A pandemia do Coronavírus é culpa do governo chinês

Desde que o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL – SP) mencionou no twitter, que a China era a grande culpada pela pandemia do novo Coronavírus, os ânimos se exaltaram entre seus apoiadores e opositores.

Até o embaixador da China no Brasil, Yang Wanming, entrou na discussão, exigindo um pedido de desculpas ao povo chinês, o que poderia ter gerado uma crise diplomática entre os dois países.

Em contrapartida, muitos apoiadores do deputado passaram a chamar o agente causador da doença de “vírus chinês”.

A alegação do deputado é de que a ditadura chinesa “preferiu esconder algo grave”, mas que “salvaria muitas vidas”, referindo-se aos primeiros casos da COVID-19.

Em essência, essa tese está correta. Inúmeros veículos renomados da mídia tradicional, assim como da mídia alternativa, atestam isso. Contudo, muitos ainda consideram a teoria conspiratória.

No entanto, uma conspiração não é necessariamente uma mentira.

Essa discussão é importante porque cada dia perdido na contenção do vírus acarreta milhares de infectados no futuro.

Um estudo estimou que, caso o governo chinês tivesse agido duas semanas antes, o número de casos seria 86% menor e o Coronavírus poderia ter sido contido localmente.

Então, se o governo realmente escondeu a notícia de todos — inclusive de sua própria população —, contribuiu para todo o caos que existe hoje.

Vale ressaltar também que reconhecer a importância deste questionamento não significa concordar que tenha sido frutífero, por parte do deputado, levantá-lo.

Visto que vários jornais já começavam a veicular a notícia, Bolsonaro poderia ter evitado o risco de criar problemas diplomáticos.

Igualmente improdutiva é a expressão “vírus chinês”, já que a população chinesa foi deixada no escuro e, portanto, nenhuma culpa pode ser atribuída a eles.

No máximo, poderíamos usar a expressão “vírus do Partido Comunista Chinês”, como veremos adiante.

Primeiros contaminados pelo Coronavírus

O primeiro infectado pelo Coronavírus é um mistério até hoje. Embora existam estudos e estimativas de quem seja o paciente-zero e de quando houve a infecção, não se sabe ao certo.

Segundo autoridades do governo chinês, o primeiro caso da COVID-19 aconteceu no dia 17 de novembro.

Já a revista científica The Lancet publicou um estudo que data o primeiro caso no dia 1º de dezembro. E, o The Wall Street Journal informou que a primeira infecção foi no dia 10 de dezembro.

Ao longo do mês, acumularam-se pacientes com sintomas semelhantes, mas nenhum diagnóstico exato podia ser feito. A seriedade da nova doença só foi comprovada ao fim de dezembro.

No dia 26, um laboratório de Wuhan confirmou que o vírus era bem semelhante ao SARS de 2002. A essa altura, essas suspeitas já circulavam na comunidade médica.

Inclusive, alguns doutores alertaram seus superiores sobre o Coronavírus, mas foram reprimidos e proibidos de compartilhar informações pelo governo chinês.

No dia 31, os oficiais de saúde de Wuhan confirmaram 27 casos da doença e anunciaram à Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre uma “doença misteriosa que causa pneumonia”.

As autoridades chinesas já sabiam que se tratava de um Coronavírus semelhante ao SARS, mas optaram por esconder essa informação.

Na declaração, a Comissão Nacional da Saúde da China afirmou que “a investigação não encontrou, até agora, nenhuma infecção na equipe médica” e que “a doença é evitável e controlável”.

A falta da liberdade de expressão sob o governo chinês

No dia seguinte, o Departamento de Segurança Pública de Wuhan levou para interrogatório oito médicos que postaram informações no WeChat.

Além de terem sido reprimidos por “espalhar rumores”, a Agência de Notícias Xinhua alertou os internautas com a seguinte mensagem: “não fabriquem rumores, não espalhem rumores e não acreditem em rumores”.

Nesse dia, laboratórios receberam ordens da Comissão de Saúde da Província de Hubei para cessarem os testes das amostras virais e destruírem aquelas que já haviam sido utilizadas.

Por mais absurdo que pareça, o que as autoridades do país fizeram para conter informações quanto à pandemia e às características do Coronavírus está em perfeita consonância com o histórico do governo chinês.

Como o governo chinês reprimiu a imprensa

Segundo a Repórteres Sem Fronteiras (RSF), a China ocupa a posição 177 do Índice de Liberdade de Imprensa de 2019, de um total de 180 países.

A RSF relata que “os meios de comunicação chineses públicos e privados estão sob controle estrito do Partido Comunista, enquanto o governo multiplica os obstáculos ao trabalho de campo de correspondentes estrangeiros”.

De fato, o Ministério de Relações Exteriores da China expulsou os jornalistas americanos do New York Times, do Wall Street Journal e do Washington Post no mês de março.

Em nota, o Ministério disse: “o que rejeitamos é o viés ideológico contra a China, fake news em nome da liberdade de imprensa e violações da ética no jornalismo”.

Da mesma forma, uma declaração do Clube Chinês dos Correspondentes Estrangeiros apontou que “membros correspondentes e seus colegas na China estão sofrendo com cada vez mais perseguição, fiscalização e intimidação das autoridades”.

Ainda segundo o documento, a expulsão dos jornalistas foi apenas a mais recente dessas medidas repressivas.

Porém, as represálias não pararam por aí. No dia 5 de janeiro, uma equipe médica conseguiu sequenciar o genoma do Coronavírus, mas as autoridades impediram que ele fosse noticiado.

Após a o governo chinês confirmar sua primeira morte pela doença no dia 11, os médicos vazaram a informação e o hospital em que trabalhavam foi fechado em resposta à sua desobediência.

Além disso, sabe-se que o presidente Xi Jinping foi informado sobre a doença no dia 7 de janeiro, quando ocorreu uma reunião do Partido Comunista Chinês.

A despeito disso, ele só mencionou o assunto em um pronunciamento à nação no dia 20 de janeiro.

A reação ao vírus nos revela a natureza do estado

Torna-se óbvio, portanto, o envolvimento do estado chinês na crise de saúde pública que assombra o mundo.

A censura acontece mesmo após o país ter experimentado uma relativa abertura política desde 1976, quando o ditador Mao Tsé Tung faleceu.

O culto do regime à estabilidade é algo que prejudica profundamente o povo chinês, mas já há sinais de fraqueza na cortina de ferro.

Engana-se quem acredita que isso só acontece em uma ditadura, afinal, isso é a própria natureza do estado. Legislar, proibir, esconder, espionar. Felizmente, essa verdade está sendo revelada mundo afora.

Em Israel, aliados do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu proibiram o Congresso de se reunir e o país está sendo governado por meio de seus decretos.

Além disso, a inteligência israelense está usando informações de localização, obtidas dos celulares dos cidadãos, para rastrear o caminho feito por infectados e identificar aqueles que devem ficar em quarentena.

Essas informações eram obtidas secretamente para combate ao terrorismo e, agora, transformam o país inteiro em um laboratório.

Na Hungria, foi declarado crime o compartilhamento de notícias que interfiram na “bem-sucedida proteção” do público ou que sejam alarmistas e agitem o povo. Está também autorizada a prisão de jornalistas que compartilhem “fake news”, por até cinco anos.

A reação do Brasil

O Brasil, é claro, não poderia ficar para trás. Casos de confisco a farmácias rechearam os noticiários.

Em Curitiba, o prefeito Rafael Greca incentivou os estabelecimentos a venderem álcool em gel, mas disse que vai “confiscar o estoque de quem estiver pondo sobrepreço”.

Já o governador da Bahia, Rui Costa, autorizou o confisco de máscaras hospitalares nas distribuidoras.

Em São Roque (SP), a prefeitura roubou sete respiradores de um hospital particular, após tentativas frustradas de negociar com a instituição.

O prefeito de Recife, Geraldo Júlio (PSB), conseguiu aprovar um projeto que antecipa a cobrança do IPTU de 2021. Mas, pelo menos ele deu um desconto de 15%, não é mesmo?

Mas o caso que recebeu mais atenção é de João Dória (PSDB). Ele anunciou um acordo com as operadoras de celular para compartilhamento de informações de localização para monitorar aqueles que estejam desrespeitando a quarentena.

O governador de São Paulo ainda ameaçou os cidadãos de prisão se o isolamento social não aumentar.

A partir dessas ações, fica evidente que a escalada autoritária percebida no mundo inteiro não está condicionada ao modelo de governo de cada país.

Autoritarismo é o próprio desenrolar do estado: a sua consequência lógica, que depende apenas de vontade política para tal.

Em um passe de mágica, ou em uma “situação de emergência”, os estados expandem-se para surrupiar as liberdades daqueles sob seu controle.

Resta-nos apenas aprender a lição e quem sabe, na próxima crise, não veremos tanta espoliação como vemos hoje.

Matheus Fialho Vieira trabalha com TI Industrial em Belo Horizonte.

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Head de Conteúdo do Ideias Radicais.

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