTG Pactual), me questionou a respeito de uma reportagem de O Globo a respeito da baixa produtividade do trabalho no Brasil. A chamada da matéria dizia “Trabalhador brasileiro produz menos que o da Venezuela”, a dúvida era se nossa produtividade é realmente tão baixa. Para responder o Mansueto fiz algumas figuras mostrando que nossa produtividade é de fato muito baixa. Depois, já no final da tarde, vi que o Rodrigo Constantino, comentarista político e economista, também ficou impressionado e comentou o texto. Dado o interesse que tema desperta resolvi escrever este post com as figuras que fiz e mais algumas outras que ajudam a entender que nossa produtividade é de fato muito baixa. 

Como a reportagem falava da América Latina fiz a figura comparando a produtividade do trabalho no Brasil com a de outros países da América do Sul e o México. Para elaborar a figura usei os dados da Penn World Table versão 8.0 (PWT8.0), a base de dados mais usada para comparações internacionais, escolhi o ano de 2011 por ser o mais recente, na época, que consta na base de dados. Selecionei um grupo com os países da América do Sul (exceto as antigas Guianas) e o México. A figura abaixo mostra a produtividade dos países deste grupo. Repare que nossa produtividade só é maior do que a do Paraguai e a da Bolívia. 

Nossa produtividade do trabalho é baixa mesmo quando consideramos nosso PIB per capita. A figura abaixo mostra a produtividade do trabalho e o PIB per capita dos países da figura acima. Não leve muito a sério a linha de regressão, ela foi colocada apenas para ajudar na visualização, apenas repare que nossa produtividade do trabalho é menor do que a de países com PIB per capita próximos ao nosso. Não está convencido? Faz bem, eu também não ficaria.
Produtividade do Trabalho em países da América Latina

Nossa produtividade do trabalho é baixa mesmo quando consideramos nosso PIB per capita. A figura abaixo mostra a produtividade do trabalho e o PIB per capita dos países da figura acima. Não leve muito a sério a linha de regressão, ela foi colocada apenas para ajudar na visualização, apenas repare que nossa produtividade do trabalho é menor do que a de países com PIB per capita próximos ao nosso. Não está convencido? Faz bem, eu também não ficaria. 

Para ilustrar melhor o argumento voltei a PWT8.0 e selecionei todos os países com PIB per capita próximo ao do Brasil, especificamente peguei todos os países com PIB per capita 20% ou 20% maior que o do Brasil. A figura abaixo mostra a produtividade do trabalho nestes países, mais uma vez ficamos na rabeira. Apenas na Tailândia e na China a produtividade do trabalho é menor que a nossa.

Para ilustrar melhor o argumento voltei a PWT8.0 e selecionei todos os países com PIB per capita próximo ao do Brasil, especificamente peguei todos os países com PIB per capita 20% ou 20% maior que o do Brasil. A figura abaixo mostra a produtividade do trabalho nestes países, mais uma vez ficamos na rabeira. Apenas na Tailândia e na China a produtividade do trabalho é menor que a nossa. 

Ainda assim não fiquei satisfeito, lembrei que há alguns meses alguns colegas de profissão disseram que o grupo de comparação do Brasil eram os países ricos. Então fui comparar com nossa produtividade com a dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento (OCDE), a figura abaixo mostra o resultado, melhor não dizer nada.

Ainda assim não fiquei satisfeito, lembrei que há alguns meses alguns colegas de profissão disseram que o grupo de comparação do Brasil eram os países ricos. Então fui comparar com nossa produtividade com a dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento (OCDE), a figura abaixo mostra o resultado, melhor não dizer nada. 

Não perdi a esperança, lembrei de uma palestra onde foi dito que grupos de comparação devem levar em conta o estoque de capital. Como capital é uma variável de medição complicada peguei os países com estoque de capital entre metade e uma vez e meia o estoque de capital brasileiro. A figura abaixo mostra a produtividade do trabalho neste grupo de países, graças a Indonésia escapamos de ficar novamente em último lugar. 

Daí lembrei que não se compara países pelo estoque de capital, o adequado é comparar pela relação capital trabalho (falei sobre esta questão, sobre comparar o Brasil com países da América Latina e coisas do tipo aqui). A teoria diz que a produtividade do trabalho depende, entre outras coisas, da relação capital trabalho. Escolhi os países com relação capital trabalho entre metade e uma vez e meia a relação capital trabalho no Brasil. O resultado não foi tão desastroso quanto o das outras figuras, mas também não ficamos bem na foto. De um total de 38 países ficamos na 23º posição. 

Acima fiz algumas comparações entre a produtividade do trabalho no Brasil e a produtividade do trabalho em outros países, usei diversos critérios para escolher o grupo de comparação (regional/cultural, PIB per capita, OCDE, estoque de capital e relação capital trabalho), em todos os critérios nos saímos mal. Podemos tentar definir outros grupos até que encontremos um grupo onde fiquemos bem na foto (em um grupo com países com relação capital trabalho menor que um quarto da brasileira ficamos em segunda lugar) ou podemos encarar a realidade e procurar soluções para o crescimento da produtividade. 

Solução

Ainda que todos os dados mostrem que o Brasil é péssimo em produtividade, Isso não quer dizer que o brasileiro seja um trabalhador pior do que os outros. É preciso melhorar as condições, como educação dos funcionários e equipamentos nas empresas. O aprimoramento da educação em todos os níveis (inclusive técnico) e a modernização do capital físico (máquinas e equipamentos das empresas), além do investimento educação, infraestrutura e tecnologia podem ser bons caminhos para o aumento da produtividade de um país. 

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Roberto Ellery

Por:

Professor do Departamento de Economia da Universidade de Brasília (Unb)

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