A crueldade do regime de Kim Jong-un

Esse ano, Kim Jong-un, líder Supremo da Coréia do Norte, foi foco da mídia internacional em razão de sua saúde: no dia 12 de abril, Kim fez uma cirurgia cardíaca.

Depois disso, a inteligência americana reportou que o ditador não estava se recuperando bem e poderia estar à beira da morte. No entanto, Coreia do Sul e China discordaram dessa informação, alegando que ele estava bem.

É difícil obter informações confiáveis sobre o estado de saúde do líder norte-coreano, bem como informações sobre qualquer coisa o país que ele governa. Então, trataremos sobre o que é se sabe sobre ele e o regime comunista que assola o país.

Kim Jong-un governa com extrema brutalidade, o que coloca sua nação entre os piores violadores de direitos humanos do mundo. Aqui estão algumas das atrocidades que acontecem ou já aconteceram na Coreia do Norte.

Uma rede de gulags

Os norte-coreanos vivem com medo e essa é uma estratégia do modelo de governo do ditador. Por lá, pessoas acusadas de crimes políticos são presas e levadas para campos de prisioneiros sem julgamento, enquanto suas famílias são mantidas no escuro sobre seus paradeiros.

Até 120 mil presos estavam entre as quatro principais prisões políticas do país em 2014 e foram submetidos a condições terríveis de encarceramento, de acordo com a ONU.

Nesses campos, os prisioneiros passam fome, são torturados, estuprados e forçados a trabalhar. Além disso, os direitos reprodutivos são negados por meio de abortos induzidos e infanticídios.

Às vezes, as execuções acontecem inclusive em público. Segundo um relatório das Nações Unidas, centenas de milhares de presos políticos morreram nesses locais nos últimos 50 anos.

Junto aos campos políticos, a Coreia do Norte também opera prisões para os acusados ​​de crimes comuns. Algumas das quais são campos de trabalho de curto prazo. Outros, servem para manter prisioneiros que enfrentam tortura por longos períodos.

Execuções de inimigos

Desde que assumiu o poder em 2011, substituindo seu pai, Kim Jong-il, ele consolidou seu poder por meio de execuções. Nos primeiros seis anos como líder, Kim ordenou a execução de pelo menos 340 pessoas, de acordo com o Institute for National Security Strategy

Em 2016, por exemplo, Kim Yong-jin, vice-premiê da educação, foi morto na frente de um esquadrão de fuzilamentos, após mostrar “postura desrespeitosa” em uma reunião.

Da mesma forma, Hyon Yong-chol, general das forças armadas, foi executado com artilharia antiaérea. O motivo? Ele adormeceu em uma reunião.

Familiares também não estão fora da lista. Um dos tios do ditador, Jang Song-thaek, foi condenado por traição e, depois de ser executado com metralhadoras antiaéreas, teve seu corpo incinerado com lança-chamas.

Em 2017, Kim Jong-nam, o irmão afastado do ditador norte-coreano, foi morto de uma maneira muito pública: próximo a um balcão de check-in no Aeroporto Internacional de Kuala Lumpur, na Malásia.

Duas mulheres foram flagradas por câmeras de segurança caminhando até ele e esfregando uma substância em seu rosto. Mais tarde, ficou determinado que tratava-se de um agente químico de guerra conhecido como VX.

Kim Jong-nam morreu em poucos minutos e as mulheres foram presas. Porém, representantes dos Estados Unidos disseram que, segundo as evidências, a Coreia do Norte foi responsável pelo ataque.

“Uma máquina de doutrinação”

Muitas vezes, entre as primeiras violações de direitos humanos atribuídas ao governo norte-coreano, está a extensão das medidas tomadas para doutrinar seus cidadãos.

De acordo com um relatório de mais de 300 páginas, elaborado pela Comissão de Inquérito das Nações Unidas, a Coreia do Norte:

Opera uma máquina de doutrinação abrangente que se enraíza desde a infância, para propagar um culto oficial à personalidade [do Kim] e resultar em obediência absoluta.

O pensamento independente é reprimido, enquanto propagandas que glorificam o estado e visam “incitar o ódio nacionalista contra inimigos oficiais”, como Japão e Estados Unidos, são abundantes.

O cristianismo é considerado uma “ameaça séria”

Em sua lista de 2018, o grupo Open Doors classificou a Coreia do Norte como a pior nação do mundo para os cristãos. O governo norte-coreano considera perigosa a disseminação da maioria das religiões, mas o cristianismo é considerado uma “ameaça particularmente séria”.

A justificativa, segundo relatório das Nações Unidas, é de que a religião “fornece uma plataforma para organização social e política e interação fora do domínio do Estado”.

O documento ainda expôs que a prática do cristianismo é proibida e que aqueles pegos descumprindo a lei estão “sujeitos à punições severas”. Dentre elas está a detenção em campos de prisioneiros.

Em 2012, ao serem entrevistados pelo The New York Times, quatro norte-coreanos disseram ter sido avisados ​​de que o gulag aguardava aqueles que conversavam com jornalistas ou missionários cristãos.

“Se o governo descobrir que estou lendo a Bíblia, estou morta”, disse uma mulher.

“Fome deliberada” como peça de poder

Acredita-se que dois a três milhões de pessoas tenham morrido durante uma fome prolongada na Coreia do Norte, nos anos 90. A notícia foi veiculada no The New York Times em 1999, quando o país começou a se recuperar.

Na época, o governo norte-coreado usava comida como uma ferramenta de reforço à lealdade política, priorizando sua distribuição de acordo com a utilidade do cidadão ao sistema político da nação.

Mais recentemente, a população presa nos campos do país foi abatida por uma “fome deliberada”, segundo o relatório, informando ainda que os suspeitos também passam fome como forma de “aumentar a pressão sobre eles para confessar e incriminar outras pessoas”.

Além disso, quando o relatório de 2014 foi realizado, ficou constatado que a fome e a desnutrição ainda eram problemas generalizados na população norte-coreana.

Essa documentação fez com que a Comissão das Nações Unidas levantasse preocupações de que outra fome em massa poderia ocorrer. Afinal, foi registrado que “leis e políticas que violam o direito à alimentação adequada e à libertação da fome permanecem em vigor”.

Artigo escrito em parceria com Matthew Haag, jornalista do The New York Times.

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Maya Salam

Por:

Jornalista do The New York Times.

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