A liberdade precisa de múltiplas dimensões morais

Em última instância, há somente duas forças nesse mundo que fazem a diferença: o poder e a persuasão. Aqueles que amam a liberdade evitam o poder.

Mas para ser persuasivo, você tem de ser capaz de conduzir as pessoas por caminhos diferentes. Para aumentar as chances de atração de pessoas à sua esfera de ação, você deveria aprender a pensar sobre múltiplas dimensões morais na defesa da sociedade livre.

Em outras palavras, se queremos ser mais livres, temos que aprender a falar em diversos idiomas morais. Por quê? Porque as pessoas agem nesses idiomas morais – mesmo os amantes da liberdade.

Realmente, se fôssemos confiar em uma única base moral – digamos, o egoísmo racional – nós seríamos vulneráveis. Para entender o porquê, vamos examinar a posição objetivista de Craig Biddle.

A premissas da coerção mesmo que mínima

1ª Premissa: a iniciação da força é errada porque impede que alguém aja no seu julgamento racional, o instrumento básico de preservação (e desenvolvimento) de sua vida.

Essa premissa pode ser, às vezes, verdadeira, mas é suscetível a ataques como uma ética generalizada. Por exemplo, poucas pessoas levaram a sério a noção que uma alíquota de 20 dólares de Imposto de Renda aplicada à Warren Buffett o privará dos meios de sustentação de sua vida. Se ele tem US$ 1,2 milhão anuais para se sustentar, então Buffett possui muito mais do que necessita para o básico. A 1ª premissa pode, portanto, oferecer uma justificativa ao estatista que deseja apropriar-se da riqueza de Buffett. Creio que esse não seja o nosso desejo, certo?

Agora, se argumentarmos que tributar Buffett desvia o capital que está, de fato, tirando pessoas da pobreza, ficaríamos de fora do escopo do egoísmo racional.

A premissa da felicidade

2ª Premissa: o egoísmo defende que cada indivíduo deveria perseguir os seus valores de vida, nem se sacrificando pelos outros, nem sacrificando os outros para si.

Suponha que exista algo relacionado à felicidade de Buffett ou aos seus valores de vida ligados a suas muitas posses. Poder-se-ia argumentar que tomar uma parte da riqueza de Buffett o privará de tal, e que uma ética egoísta dá primazia a sua felicidade. Existe um insight importante aqui, mas é forte o bastante para se sustentar sozinho?

Mesmo se supormos que o egoísmo racional justifica a conexão entre a felicidade e a riqueza, teríamos que mostrar que tributar Buffett torna-o menos feliz, e que tal consideração era mais importante que algum valor concorrente – por exemplo, manter certas pessoas fora da pobreza extrema.

Importante: tudo isso diz respeito a persuadir os outros. Então, mesmo que os leitores desta publicação achem que a felicidade pessoal dos bilionários é mais importante que a mitigação da pobreza, muitos podem não pensar da mesma forma.

A premissa contra o autosacrifício

3ª Premissa: um código moral relacionado, e até mais amplamente aceito – altruísmo – defende que o padrão de moralidade é o autosacrifício pelos outros.

Agora, existe um número de considerações morais alternativas que competirão com o egoísmo racional, e esses sistemas morais estarão profundamente enraizados nas pessoas. O altruísmo é um deles. A defesa da liberdade deveria renegar esses outros sistemas?

E mais, Craig não estabelece nenhuma distinção entre ética e política aqui. Então, uma ética de autosacrifício (Madre Teresa / Augusto Comte) não se traduz automaticamente em uma política de redistribuição forçada.

Em vez de aceitar a definição objetivista de altruísmo como um dever universal de sacrifício aos outros, suponha que simplesmente reconheçamos que as pessoas podem ter instintos morais de preocupação pelos menos afortunados.

E, realmente, se aceitássemos o egoísmo racional como a única fundação moral de liberdade, nós não seríamos capazes de defender o livre mercado afirmando que o empreendedorismo e os mercados são os agentes mais eficazes na luta contra a pobreza.

Afinal, o egoísmo racional não se sente confortável com o pensamento utilitarista, mas certamente essa abordagem é importante na defesa da liberdade.

A premissa da razão

4ª Premissa: o padrão adequado para se determinar se uma ação ou política ou instituição é boa ou ruim, certa ou errada, consiste nas exigências fatuais da vida individual.

Exigências fatuais?

Então o egoísmo, uma ética na qual cada indivíduo deveria perseguir os valores que servem a sua vida, é justificado pela ideia de que as pessoas devem agir de acordo com suas próprias mentes. E essa justificativa, diz Craig, tem uma base nos fatos – isto é, o que é exigido ao indivíduo para que possa viver. Nós já mostramos que nem todas as iniciativas da força (uma tributação mínima em Buffett, por exemplo) privam as pessoas dos seus meios de sobrevivência de nenhuma forma mais profunda.

É importante destacar que a razão pela qual as pessoas necessitam de valores morais não é meramente para viver. Nós necessitamos de valores morais para que possamos viver em sociedade. A maioria das pessoas deseja viver em paz. Para que possamos conversar com pessoas que desejam uma coexistência pacífica, necessitamos ser capazes de discutir todos os tipos de dimensões morais que funcionam, pelo menos, para minimizar conflitos.

Para isso, uma única fundamentação moral não é suficiente.

Valorize o pluralismo em defesa da liberdade

Essa é a base do meu argumento sobre o que significa viver livre. Não – não a base – mas sim uma “constelação de crenças”. Enquanto interagimos no universo moral de cada indivíduo, frequentemente optando por caminhos diferentes, devemos fazer o nosso melhor para não entrarmos em conflito. E isso requer o entendimento de que as pessoas têm perspectivas diferentes.

Se for nosso projeto conquistar e preservar uma sociedade livre, é aconselhável estarmos preparados a falar em diversas dimensões morais: utilitária, aristotélica, direitos humanos e assim por diante. Por quê? Porque as pessoas – mesmo os amantes da liberdade – têm pontos de partida distintos.

O principal problema com qualquer tentativa de construir uma filosofia política sob uma única fundação é que tal fundação torna-se um alvo fácil: acabe com aquela coluna de sustentação e todo o edifício filosófico desmoronará. Se existe uma constelação ou rede de justificações, essas podem ser mais fortes e resilientes a ataques.

Isso não quer dizer que devamos aceitar todas as dimensões morais, sem objeção. 

Simplesmente admitimos que elas estão aí fora – e motivam pessoas. De outra forma: assuma que todos nós pensamos que a liberdade é algo bom – isto é, pessoalmente a valorizamos, e somos parte de uma comunidade. Essa comunidade será realmente coesa se tornarmos a adesão dependente da aceitação geral de uma única dimensão (fundação) moral?

O fato de que todos nós estejamos lendo esse texto é um ponto a favor do meu argumento. Para expandir e aprofundar nossa comunidade, é conveniente aprender a justificar a liberdade por um grande número de valores – integrando-os. O axioma de uma pessoa pode ser a razão do antagonismo de outra. Se quisermos convencer os outros que a liberdade é o nosso objetivo, devemos convencê-los de que a liberdade permite valores distintos.

Se não o fizermos, o poder da coerção prevalecerá.

Max Borders é editor da revista The Freeman e diretor de conteúdo da Foundantion for Economic Education (FEE). Também é autor do livro Superwealth: Why we should stop worrying about the gap between rich and poor

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