A liberdade de contratar foi cancelada?

A liberdade de contratar foi cancelada?

Naturalmente, essa pergunta te leva a pensar no fenômeno do cancelamento, muito comum nas redes sociais. 

Uma frase mal colocada, algo que deixou de fazer, um comentário aparentemente simples: qualquer atitude tem potencial de gerar o tal do cancelamento no universo da internet. 

O sujeito cancelado recebe críticas severas, comentários ofensivos, perde seguidores, perde parcerias e sua imagem deixa de fazer sentido do ponto de vista comercial, pelo menos por um tempo.

Há ainda casos mais emblemáticos, como o de Gabriela Pugliesi,  influenciadora digital que se reuniu com amigos durante períodos mais restritos da pandemia e teve inúmeros contratos de publicidade rescindidos, com prejuízo avaliado pela Forbes em R$ 3 milhões.

Entretanto, não são só os habitantes naturais das redes sociais, como famosos e influenciadores digitais, que sofrem cancelamento: empresas também são atingidas.

Empresas agora também sofrem cancelamento

Recentemente, a Ável, escritório da XP em Porto Alegre, se tornou alvo de críticas nas redes sociais diante do compartilhamento de uma foto nas redes sociais com seus funcionários, na qual só era possível ver brancos e, em sua maioria homens.

O caso tomou tamanha proporção que entidades sociais moveram processo judicial em face da Ável e da XP pedindo indenizações fixadas em R$ 10 milhões diante do cenário trazido na foto: falta de minorias sociais e étnicas no quadro de colaboradores da empresa. Caso haja uma decisão judicial favorável, será inaugurado um precedente judicial de obrigatoriedade de diversidade dentro do ambiente empresarial.

Assim, pergunto novamente: a liberdade de contratar foi cancelada?

Perceba: esse questionamento não ignora o cenário que a foto revela. Sem dúvidas, a foto quer dizer muito. O ponto de debate é: obrigar uma empresa a ter diversidade é uma solução para o racismo presente na nossa sociedade? O questionamento é polêmico e não se pretende esgotar todas as vias de debate aqui neste texto. O objetivo é provocar reflexão. 

O que Thomas Sowell diria para o caso da Ável e XP

O economista americano Thomas Sowell, em seu livro “Discriminação e disparidades”, aborda a problemática do racismo sob um viés estatístico. Sowell traz um importante cenário sobre o apartheid na África do Sul: empresários sul-africanos brancos descumpriam as leis racistas da época e contratavam negros em números acima do permitido e em cargos de níveis mais altos do que se era permitido. 

De acordo o economista, ainda que fossem racistas, os empresários brancos sul-africanos optavam por não arcar com o custo de deixar de contratar mão de obra qualificada de trabalhadores negros que poderiam tornar suas empresas mais lucrativas. 

Ao longo da obra, a conclusão a que o autor chega com base em dados é que discriminar alguém por sua cor de pele não é economicamente interessante.

O mercado de produtos veganos

Outro ponto para analisar: o mercado de cosméticos veganos e cruelty free. 

Há pouco tempo, nem sequer se ouvia falar sobre a problemática de utilização de produtos de origem animal e de realização de testes em animais para cosméticos. Num piscar de olhos, o cenário mudou e hoje o consumidor é consciente de suas escolhas: se puder optar, certamente escolherá um produto que não testa e não utiliza matéria-prima de origem animal. 

Essa mudança não foi provocada por imposição legal e administrativa. Inclusive, na contramão das tendências de mercado, alguns países exigem que empresas testem seus produtos em animais antes de vender ao consumidor final. Ainda assim, o mercado só cresce — e todo vegano deveria ser um ferrenho defensor do capitalismo.

Considerações finais

O livro de Thomas Sowell nos revela que deixar de contratar pessoas tecnicamente capacitadas traz prejuízos econômicos com os quais nem o racista quer arcar.

A observação do mercado de cosméticos veganos nos mostra uma mudança de panorama provocada pela consciência de consumo, mesmo com a legislação jogando contra a mudança de mercado.

Assim, permanece o questionamento: seria a imposição regulatória ou judicial uma boa alternativa para alterar o cenário trazido pela foto da equipe de funcionários da empresa Ável? Te convido a refletir.

Anna Luiza Guerzet é advogada empresarial pela Ufes e associada do Instituto Líderes do Amanhã.

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