Quem é a mulher mais odiada dos EUA? A história de Madalyn Murray O’Hair, que defendeu a liberdade de ser ateu

“A religião é uma questão privada e somente deveria ser celebrada dentro de casa ou nas igrejas”.

Esta é a frase que colocou uma mulher no centro do debate público nos Estados Unidos (EUA), país cuja sociedade é profundamente religiosa.

Madalyn Murray O’Hair é considerada “a mulher mais odiada” no país por contrastar com uma população majoritariamente cristã — e muito mais praticamente do que no Brasil, por exemplo.

Isso porque três séculos após John Locke, o pai do liberalismo, defender a divisão entre o estado e a religião, essa separação ainda não era uma realidade nos Estados Unidos. Assim, ela entrou com dezenas de processos em tribunais federais para garantir que houvesse uma separação entre o estado e a religião nas instituições públicas.

O’Hair também questionou a realização de cerimônias religiosas semanais na Casa Branca, contestou a inclusão da frase “In god we trust” (“Em Deus nós confiamos”) nas moedas e notas de dólar, e conseguiu que a Constituição do Estado do Texas eliminasse a exigência de “acreditar em Deus” para ocupar cargos públicos de confiança.

Além disso, batalhou na Justiça para que celebrações de Natal com dinheiro dos pagadores de impostos fossem banidos de todas as instituições públicas.

A trajetória de Madalyn Murray O’Hair

Madalyn Mays (nome de solteira) nasceu em 13 de abril de 1919 em Pittsburgh, na Pensilvânia. Seu pai era presbiteriano e sua mãe, luterana.

Durante a Segunda Guerra Mundial, ela se alistou ao Corpo de Mulheres Auxiliar do Exército e até o fim do conflito trabalhou como criptografista na Itália.

Ainda casada com seu primeiro marido, começou um relacionamento extraconjugal com um homem também casado de sobrenome Murray. Com ele, teve seu primeiro filho – e adotou seu sobrenome.

Como Murray não quis deixar a esposa, ela se mudou, em 1954, para a casa da mãe em Baltimore, no Estado de Maryland. Lá, teve seu segundo filho com outro homem.

Madalyn estudou Direito, mas teve dificuldade de se manter em um emprego estável, devido às suas diferenças com os empregadores e a uma personalidade explosiva, descrita por alguns como “agressiva” e “desagradável”.

Em 1960, quando seu filho mais novo estudava em uma escola pública em Baltimore, ela apresentou uma denúncia contra o sistema escolar da cidade por suas práticas obrigatórias de oração e leitura da Bíblia. O caso ficou conhecido como Murray versus Curlett.

O filho de 14 anos figurava na ação como requerente e, três anos depois de uma batalha judicial amplamente televisionada, a Suprema Corte dos Estados Unidos decidiu a seu favor, declarando a prática inconstitucional nas escolas de Maryland:

“O Estado não tem competência para promover crenças religiosas”, decidiu a Corte.

O desfecho do processo representou uma vitória para ela, mas a essa altura ela já era muito odiada no país. Isso porque, além da repercussão que o caso teve, Murray aparecia com frequência em programas de televisão defendendo o ateísmo e chamando a religião de um ato de “ignorância” e “superstição”.

Sua família foi tão perseguida, principalmente em Baltimore, que ela decidiu se mudar para o Havaí com os filhos. Lá, ela se casou com um fuzileiro naval chamado O’Hair e também adotou seu sobrenome. 

Militância ateísta

Com a notoriedade do caso, ela fundou em 1963 a Associação de Ateus dos Estados Unidos, organização sem fins lucrativos que levou mais de 20 casos diferentes a tribunais federais na tentativa de destacar a separação entre a igreja e o estado.

Crianças rezando em escola

De acordo com a Primeira Emenda da Constituição dos Estados Unidos, é considerado inconstitucional proibir a prática de qualquer religião, assim como limitar a liberdade de expressão, de imprensa e o direito à reunião pacífica.

No entanto, esta emenda também especifica que nenhuma religião deve ser privilegiada em detrimento de outra. Como em muitas outras escolas públicas, financiadas pelo governo com dinheiro dos pagadores de impostos, o filho mais novo de Murray O’Hair de ler diariamente dez versículos da Bíblia antes do início das aulas e participar de uma sessão de oração.

Após a ação que levou a Suprema Corte a proibir essas atividades, por serem consideradas uma violação dos direitos da Primeira Emenda, Murray O’Hair continuou seu ativismo.

Entrevista a Madalyn Murray

Murray O’Hair em entrevista. 

A ativista contestou a celebração do Natal em instituições públicas, como escolas, argumentando que, por ser um feriado cristão, promoviam uma religião acima de outras e constituía uma forma de doutrinação.

“Imaginem os judeus dizendo que apenas o Hanukkah será celebrado em escolas públicas. Os cristãos certamente protestariam”, afirmou Murray O’Hair em rede nacional de televisão.

“A religião é algo que não tem lugar em instituições financiadas com dinheiro público. Vamos ao colégio para aprender o que fazer em nossa cultura e como ganhar a vida.”

Embora Murray O’Hair não tenha ganhado a ação, a Associação de Ateus norte-americana continua seu ativismo para acabar com a celebração até atualmente. 

Morte de Madalyn Murray O’Hair

A morte de Murray O’Hair não poderia ter sido mais trágica.

Em agosto de 1995, ela desapareceu junto ao filho mais novo e a neta, juntamente com US$ 600 mil da conta bancária da associação.

Na época, especulou-se que a família havia fugido com o dinheiro.

A rejeição de Madalyn era tamanha que os primeiros alertas à polícia, feitos por colegas de trabalho e conhecidos, foram ignorados.

Porém, as investigações posteriores do FBI descobriram que eles tinham sido sequestrados e assassinados, como parte de um plano de vingança pessoal de um ex-funcionário, que contou com a colaboração de dois cúmplices.

David Waters tinha sido demitido por roubar dinheiro da associação e foi exposto por Murray O’Hair em um artigo que ela escreveu para a revista da fundação.

Waters se recusou a revelar onde havia enterrado os corpos – o que permaneceu durante anos como um mistério. Somente em 2001, ele concordou em levar as autoridades até um rancho no Texas, onde foram encontrados os três corpos.

Local onde foram encontrados os corpos

Os corpos de Murray O’Hair, seu filho mais novo e sua neta foram encontrados em um rancho no Texas

Apesar de ser considerada “a mulher mais odiada dos EUA”, algumas vitórias judiciais, em especial na Suprema Corte, permitiram a Madalyn Murray O’Hair deixar como legado um Estados Unidos com maior separação entre o estado e a religião.

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