3 heróis negros essenciais para a abolição da escravatura

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3 heróis negros essenciais para a abolição da escravatura

No dia 13 de maio de 1888, foi assinada a Lei Áurea, a partir da qual, a escravatura no Brasil estava finalmente abolida. Porém, apesar de esse acontecimento evocar à maioria das pessoas apenas à Princesa Isabel, muitos heróis negros foram protagonistas do movimento abolicionista brasileiro.

“O princípio básico da liberdade é que você é dono do seu próprio corpo, e do seu próprio trabalho. Porém, se existe um sistema que permite que as pessoas sejam propriedade de outras e que tenham menos direitos que outros, esse sistema é essencialmente antiliberal”.

Essa palavras são do escritor Leandro Narloch, para quem a Lei Áurea é a maior reforma liberal da história do país. Nesse sentido, listamos abaixo três grandes nomes, que merecem grandes homenagens.

Luiz Gama, o maior abolicionista do Brasil

Nascido de mãe negra livre e pai branco em 1830, com apenas 10 anos, foi escravizado ilegalmente pelo próprio genitor e vendido para o pagamento de uma dívida de jogo.

luiz gama
Escritor, jornalista, advogado e baiano ilustre. Luiz Gama é reconhecido por muitos como o maior abolicionista do Brasil.

Como os escravos baianos tinham a fama de “fujões”, o alferes que o comprou junto a outros 100 escravos em São Paulo, não conseguiu vender Luiz Gama. Assim, acabou sendo utilizado como empregado doméstico na fazenda de Cardoso, na cidade interiorana de Lorena.

Em 1847, o estudante Antônio Rodrigues de Araújo foi recebido e ficou hospedado na fazenda do alferes. Na época, Gama tinha 17 anos e, ao tornarem-se amigos, aprendeu a ler e escrever. 

Com o letramento, ele percebeu que havia sido escravizado ilegalmente. Então, fugiu para a cidade de São Paulo em 1848, onde conseguiu sua libertação por via judicial.

Mais tarde, tentou frequentar o curso de direito como ouvinte na Faculdade do Largo de São Francisco, mas foi vítima de vil racismo de seus colegas. Dentre eles, a maioria pertencia à elite escravocrata paulista.

Apesar disso, tornou-se rábula (advogado sem diploma) ao estudar a profissão como autodidata. Assim, passou a atuar ativamente pela libertação de escravos nos tribunais, tendo conseguido a soltura de mais de 500 cativos.

Com o passar do tempo, foi reconhecido como advogado e, sendo muito admirado, montou escritório com os professores Dino Bueno e Januário Pinto Ferraz.

Na década de 1860, tornou-se jornalista influente, ligado aos círculos do Partido Liberal. Inclusive, chegou a fundar seu próprio periódico: “O Radical Paulistano”, no qual dividiu espaço com seu amigo e companheiro Rui Barbosa.

Referência entre os heróis negros, foi liderança do movimento abolicionista e, sua morte, em 1882 – aos 52 anos –, gerou imensa comoção na sociedade paulistana.

Dragão do mar, pioneiro na abolição dos escravos

Cinco anos antes da Lei Áurea, a província do Ceará aboliu a escravatura e libertou todos os seus escravos. Um dos principais responsáveis por isso foi Francisco José do Nascimento, conhecido como Chico da Matilde.

Jangadeiro de origem pobre, pardo e trabalhador do mar. Com a morte de seu pai, foi criado pela mãe com dificuldades. Já aos oito anos de idade, trabalhou como garoto de recados a bordo de embarcações, para ajudar no sustento da família. Assim, logo conheceu a realidade do tráfico negreiro.

Chico ficou conhecido como Dragão do Mar em 1884, quando os integrantes dos movimentos abolicionistas cearenses foram convidados a se reunir no Rio de Janeiro.

Aos 20 anos, Chico conseguiu se alfabetizar e tornou-se marinheiro, trabalhando no percurso Maranhão-Ceará. 15 anos depois, em 1874, ele assumiu a posição de prático da Capitania dos Portos.

Após participar do Congresso Abolicionista realizado em Maranguape em 1881, ele passou a atuar diretamente em defesa da libertação.

Naquele ano, com estímulo da Sociedade Cearense Libertadora, Chico fechou o Porto de Fortaleza em 30 de agosto, a fim de impedir o embarque de escravos para outras províncias.

A partir daí, passou a conduzir sua jangada em direção às embarcações que entravam no Porto do Mucuripe para comunicar o rompimento do tráfego negreiro no estado.

Além disso, Chico da Matilde utilizou sua própria residência para esconder escravos foragidos. Por liderar a paralisação, ele perdeu o cargo de prático, posição que apenas voltou a ocupar em 1889 por ordem de Dom Pedro II.

Esse protagonismo no movimento lhe renderam um novo nome: Dragão do Mar, reverberado por multidões ao desfilar pelas ruas. Aclamado pela imprensa nacional, contribuiu para o crescimento da campanha abolicionista e diversos núcleos espalharam-se pelo Ceará.

Com o tempo, o número de alforrias na província cresceu e em 24 de maio de 1883, Chico estava na sessão da Assembleia que libertou os escravos de Fortaleza. Enfim, no dia 25 de março do ano seguinte, todos no Ceará estavam livres.

Porém, a sua luta não cessou com a Lei Áurea. Em 1902, ele promoveu uma greve com os trabalhadores de embarcações, quando nenhum branco foi sorteado para prestar serviços militares. Esse ato foi um enfrentamento direto ao então governador, Pedro Borges.

Dessa forma, Dragão do Mar é um dos maiores heróis negros e símbolo de resistência à escravidão nacional. Em 2017 seu nome foi inscrito no Livro dos Heróis da Pátria, localizado no Panteão da Pátria e da Liberdade Tancredo Neves, em Brasília. 

Cruz e Sousa, prodigioso poeta liberal

Dante negro, como tornou-se conhecido, Cruz e Sousa é um dos inúmeros autores brasileiros a utilizar seu prestígio e articulação em prol da causa abolicionista. Não à toa, integra a lista de heróis negros do Brasil.

Filho de escravos alforriados, foi graças ao apoio dos patrões de seus pais que ele estudou em alguns dos melhores colégios de sua época. Além disso, pela proximidade que mantinham, Cruz também acabou adotando o sobrenome da família Sousa.

Talentoso, aos oito anos de idade, Cruz e Sousa revelou-se um poeta precoce ao declamar versos de sua autoria.

Em sua obra, um marco na história do Simbolismo brasileiro, Cruz e Sousa explicita sua bagagem cultural africana, assim como sua educação europeia.

Professor e jornalista, Cruz e Sousa chegou a comandar um jornal em Santa Catarina, no qual defendia abertamente a abolição da escravatura. Esse fato, possibilitou a ele percorrer o país em campanha.

Devido à sua vida sofrida e à sua condição de escravo liberto em um país ainda escravagista – e abertamente racista – , a carreira de Cruz e Sousa é um marco por desafiar os padrões da época.

Inclusive, isso refletiu em sua obra, cuja produção rompeu com o classicismo mantido pelos poetas parnasianos. Segundo o autor francês Roger Bastide, seu caráter único, bem como seu enfoque na razão e no individualismo foram os diferenciais que lhe permitiram transcender.

Assim, Cruz e Sousa firmou-se como proeminente autor da literatura nacional. Por fim, nem sua morte prematura impediu que sua obra o eternizasse como um dos símbolos da luta pelas liberdades individuais, da racionalidade e da poesia nacional.

Uma legislação incompleta

A libertação dos escravos não foi acompanhada de qualquer indenização ou garantia de acesso a propriedades ou educação. Portanto, a maior reforma liberal da história brasileira foi imperfeita.

Ao lhes negar legítimos direitos, os indivíduos que foram escravizados tiveram suas possibilidades de ascensão social e de viverem com dignidade tolhidas. Isto é, apesar de livres, eles foram deixados à própria sorte.

Inclusive, os reflexos dessa falha ainda podem ser vistos, entre as diversas dificuldades vivenciadas por negros diariamente no Brasil. Não foram desigualdades naturais, mas com origem histórica a partir da opressão permitida pelo estado brasileiro.

Contudo, não podemos esquecer nem, muito menos, tirar o mérito dos heróis negros que travaram essa luta. Afinal, no 13 de Maio, há pouco mais de um século, a instituição mais perversa da história do país chegava ao fim.

*Luan Sperandio é Head de Conteúdo do Ideias Radicais; Felippe Hermes é co-fundador do Spotniks e editor-chefe do BlockTrends; André Spigariol é repórter da CNN Brasil.

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Por | 2020-05-25T02:39:39-03:00 13/05/2020|Libertarianismo|Comentários desativados em 3 heróis negros essenciais para a abolição da escravatura