1984, a obra prima de George Orwell

George Orwell, filho de pais ingleses, nasceu na Índia Britânica em 1903, país onde seu pai trabalhava. Com um ano de idade, mudou-se para a Inglaterra. No campo político, Orwell descrevia-se como um socialista democrático. Suas célebres obras “A Revolução dos Bichos” e “1984” possuem um cunho político forte, mais especificamente uma crítica aos governos totalitários que ascenderam no século XX.

O que você pode aprender com 1984

Em “1984” Orwell narra, na forma de romance, a história de Winston, um habitante comum da Oceânia, país dominado pelas políticas totalitárias do Partido. Na cidade havia inúmeros cartazes espalhados com a figura do Big Brother, o Grande Irmão, representante do Partido. Neles havia a mensagem “O Grande Irmão está de olho em você”, um lembrete aos cidadãos, para não se esquecerem de que estavam sendo a todo tempo vigiados. E a vigilância era, de fato, integral. Na casa de cada indivíduo havia um aparelho chamado teletela, que possuía uma dupla função: monitorar tudo o que se falava ou fazia, bem como passar notícias e vídeos em favor do Partido. Não era possível desligar a teletela, nem mesmo deixa-la muda. 

O protagonista Winston trabalhava no Ministério da Verdade, órgão do governo que, contrariamente ao que seu nome indicava, tinha como propósito alterar a verdade dos fatos, mudar o passado, de modo a apagar as memórias das pessoas sobre qualquer outro mundo que não fosse aquele controlado pelo Partido. Opositores também eram eliminados da história. Revistas e jornais publicados no passado eram constantemente revistos, excluindo imagens e nomes de pessoas, como se estas jamais tivessem existido. 

Os outros ministérios também possuíam nomes contraditórios à sua real função: o Ministério da Paz cuidava da guerra; o Ministério do Amor perseguia e punia os infratores e aqueles que ousavam pensar de forma contrária aos valores e às regras do partido; o Ministério das Pujanças era o responsável para lidar com a escassez e distribuir bens e rações à população. 

O Partido controlava absolutamente tudo, inclusive os prazeres das pessoas. Casamentos, por exemplo, só eram autorizados quando o casal não tinha atração física e sexo devia ser utilizado apenas para procriação, nunca para satisfação ou prazer. 

Os paradoxos de 1984

Os paradoxos que marcavam os nomes dos ministérios eram reflexos da prática do “duplipensamento”, disseminada pelo Partido. Tal prática significava abrigar na mente, de forma simultânea, duas crenças contraditórias a acreditar em ambas. Com isso, as pessoas sabem que a verdade está sendo violada, mas, ao mesmo tempo, são convencidas de que não está. Fazendo um paralelo com a realidade atual, a prática do duplipensamento é utilizada por governos que querem impor a sua versão de verdade, quando, ao mesmo tempo, persegue os opositores do governo e impede transmissões de rádios e canais de televisão privados. 

Nesse cenário de controle absoluto e vigilância, Orwell desenvolve seu drama. O protagonista, Winston, tem leves recordações do mundo antes da dominação pelo Partido, na época dos abomináveis “capitalistas”, e começa a se dar conta que não devia ter sido tão terrível como narram as histórias do Partido. Com esse sentimento, e de forma oculta, Winston começa a transferir seus pensamentos de revolta para um diário secreto. Ao longo da trama, Winston se apaixona por Julia e, juntos, buscam formas de se revoltar contra o Partido, especialmente por meio de um grupo secreto chamado Confraria, que, aliás, ninguém sabia ao certo se realmente existia. 

[ALERTA DE SPOILER NO PRÓXIMO PARÁGRAFO]

O fim da história é surpreendente, pois, em vez de um esperado final feliz típico dos romances clássicos, Winston e Julia são descobertos pelo Partido, que a todo momento acompanhava seus movimentos, e passam por uma lavagem cerebral à base da opressão e da tortura. Ao final, acabam se convertendo aos ideais do Grande Irmão, transmitindo sobre os perigos do estado totalitário.

Considerações finais

A conclusão do livro deixa claro que um sistema totalitário, manipulador e com mecanismos tecnológicos para vigiar cada detalhe da vida dos indivíduos dificilmente pode ser derrubado, sobretudo quando toda a estrutura é voltada para um único propósito: a perpetuação do poder.

Nesse ponto, o Partido não tem pretensão de viver de luxo ou de se tornar um sistema hierárquico onde o filho do rei se torna seu sucessor natural. A finalidade é voltada apenas à perpetuação do poder pela entidade partidária. A filosofia utilizada é de que as pessoas lutam contra poderes hereditários, por encartá-lo como um privilégio de classe. E, erroneamente, creem que aquilo que não é hereditário não é permanente. No entanto, as oligarquias mais duradouras são não hereditárias, à exemplo da Igreja Católica. Exatamente por isso, o Partido não se preocupa com a perpetuação do sangue, mas sim com a perpetuação de si mesmo, e obtém êxito. 

Apesar do enredo de romance criado pelo autor, o livro não se destaca pelo drama, mas sim pela mensagem crítica sobre o totalitarismo e uma visão futurística de que todo ser humano seria controlado e vigiado por meio da tecnologia, algo impensável à época. 

O livro foi lançado há exatamente 70 anos. E a cada momento, na atualidade, nos vemos mais próximos do 1984 desenhado por Orwell, seja por um governo chinês que controla as redes sociais de sua população; um governo americano que, por intermédio de sua agência de segurança (NSA), tem a capacidade de acessar celulares e câmeras de notebooks de qualquer indivíduo do planeta; um governo russo que sempre conta a sua verdade dos fatos, controlando o passado e se perpetuando para o futuro. 

A importância da obra de Orwell é manter viva a preocupação dos indivíduos sobre abrir mão de sua liberdade, entregando-a a um governo protetor. Parafraseando o iluminista Voltaire, “aqueles que renunciam à liberdade em troca de promessas de segurança acabarão sem uma nem outra”. Diante disso, é justamente por conta de sua visão crítica de uma distopia, que em muitos aspectos se aproxima da realidade, que o livro “1984” permanece atual e influente. 

Francisco de Aguiar Machado é Associado Alumni do Instituto Líderes do Amanhã

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