5 mitos sobre as estatais a preço de banana

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5 mitos sobre as estatais a preço de banana

Por Raphaël Lima

O Ministro da Economia Paulo Guedes anunciou a lista das 17 estatais que serão privatizadas, como a Casa da Moeda, a Eletrobrás, e os Correios. E então os nacionalistas, à esquerda principalmente, mas também os à direita, endossam a velha narrativa de que as companhias valem muito mais do que o valor que está sendo cobrado.

As conspirações começam, pois tudo se trataria de algum esquema de corrupção, ou mesmo de puro “entreguismo”: tudo para prejudicar “o povo”. O símbolo deste argumento é o brado “estão vendendo a preço de banana!”

Esse argumento, porém, não faz o menor sentido, e aqui está 5 mitos sobre ele.

1) Estatais a preço de banana? Então por que ninguém compra?

A primeira objeção lógica a esse argumento é: se a empresa está sendo vendida a um preço tão baixo, porque outro comprador não dá um lance mais alto?

Digamos que uma estatal qualquer está sendo vendida a R$ 100 milhões, mas opositores acham que ela vale R$ 200 milhões. Ora, qualquer um com dinheiro na mão poderia ver a mesma oportunidade e chegar com um lance superior e levar para casa. 

Por que isso não acontece?

Especialmente no caso de empresas listadas na bolsa de valores, em que comprar ações é muito fácil, deveríamos esperar que outras companhias ou mesmo fundos de investimentos fossem mais espertas. O que elas estão esperando para arrematar uma fatia desse filé vendido a desconto?

Ou o defensor da estatal é mais inteligente em avaliar empresas do que todos os outros investidores que existem no mercado, o que é extremamente improvável, ou que ele está errado em sua avaliação.

Por que, por exemplo, quem afirmou que a privatização da BR Distribuidora se deu por um preço baixo não fez movimentações para comprar ações na Bovespa? 

A resposta é simples: o fato dos defensores das estatais não aproveitarem para arrematar essa suposta bagatela se dá pelo fato de que toda a sua linha de argumentação é balela, equivocada e proselitismo político.

2) Estatais não são boas empresas

Compradores avaliam empresas de várias formas, mas no final se reduzem a duas: avaliação de fluxo de caixa futuro descontado e avaliação fundamentalista.

A avaliação de caixa, de maneira muito geral, é simples em conceito, embora extremamente difícil na prática.

A pergunta é: quanto dinheiro isso aqui pode dar no futuro? Feito isso, o retorno futuro é ajustado para valores de hoje e o valor do bem calculado.

Para estatais, a maior parte dos casos responde com prejuízos hoje e lucros incertos no futuro. Incerteza gera um desconto no preço.

A avaliação fundamentalista, de maneira muito geral, olha para o valor atual do bem e que diferenciais ele oferece. O que uma estatal oferece? Em geral, uma força de trabalho muito politizada, com sistema de incentivos inadequado e possivelmente avessa ao comprador.

Há ainda uma estrutura provavelmente sucateada e quase certamente muito atrasada em relação aos seus concorrentes, uma contabilidade misteriosa que precisará ser auditada, ameaças de reestatização e muitos outros problemas. Quanto isso vale? Não muito.

Isso significa também que a empresa precisará passar por um grande choque de gestão, além de ser remodelada para funcionar adequadamente.

Não se faz isso numa empresa de porte significativo em menos de um ano. Dependendo do nível de aparelhamento e engessamento institucional, isso pode se arrastar por algum tempo.

São anos em que a empresa não estará ganhando o dinheiro que poderia ganhar. Lucros desperdiçados, investimentos necessários para um futuro incerto e alto custo de oportunidade.

Vale lembrar: a qualquer momento o investidor poderia comprar ações de outras empresas listadas em qualquer bolsa do mundo.

Por que alguém deveria investir enormes somas em uma empresa estatal brasileira cheia de problemas quando pode perfeitamente comprar ações da Coca Cola ou do Itaú e viver de dividendos?

Sendo ainda mais simples na estratégia, por que comprar uma estatal brasileira e se dar ao trabalho de resolver essa bagunça?

Há uma alternativa bem ao lado: comprar um tesouro direto brasileiro e viver de juros sem fazer estrita e absolutamente nada.

Em vez de investir R$ 1 bilhão na compra de uma estatal, considerando que o tesouro direto rende 7,3% ao ano, é possível ganhar R$ 73 milhões por ano com precisamente nenhum esforço.

Poucas ações no Brasil oferecem um dividendo com força maior que isso, quem dirá uma estatal em frangalhos.

Tudo isso reduz o valor da estatal a ser vendida.

3) O risco da corrupção passada

Você sabia que uma empresa privatizada ainda é responsável por atos de corrupção no passado?

Digamos que a Eletrobrás é privatizada e daqui dois anos se descobre um enorme escândalo de corrupção lá dentro, causando danos à imagem da empresa, além de multas bilionárias.

Será responsabilizado criminalmente quem comprou a empresa.

Isso é feito para evitar que atos de corrupção sejam “lavados” via vendas. Se não fosse o caso, políticos corruptos poderiam regularmente vender para outras estatais as companhias que foram palco de esquemas. Seria uma gigantesca dança de cadeiras em que no final das contas ninguém é responsável por nada.

Isso significa que o comprador da Eletrobrás será obrigado a pagar por qualquer coisa que venha a ser descoberta de corrupção por gestões passadas da empresa.

Qual o valor disso em reais?

Quantos escândalos de corrupção podem ter ocorrido dentro dos Correios, Eletrobrás, empresas de transporte coletivo, portos, aeroportos, armazéns e tantas outras estatais que ainda não tenham sido prescritos?

Como praticamente nenhuma estatal no Brasil possui um sistema mínimo de compliance, as estatais brasileiras não servem nem para serem privatizadas.

Claro que ainda as defendo que elas o sejam, mas isso representa um risco, e quanto mais riscos, menores os valores.

4) Insegurança jurídica 

Ninguém aqui é Mãe Dináh. Uma coisa é comprar uma empresa na Alemanha, Austrália ou Canadá. São países mais estáveis, confiáveis e muito mais previsíveis do que o Brasil.

Vamos fazer um exercício.

Pense quantos absurdos econômicos, jurídicos, legislativos e executivos podem ser colocados em prática nos próximos dez anos.

Olhe para as eleições presidenciais de 2014: alguém poderia imaginar que o Brasil passaria por um impeachment, a Lava Jato prenderia dois ex-presidentes da república e o ex-presidente da Câmara dos Deputados e que o país enfrentaria a maior recessão de sua história?

O cenário político brasileiro é instável. O que poderá ocorrer no próximo ano? E na próxima década? Já pensou o que seria de um Guilherme Boulos eleito em 2026?

Quanto maior o investimento, maior o horizonte, e quanto maior a incerteza desse horizonte, maior o desconto no valor de venda da empresa estatal.

Um caso clássico de insegurança jurídica ocorreu na privatização da Vale. O leilão foi feito em meio a imensa judicialização do processo de privatização.

A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e o Partido dos Trabalhadores (PT) entraram com ações pedindo o cancelamento da venda da estatal no Supremo Tribunal Federal.

Tudo isso causou um clima de incerteza nos potenciais compradores, especialmente estrangeiros, o que significou, necessariamente, “a exigência de um preço de aquisição mais baixo”.

Quem repete o jargão das estatais a preço de banana provavelmente não sabe, ou ignora, tudo isso.

5) O risco da reestatização

Um caso especial desse risco sobre o futuro do Brasil é o risco de expropriação. Políticos vivem fazendo maluquices em controles de preço, restrições de comércio ou cartelização.

Mas e quando o governo decide simplesmente roubar sua empresa de você?

Ciro Gomes prometeu justamente isso em 2018: reestatizar os poços de petróleo leiloados pelo governo Temer.

Segundo o candidato, “devidas indenizações” seriam pagas. Quem define o que é uma “devida indenização”?

Você será restituído pelos investimentos realizados ou será que o governo pode discordar do seu investimento, da sua contabilidade ou criar um argumento qualquer para lhe pagar menos do que você gastou?

Esses riscos reduzem ainda mais o valor da empresa a ser comprada.

Isso já ocorreu na Argentina, de forma ainda mais maluca: em 1991 Cristina Kirchner apoiou a privatização da petroleira YPF. 20 anos depois, ela foi a responsável por sua reestatização.

Nunca duvide de um político, especialmente dos latino-americanos.

Por | 2019-08-21T12:14:17-03:00 21/08/2019|Economia|Comentários desativados em 5 mitos sobre as estatais a preço de banana