Hong Kong e Chile: entendendo os dois protestos (e o que aprender com eles)

Em 2019, milhões de pessoas tomaram as ruas com protestos em Hong Kong, assim como no Chile. Apesar de muitos feridos e mortes nos dois eventos, ambos surtos de protestos revelam psicologias muito diferentes.

A Hong Kong moderna é um produto do colonialismo. Já o Chile moderno é o produto da ditadura. Os dois países têm histórias distintas que moldaram suas respectivas culturas.

As razões dos protestos em Hong Kong

Hong Kong foi conquistada pelos britânicos no século XIX como consequência da Primeira Guerra do Ópio. O resultado foi a adoção do mesmo sistema jurídico britânico na ilha, mas pouco mais foi imposto.

Houve uma espécie de negligência benigna nos últimos cinquenta anos à transferência de 1997 para a China. O resultado foi um crescimento econômico estelar e autonomia relativa.

Hong Kong continua a ser a joia da coroa da Ásia, com um PIB per capita de cerca de 46 mil dólares, o quádruplo do brasileiro. 

Assim, os habitantes de Hong Kong vêem a si próprios como um tipo especial, ou pelo menos querem definir-se como algo diferente dos cidadãos chineses.

Não é de admirar: em comparação com o resto do mundo, Hong Kong é um exemplo brilhante de mercados livres e abertos. Eles têm uma forte cultura comercial. E enxergam a República Popular da China e o seu Partido Comunista como autoritários.

Seus protestos são motivados pelo desespero de manter a liberdade, a prosperidade e a identidade — apesar de um passado colonial.

As razões dos protestos no Chile

Porém, enquanto os habitantes de Hong Kong querem auto-governo, autonomia e mais liberdade, o caso dos chilenos é bem diferente. 

Embora o Chile tenha uma história rica antes do governo socialista de Salvador Allende, sua ascensão foi um importante evento catalisador. Foi deposto pelo general Augusto Pinochet, que liderou um golpe militar em 1973. A brutalidade da ditadura chilena ficou marcada pelo expurgo e morte de milhares de inimigos políticos.

O fato se tornou a vergonha nacional do Chile. No entanto, as contra-reformas de Pinochet foram mais favoráveis à propriedade privada e ao livre mercado. Décadas depois, o resultado foi que o Chile protagonizou a melhor história de sucesso econômico da América do Sul, liderando a lista de países com PIB per capita. Então, por que estão os chilenos protestando

Um aumento da tarifa de ônibus.

Naturalmente, os manifestantes encaram tais aumentos de tarifa como indicativos de grande disparidade de riqueza no Chile, apesar de uma pontuação de desigualdade ligeiramente inferior à de Hong Kong. Muitos chilenos enxergam seu sucesso econômico comparativo como muito desigual e ligado à ditadura.

Mais do que isso: a desigualdade no Chile caiu, mas a percepção dos chilenos é de que ela aumentou.

“As medidas que os governos tomam são remendos que não acabam ajudando ninguém”, diz a estudante de medicina Natalia Torres, de 24 anos, citada no Business Insider. “Acabam por enriquecer os ricos e empobrecer os pobres”.

O legado da ditadura

De acordo com a Foreign Policy, a associação entre a elite governante de hoje e Pinochet é inegável.

Muitos dos fundadores iniciais [do partido conservador] estavam na casa dos 20 e 30 anos na época da transição e, portanto, ainda continham um componente importante da direita chilena.

Por exemplo: o recentemente demitido ministro do Interior do país, que inicialmente tentou sufocar os protestos com a repressão do governo, foi um dos líderes fundadores da UDI e um dos primeiros deputados nacionais. Outro dos primeiros líderes da UDI, Hernán Larraín, ainda preside o Ministério da Justiça.

Enquanto os chilenos considerarem que seus problemas estão ligados ao legado da ditadura, é provável que ignorem qualquer progresso econômico que o Chile tenha feito em relação ao resto da América do Sul.

Embora tenham sacado o cheque de Pinochet, sabem que foi assinado com sangue. Porém, muitos chilenos — especialmente os jovens — acreditam que, para apagar essa mancha histórica, não só devem se livrar do legado do ditador, mas voltar ao socialismo.

É irônico, então, que o aumento da tarifa da Transantiago tenha provocado os protestos: o sistema de trânsito privado, antes saudável financeiramente e com robustos investimentos, foi socializado há uma década.

O que aprender com os protestos em Hong Kong e no Chile

Então, o que podemos abstrair destas duas histórias? A questão mais preocupante é que não é provável que alguma delas acabe bem. 

Em Hong Kong, os manifestantes estão lutando duro e se mantendo nisso porque sabem que o governo do continente joga um longo jogo. Um manifestante, citado no The Atlantic, reflete um sentimento bastante niilista entre os habitantes de Hong Kong: “Mais vale cairmos lutando”. 

De certa forma, Hong Kong é uma cidade-estado cheia de “homens-tanque” da Praça Tiananmen. Eles querem autogoverno. Querem mercados livres sem interferência de Pequim. De fato, os candidatos pró-democracia ganharam terreno nas recentes eleições do conselho distrital. Mas é provável que o regime chinês manipule o sistema e restrinja a influência deles. É difícil ver qualquer cenário em que o Partido Comunista desista.

Em contraste, o socialismo na América do Sul é um vírus mental persistente, especialmente como uma resposta à corrupção generalizada, ao populismo e ao clientelismo.

Não podemos deixar de nos perguntar se o Chile, em seus esforços para lavar o legado de Pinochet, descartará o grau de liberalismo econômico que o tornou o primeiro país da América Latina a ser considerado desenvolvido.

O Chile não é, de forma alguma, perfeito, mas está em flagrante contraste com experiências como a da Venezuela, ou do vizinho irresponsável Argentina, com sua dívida de grandes dimensões e impressão de dinheiro.

Governados precisam consentir

Como alguém que trabalha na área do desenvolvimento internacional, criando “zonas de prosperidade” autônomas, vejo muito a ser admirado tanto em Hong Kong quanto no Chile.

Mas para além dos mercados relativamente livres, os dois movimentos de protesto parecem partilhar apenas uma coisa em comum: a sua agitação é paralela ao grau em que encaram as suas regras de funcionamento e governantes como sendo-lhes impostas.

O governo por maioria democrática nem sempre é suficiente para acalmar a agitação, especialmente em cenários polarizados em que metade do país impõe as suas regras à outra metade.

“Apenas uma coisa garante a produção de boas leis”, escreve Michael P. Gibson, gerente de hedge fund. “As pessoas vinculadas pelas leis têm de concordar em ficar vinculadas a elas: o consentimento deve ser real, transparente e contínuo.”

A maior parte do mundo falha em apreciar esse insight. 

Mas não há como contornar isso: é preciso o consentimento do governo. Não é hipotético. Não tacitamente. Consentimento real.

Um sistema de leis que preveja a regulação ou expropriação em nome dos camaradas não criará paz nem estabilidade a longo prazo. O poder do estado destrói as bases da cooperação voluntária.

E, ao fazê-lo, destrói o que torna uma sociedade atraente, levando a batalhas eternas entre os grupos constituintes sobre regulações favoráveis e os pagamentos de transferências.

Lições dos protestos em Hong Kong e no Chile

Embora nem o Chile e tampouco Hong Kong sejam uma utopia, cada um deles é um farol. Mas se a opressão socialista da China e o populismo socialista do Chile persistirem, é provável que eles percam sua vantagem como centros comerciais.

Minha esperança é que a criação de novas jurisdições especiais permita a criação de novas ilhas de liberdade econômica no mundo.

Dediquei a minha vida à criação destes nichos, porque a liberdade e a livre iniciativa continuam a ser a melhor esperança da humanidade. Talvez os chilenos e os habitantes de Hong Kong encontrem alguma margem de paz para além deste caos.

O Chile é um país grande, eles teriam espaço suficiente para iniciar uma zona de prosperidade como uma experiência de liberdade. E se os protestos de Hong Kong forem em vão, então uma Nova Hong Kong poderá ser criada na região fora da China.

No mínimo, podemos esperar que as gerações futuras aprendam algo com as suas experiências. Talvez haja algum lugar na terra para ir quando o socialismo retornar a cada um deles.

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Titus Gebel

Por:

Empreendedor alemão com PhD em Direito. Atualmente, é CEO da Free Private Cities Inc, empresa que busca implementar o modelo de cidade privada.

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